O Mistério e a Missão da Igreja
Os textos abordam a doutrina cristã sobre a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade e a fundação da comunidade religiosa. O Espírito Santo atua desde a criação e desperta a fé, guiando os crentes por meio de símbolos sagrados como a água, o fogo e a unção. A Igreja é apresentada simultaneamente como o Povo de Deus, o Corpo místico de Cristo e o Templo do Espírito Santo. Essa instituição possui uma natureza divina e humana, sendo enviada em missão para propagar a salvação universal. Por fim, os documentos destacam que os atributos fundamentais da comunidade eclesial consistem na sua unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.
Fonte:
Catecismo da Igreja Católica - Vaticano
ARTIGO
9
«CREIO
NA SANTA IGREJA CATÓLICA»
748.
«A luz dos povos
é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito
Santo, deseja ardentemente iluminar todos os homens com a sua luz que
resplandece no rosto da Igreja, anunciando o Evangelho a toda a
criatura» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium 1: AAS 57 (1965)
5). É com estas palavras que começa a «Constituição
Dogmática sobre a Igreja» do II Concilio do Vaticano. Desse
modo, o Concílio mostra que o artigo de fé sobre a Igreja depende
inteiramente dos artigos relativos a Jesus Cristo. A Igreja não tem
outra luz senão a de Cristo. Ela é, segundo uma imagem cara aos
Padres da Igreja, comparável à lua, cuja luz é toda reflexo da do
sol.
749.
O artigo sobre a Igreja depende também inteiramente do artigo sobre
o Espírito Santo, que o precede. «Com
efeito, depois de ter mostrado que o Espírito Santo é a fonte e o
dador de toda a santidade, nós confessamos agora que foi Ele quem
dotou de santidade a Igreja» (CatRom
I, 10, 1, p. 104). A Igreja é, segundo a expressão
dos Padres, o lugar «onde
floresce o Espírito» (Santo
Hipólito Romano, Tradição Apostólica, 35: ed. B. Botte (Münster
i.W. 1989) p. 82).
750.
Crer que a Igreja é «santa»
e «católica»,
e que é «una»
e «apostólica»
(como acrescenta o Símbolo Niceno-Constantinopolitano), é
inseparável da fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. No Símbolo
dos Apóstolos fazemos profissão de crer a Igreja santa («Credo...
Ecclesiam»), e não na Igreja, para não confundir Deus com as
suas obras e para atribuir claramente à bondade de Deus todos os
dons que Ele próprio pôs na sua Igreja (CatRom
I 10, 22, p. 118).
PARÁGRAFO
1
A
IGREJA NO DESÍGNIO DE DEUS
I.
Os nomes e as imagens da Igreja
751.
A palavra «Igreja» («ekklesía», do verbo grego
«ek-kalein» = «chamar fora») significa «convocação».
Designa as assembleias do povo em geral de carácter religioso. É o
termo frequentemente utilizado no Antigo Testamento grego para a
assembleia do povo eleito diante de Deus, sobretudo para a assembleia
do Sinai, onde Israel recebeu a Lei e foi constituído por Deus como
seu povo santo (Cf.
Ex 19). Ao chamar-se «Igreja»,
a primeira comunidade dos que acreditaram em Cristo reconhece-se
herdeira dessa assembleia. Nela, Deus «convoca»
o seu povo de todos os confins da terra. O termo « Kyriakê»,
de onde derivaram «church», «Kirche», significa
«aquela que
pertence ao Senhor».
752.
Na linguagem cristã, a palavra «Igreja»
designa a assembleia litúrgica (Cf.
1 Cor 11, 18; 14, 19.28.34-35), mas também a
comunidade local (Cf.
1 Cor 1, 2; 16, 1) ou toda a comunidade universal dos
crentes (Cf.
1 Cor 15, 9; Gl 1, 13; Fl 3, 6). Estes três
significados são, de facto, inseparáveis. «A
Igreja» é o povo que Deus reúne no mundo inteiro.
Ela existe nas comunidades locais e realiza-se como assembleia
litúrgica, sobretudo eucarística. Vive da Palavra e do Corpo de
Cristo, e é assim que ela própria se torna Corpo de Cristo.
OS
SÍMBOLOS DA IGREJA
753.
Na Sagrada Escritura, encontramos grande quantidade de imagens e
figuras ligadas entre si, mediante as quais a Revelação fala do
mistério inesgotável da Igreja. As imagens tomadas do Antigo
Testamento constituem variantes duma ideia de fundo, que é a de
«povo de Deus». No Novo
Testamento (Cf.
Ef 1, 22; Cl 1, 18), todas estas imagens encontram um
novo centro, pelo facto de Cristo Se tomar «a
Cabeça» deste povo (Cf.
II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57
(1965) 13) que é, desde então, o seu corpo. A volta
deste centro, agrupam-se imagens «tiradas
quer da vida pastoril ou agrícola, quer da construção ou também
da família e matrimónio» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 6: AAS 57 (1965)
8).
754.
«Assim a Igreja
é o redil, cuja única e necessária porta é Cristo
(Cf. Jo
10, 1-10). E
também o rebanho, do qual o próprio Deus predisse que seria o
pastor (Cf.
Is 40, 11; Ez 34, 11-31) e
cujas ovelhas, ainda que governadas por pastores humanos, são
contudo guiadas e alimentadas sem cessar pelo próprio Cristo, bom
Pastor e Príncipe dos pastores (Cf.
Jo 10, 11: Ez 34, 11-31), o
qual deu a vida pelas suas ovelhas (Cf.
Jo 10, 11-15)» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 6: AAS 57 (1965)
8) .
755
«A Igreja é a
agricultura ou o campo de Deus (Cf.
1 Cor 3, 9). Nesse
campo cresce a oliveira antiga, de que os patriarcas foram a raiz
santa e na qual se realizou e realizará a reconciliação de judeus
e gentios (Cf.
Rm 11, 13-26). Ela
foi plantada pelo celeste Agricultor como uma vinha eleita
(Cf. Mt
21, 33-43 e par.: Is 5, 1-7). A
verdadeira Videira é Cristo: é Ele que dá vida e fecundidade aos
sarmentos, isto é, a nós que, pela Igreja, permanecemos n'Ele, e
sem o Qual nada podemos fazer (Cf.
Jo 15, 1-5)» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 6: AAS 57 (1965)
8).
756.
«A Igreja é
também muitas vezes chamada construção de Deus (Cf.
1 Cor 3, 9). O
próprio Senhor se comparou à pedra
que os construtores rejeitaram e que se tornou pedra angular
(Mt 21, 42 par.: Act 4, 11; 1 Pe 2, 7; Sl 118,
22). Sobre esse
fundamento é a Igreja construída pelos Apóstolos
(Cf. 1
Cor 3, 11), e
dele recebe firmeza e coesão. Esta construção recebe vários
nomes: casa de Deus (Cf.
1 Tm 3, 15),
na qual habita a sua família; habitação de Deus no Espírito
(Cf. Ef
2, 19-22); tabernáculo
de Deus com os homens (Cf.
Ap 21, 3);
e, sobretudo, templo santo, o qual, representado pelos santuários de
pedra e louvado pelos santos Padres, é com razão comparado, na
Liturgia, à cidade santa, a nova Jerusalém. Nela, com efeito, somos
edificados cá na terra como pedras vivas (Cf.
1 Pe 2, 5). Esta
cidade, S. João contemplou-a "descendo
do céu, da presença de Deus, na renovação do mundo, como esposa
adornada para ir ao encontro do esposo" (Ap
21, 1-2)» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 6: AAS 57 (1965)
8-9).
757.
«A Igreja é
também chamada "Jerusalém
do Alto" e "nossa mãe"
(Gl 4, 26) (Cf.
Ap 12, 17); é
também descrita como a Esposa imaculada do Cordeiro sem mancha
(Cf. Ap
19, 7; 21, 2. 9; 22, 17), a
qual Cristo "amou, pela
qual Se entregou para a santificar" (Ef 5,
25-26), que uniu
a Si por um vínculo indissolúvel, e à qual, sem cessar,
"alimenta e presta cuidados"
(Ef 5, 29)» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 6: AAS 57 (1965)
9).
II.
Origem, fundação e missão da Igreja
758.
Para perscrutar o mistério da Igreja, é conveniente meditar
primeiro sobre a sua origem no desígnio da Santíssima Trindade e
sobre a sua progressiva realização na história.
UM
DESÍGNIO NASCIDO NO CORAÇÃO DO PAI
759.
«O eterno Pai,
que pelo libérrimo e insondável desígnio da sua sabedoria e
bondade, criou o universo, decidiu elevar os homens participação da
vida divina», para a qual a todos convida em seu Filho: «E, aos que
crêem em Cristo, decidiu convocá-los na santa Igreja». Esta
«família de Deus» constituiu-se e realizou-se gradualmente ao
longo das etapas da história humana, segundo as disposições do
Pai: de facto, a Igreja «prefigurada já desde o princípio do mundo
e admiravelmente preparada na história do povo de Israel e na antiga
Aliança, foi constituída no fim dos tempos, e manifestada pela
efusão do Espírito Santo, e será gloriosamente consumada no fim
dos séculos» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 2: AAS 57 (1965)
5-6).
A
IGREJA – PREFIGURADA DESDE A ORIGEM DO MUNDO
760.
«O mundo foi
criado em ordem à Igreja», diziam os cristãos dos
primeiros tempos (Hermas,
Pastor 8, 1 (Visio 2, 4, 1): SC 53, 96; cf. Aristides, Apologia 16,
7: BP 11, 125; São Justino, Apologia 2, 7: CA 216-218 (PG 6, 456).
Deus criou o mundo em ordem à comunhão na sua vida divina, comunhão
que se realiza pela "convocação" dos homens em Cristo, e
esta "convocação" é a Igreja. A Igreja é o fim de todas
as coisas (Santo
Epifânio, Panarion, 1, 1, 5, Haereses 2, 4: GCS 25, 174 (PG 41,
181)). Até as próprias vicissitudes dolorosas, como a
queda dos anjos e o pecado do homem, não foram permitidas por Deus
senão como ocasião e meio de pôr em acção toda a força do seu
braço, toda a medida do amor que queria dar ao mundo:
«Assim
como a vontade de Deus é um acto e se chama mundo, do mesmo modo a
sua intenção é a salvação dos homens e chama-se Igreja»
(Clemente
de Alexandria, Paedagogus 1, 6, 27, 2: GCS 12, 106 (PG 8, 281)).
A
IGREJA – PREPARADA NA ANTIGA ALIANÇA
761.
A reunião do povo de Deus começa no instante em que o pecado
destrói a comunhão dos homens com Deus e entre si. A reunião da
Igreja é, por assim dizer, a reacção de Deus ao caos provocado
pelo pecado. Esta reunificação realiza-se secretamente no seio de
todos os povos: «Em qualquer nação, quem
O teme e pratica a justiça, é aceite por Ele» (Act
10, 35) (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
12; Ibid., 13: AAS 57 (1965) 17-18; Ibid., 16: AAS 57 (1965) 20).
762.
A preparação remota da reunião do povo de Deus começa com a
vocação de Abraão, a quem Deus promete que há-de vir a ser o pai
de um grande povo (Cf.
Gn 12, 2; 15, 5-6). A preparação imediata começa com
a eleição de Israel como povo de Deus (Cf.
Ex 19, 5-6; Dt 7, 6). Pela sua eleição, Israel deve
ser o sinal da reunião futura de todas as nações (Cf.
Is 2. 2-5: Mq 4, 1-4). Mas já os profetas acusam
Israel de ter quebrado a aliança, comportando-se como uma prostituta
(Cf. Os
l; Is 1. 2-4; Jr 2: etc). Eles anunciam uma Aliança
nova e eterna (Cf.
Jr 31, 31-34; Is 55. 3). «Esta
Aliança nova, instituiu-a Cristo» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
13).
A
IGREJA – INSTITUÍDA POR JESUS CRISTO
763.
Pertence ao Filho realizar, na plenitude dos tempos, o plano de
salvação do seu Pai; tal é o motivo da sua «missão»
(Cf. II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 3: AAS 57 (1965)
6; ID., Decr. Ad gentes, 3: AAS 58 (1966) 949). «O
Senhor Jesus deu início à sua Igreja, pregando a boa-nova do
advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965)
7). Para cumprir a vontade do Pai, Cristo inaugurou na
terra o Reino dos céus. A Igreja «é
o Reino de Cristo já presente em mistério» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 3: AAS 57 (1965)
6).
764.
«Este Reino
manifesta-se aos homens na palavra, nas obras e na presença de
Cristo» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965)
7), Acolher a palavra de Jesus é «acolher
o próprio Reino» (
II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57
(1965) 7). O germe e começo do Reino é o «pequeno
rebanho» (Lc 12, 32) daqueles que Jesus veio
congregar ao seu redor e dos quais Ele próprio é o Pastor (Cf.
Mt 10, 16; 26, 31; Jo 10, 1-21). Eles constituem a
verdadeira família de Jesus (Cf.
Mt 12, 49). Aqueles que assim juntou em redor de si,
ensinou uma nova «maneira de agir»,
mas também uma oração própria (Cf.
Mt 5-6).
765.
O Senhor Jesus dotou a sua comunidade duma estrutura que permanecerá
até ao pleno acabamento do Reino. Temos, antes de mais, a escolha
dos Doze, com Pedro como chefe (Cf.
Mc 3, 14-15). Representando as doze tribos de Israel
(Cf. Mt
19, 28: Lc 22, 30), são as pedras do alicerce da nova
Jerusalém (Cf.
Ap 21, 12-14). Os Doze (Cf.
Mc 6. 7) e os outros discípulos (Cf.
Lc 10, 1-2) participam da missão de Cristo, do seu
poder, mas também da sua sorte (Cf.
Mt 10, 25; Jo 15, 20). Com todos estes actos, Cristo
prepara e constrói a sua Igreja.
766.
Mas a Igreja nasceu principalmente do dom total de Cristo pela nossa
salvação, antecipado na instituição da Eucaristia e realizado na
cruz. «Tal
começo e crescimento da Igreja exprimem-nos o sangue e a água que
manaram do lado aberto de Jesus crucificado» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 3: AAS 57 (1965)
6). Porque «foi
do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento
admirável de toda a Igreja» (II
Concílio do Vaticano, Const. Sacrosanctum Concilium, 5: AAS 56
(1964) 99). Assim como Eva foi formada do costado de
Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do coração trespassado de
Cristo, morto na cruz (Cf.
Santo Ambrósio, Expositio evangelii secundum Lucam, 2, 85-89: CCL
14, 69-72 (PL 15, 1666-1668)).
A
IGREJA – MANIFESTADA PELO ESPÍRITO SANTO
767.
«Consumada a
obra que o Pai confiou ao Filho para cumprir na terra, no dia de
Pentecostes foi enviado o Espírito Santo para que santificasse
continuamente a Igreja» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 4: AAS 57 (1965)
6). Foi então que «a Igreja foi publicamente
manifestada diante duma grande multidão» e «teve
o seu início a difusão do Evangelho entre os gentios, por meio da
pregação» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 4: AAS 58 (1966) 950).
Porque é «convocação» de todos os homens à salvação, a Igreja
é, por sua própria natureza, missionária, enviada por Cristo a
todas as nações, para de todas fazer discípulos (Cf.
Mt 28, 19-20: II Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 2: AAS 58
(1966) 948; Ibid., 5-6: AAS 58 (1966) 951-955).
768.
Para que a Igreja possa realizar a sua missão, o Espírito Santo
«enriquece-a e
guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 4: AAS 57 (1965)
7). Pelo
que a Igreja, enriquecida com os dons do seu fundador e guardando
fielmente os seus preceitos de caridade, de humildade e de abnegação,
recebe a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus
em todos os povos, e constitui o germe e o princípio deste mesmo
Reino na terra» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965)
8).
A
IGREJA – CONSUMADA NA GLÓRIA
769.
«A Igreja [...]
só na glória celeste alcançará a sua realização acabada»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 48: AAS 57 (1965)
53), aquando do regresso glorioso de Cristo. Até esse
dia, «a Igreja
avança na sua peregrinação por entre as perseguições do mundo e
das consolações de Deus» (Santo
Agostinho, De Civitate Dei 18, 51 CSEL 40/2. 534 (PL 41. 614): cf. II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
12.). Vivendo na terra, ela tem consciência de viver
no exílio, longe do Senhor (Cf.
2 Cor 5, 6; II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 6:
AAS 57 (1965) 9) e suspira pelo advento do Reino em
plenitude, pela hora em que «espera
e deseja juntar-se ao seu Rei na glória» (
Cf. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57
(1965) 8). A consumação da Igreja – e através
dela, do mundo – na glória, não se fará sem grandes provações.
Só então é que «todos
os justos, desde Adão, "desde o justo Abel até ao último
eleito", se encontrarão reunidos na Igreja universal junto do
Pai» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 2: AAS 57 (1965)
6).
III.
O mistério da Igreja
770.
A Igreja está na história, mas, ao mesmo tempo, transcende-a. Só
«com os olhos da
fé» (CatRom.
1. 10. 20. p. 117) é que se pode ver na sua realidade
visível, ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora de vida
divina.
A
IGREJA – AO MESMO TEMPO VISÍVEL E ESPIRITUAL
771.
«Cristo,
mediador único, constitui e continuamente sustenta sobre a terra,
como um todo visível, a sua Igreja santa, comunidade de fé,
esperança e amor, por meio da qual difunde em todos a verdade e a
graça». A Igreja é, simultaneamente:
– «sociedade
dotada de órgãos hierárquicos e corpo místico de Cristo»;
– «agrupamento
visível e comunidade espiritual»;
– «Igreja
terrestre e Igreja ornada com os bens celestes».
Estas
dimensões constituem, em conjunto, «uma
única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e
divino» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965) I
I).
É
próprio da Igreja ser «simultaneamente
humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis,
empenhada na acção e dada à contemplação, presente no mundo e,
todavia, peregrina; mas de tal forma que o que nela é humano se deve
ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a acção à
contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos»
(Concílio
do Vaticano, Const. Sacrosanctum Concilium, 2: AAS 56 (1964) 98).
«Humildade!
Sublimidade! Tenda de Cedar e santuário de Deus; habitação terrena
e palácio celeste; casa de barro e corte real; corpo mortal e templo
de luz; enfim, objecto de desprezo para os orgulhosos e esposa de
Cristo! Ela é morena mas bela, ó filhas de Jerusalém; ela que,
empalidecida pela fadiga e sofrimento dum longo exílio, tem, no
entanto, por ornamento a beleza celeste» (São
Bernardo de Bernardo de Claraval, In Canticum sermo 27, 7, 14: Opera,
ed. J. Leclercq-C.H. Talbot-H. Rochais, V. I (Romae 1957) p. 191).
A
IGREJA – MISTÉRIO DA UNIÃO DOS HOMENS COM DEUS
772.
É na Igreja que Cristo realiza e revela o seu próprio mistério,
como a meta do desígnio de Deus: «recapitular
tudo n'Ele» (Ef 1, 10). São Paulo chama «grande
mistério» (Ef 5, 32) à união esponsal de Cristo
e da Igreja. Porque está unida a Cristo como a seu esposo (Cf.
Ef 5, 25-27), a própria Igreja, por seu turno, se
torna mistério (Cf.
Ef 3, 9-11). E é contemplando nela este mistério, que
S. Paulo exclama: «Cristo em vós — eis a
esperança da glória!» (Cl 1, 27).
773.
Na Igreja, esta comunhão dos homens com Deus pela «caridade,
que não passa jamais» (1 Cor 13, 8), é o fim que
comanda tudo quanto nela é meio sacramental, ligado a este mundo que
passa (Cf.
II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 48: AAS 57
(1965) 53). «A
sua estrutura está completamente ordenada à santidade dos membros
de Cristo. E a santidade aprecia-se em função do "grande
mistério", em que a esposa responde com a dádiva do seu amor
ao dom do Esposo» (João
Paulo II. Ep. ap. Mulieris dignitatem, 27: AAS 80 (1988) 1718).
Nesta santidade que é o mistério da Igreja, Maria precede-nos todos
como «a Esposa sem mancha nem ruga»
(Cf. Ef
5, 27). E é por isso que «a
dimensão mariana da Igreja precede a sua dimensão petrina»
(João
Paulo II, Ep. ap. Mulieris dignitatem, 27: AAS 80 (1988) 1718, nota
55).
A
IGREJA – SACRAMENTO UNIVERSAL DA SALVAÇÃO
774.
A palavra grega mysterion foi traduzida em latim por dois
termos: mysterium e sacramentum. Na segunda
interpretação, o termo sacramentum exprime prevalentemente o sinal
visível da realidade oculta da salvação, indicada pelo termo
mysterium. Neste sentido, o próprio Cristo é o mistério da
salvação: «Nem
há outro mistério senão Cristo (Santo
Agostinho, Epistula 187, 11, 34: CSEL 57, 113 (PL 33, 845)).
A obra salvífica da sua humanidade santa e santificadora é o
sacramento da salvação, que se manifesta e actua nos sacramentos da
Igreja (que as Igrejas do Oriente chamam também «os
santos mistérios»). Os sete sacramentos são os
sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo derrama a
graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja que é o seu Corpo. A
Igreja possui, pois, e comunica a graça invisível que significa: e
é neste sentido analógico que é chamada «sacramento».
775
«A Igreja em
Cristo é como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima
união com Deus e da unidade de todo o género humano»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 1 : AAS 57 (1965)
5). Ser sacramento da união íntima do homem com Deus,
eis a primeira finalidade da Igreja. E porque a comunhão dos homens
entre si radica na união com Deus, a Igreja é, também, o
sacramento da unidade do género humano. Nela, esta unidade já
começou, pois reúne homens «de toda a
nação, raça, povo e língua» (Ap 7, 9). A
Igreja é, ao mesmo tempo, «sinal e instrumento» da plena
realização desta unidade, que ainda há-de vir.
776.
Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo. «É
assumida por Ele como instrumento da redenção universal»(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
13), «o
sacramento universal da salvação»(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 48: AAS 57 (1965)
53), pelo qual o mesmo Cristo «manifesta
e simultaneamente actualiza o mistério do amor de Deus pelos
homens»(II
Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 45: AAS 58
(1966) 1066). É o «projecto
visível do amor de Deus para com a humanidade»(Paulo
VI, Allocutio ad Sacri Collegii Cardinalium Patres (22 de Junho de
1973): AAS 65 (1973) 391), segundo o qual Deus quer
«que todo o
género humano forme um só povo de Deus, se una num só Corpo de
Cristo e se edifique num só templo do Espírito Santo»(II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 7: AAS 58 (1966) 956: cf. Id,
Const. dogm. Lumen Gentium, 17: AAS 57 (1965) 20-21.).
Resumindo:
777.
A palavra «Igreja» significa «convocação». Designa a assembleia
daqueles que a Palavra de Deus convoca para formar o seu povo, e que,
alimentados pelo Corpo de Cristo, se tornam, eles próprios, Corpo de
Cristo.
778.
A Igreja é, ao mesmo tempo, caminho e meta do desígnio de Deus:
prefigurada na criação, preparada na antiga Aliança, fundada pelas
palavras e actos de Jesus Cristo, realizada pela sua Cruz redentora e
pela sua ressurreição, manifesta-se como mistério de salvação
pela efusão do Espírito Santo. Será consumada na glória do céu
como assembleia de todos os resgatados da terra (Cf.
Ap 14, 4).
779.
A Igreja é, ao mesmo tempo, visível e espiritual, sociedade
hierárquica e Corpo Místico de Cristo. É una, mas formada por um
duplo elemento: humano e divino. Aí reside o seu mistério, que só
a fé pode acolher.
780.
A Igreja é, neste mundo, o sacramento da salvação, o sinal e o
instrumento da comunhão de Deus e dos homens.
PARÁGRAFO
2
A
IGREJA – POVO DE DEUS,
CORPO
DE CRISTO, TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO
I.
A Igreja – Povo de Deus
781.
«Em todos os tempos e em todas as nações foi agradável a Deus
aquele que O teme e pratica a justiça. No entanto, aprouve a Deus
salvar e santificar os homens não individualmente, excluída
qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O
conhecesse na verdade e O servisse na santidade. Foi por isso que
escolheu Israel para ser o seu povo, estabeleceu com ele uma aliança
e instruiu-o progressivamente manifestando-se a Si mesmo e os
desígnios da Sua vontade na história desse povo, e santificando-o
para Si. Mas tudo isso aconteceu como preparação da Aliança nova e
perfeita, que seria concluída em Cristo [...]. Esta nova Aliança
instituiu-a Cristo no seu Sangue, chamando um povo, proveniente de
judeus e pagãos, a juntar-se na unidade, não segundo a carne, mas
no Espírito» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
12-13).
As
CARACTERÍSTICAS DO POVO DE DEUS
782.
O povo de Deus possui características que o distinguem nitidamente
de todos os agrupamentos religiosos, étnicos, políticos ou
culturais da história:
–
é
o povo de Deus: Deus não é propriedade de nenhum povo; mas adquiriu
para Si um povo constituído por aqueles que outrora não eram um
povo: «raça eleita, sacerdócio real,
nação santa» (1 Pe 2, 9);
–
vem-se
a ser membro deste povo, não pelo nascimento físico, mas pelo
«nascimento do Alto», «da água e do
Espírito» (Jo 3, 3-5), isto é, pela fé em
Cristo e pelo Baptismo;
–
este
povo tem por Cabeça Jesus Cristo (o Ungido, o Messias): porque a
mesma unção, o Espírito Santo, flui da Cabeça por todo o Corpo,
este é o «povo messiânico»;
–
«a
condição deste povo é a dignidade da liberdade dos filhos de Deus:
nos seus corações, como num templo, reside o Espírito Santo»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
13);
–
«a
sua lei é o mandamento novo, de amar como o próprio Cristo nos amou
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
13; cf. Jo 13, 34)»; é a lei «nova» do Espírito
Santo (
Cf. Rm 8, 2; Gl 5, 25);
–
a
sua missão é ser o sal da terra e a luz do mundo (Cf.
Mt 5, 13-16). «Constitui
para todo o género humano o mais forte gérmen de unidade, esperança
e salvação» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
13);
– o
seu destino, finalmente, é «o
Reino de Deus, o qual, começado na terra pelo próprio Deus, se deve
dilatar cada vez mais, até ser também por Ele consumado no fim dos
séculos» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 9: AAS 57 (1965)
13).
UM
POVO SACERDOTAL, PROFÉTICO E REAL
783.
Jesus Cristo é Aquele que o Pai ungiu com o Espírito Santo e
constituiu «sacerdote, profeta e rei». Todo o povo de Deus
participa destas três funções de Cristo, com as responsabilidades
de missão e de serviço que delas resultam (Cf.
João Paulo II,. Enc. Redemptor hominis, 18-21: AAS 71 (1979)
301-320).
784.
Ao entrar no povo de Deus pela fé e pelo Baptismo, participa-se na
vocação única deste povo: na sua vocação sacerdotal – «Cristo
Senhor, sumo-sacerdote escolhido de entre os homens, fez do povo novo
«um reino de sacerdotes para o seu Deus e Pai». Na
verdade, pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os
baptizados são consagrados para serem uma casa espiritual, um
sacerdócio santo (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 10: AAS 57 (1965)
14).
785.
«O povo santo de
Deus participa também da função profética de Cristo»,
sobretudo pelo sentido sobrenatural da fé, que é o de todo o povo,
leigos e hierarquia, quando «adere
indefectivelmente à fé transmitida aos santos de uma vez por todas»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 12: AAS 57 (1965)
16),aprofunda o conhecimento da mesma, e se torna
testemunha de Cristo no meio deste mundo.
786.
Finalmente, o povo de Deus participa na função real de Cristo.
Cristo exerce a sua realeza atraindo a Si todos os homens pela sua
morte e ressurreição (Cf.
Jo 12, 32). Cristo, Rei e Senhor do universo, fez-Se o
servo de todos, pois «não veio para ser
servido, mas para servir e dar a vida como resgate pela multidão»
(Mt 20, 28). Para o cristão, «reinar
é servi-Lo» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 36: AAS 57 (1965)
41), em especial «nos pobres e nos que sofrem, nos
quais a Igreja reconhece a imagem do seu Fundador pobre e sofredor
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
12). O povo de Deus realiza a sua «dignidade real» na
medida em que viver de acordo com esta vocação de servir com
Cristo.
«De
todos os regenerados em Cristo, o sinal da cruz faz reis, a unção
do Espírito Santo consagra sacerdotes, para que, independentemente
do serviço particular do nosso ministério, todos os cristãos
espirituais no uso da razão se reconheçam membros desta estirpe
real e participantes da função sacerdotal. De facto, que há de tão
real para uma alma como governar o seu corpo na submissão a Deus? E
que há de tão sacerdotal como oferecer ao Senhor uma consciência
pura, imolando no altar do seu coração as vítimas sem mancha da
piedade?» (São
Leão Magno, Sermão 4, 1: CCL 138. 16-17 (PL 54, 149)).
II.
A Igreja – Corpo de Cristo
A
IGREJA É COMUNHÃO COM JESUS
787.
Desde o princípio, Jesus associou os discípulos à sua vida (Cf.
Mc 1, 16-20; 3, 13-19). Revelou-lhes o mistério do
Reino (Cf.
Mt 13, 10-17): deu-lhes parte na sua missão, na sua
alegria (Cf.
Lc 10, 17-20) e nos seus sofrimentos (Cf.
Lc 22. 28-30). Jesus fala duma comunhão ainda mais
íntima entre Ele e os que O seguem: «Permanecei
em Mim, como Eu em vós [...]. Eu sou a cepa, vós os ramos»
(Jo 15, 4-5). E anuncia uma comunhão misteriosa e real entre
o seu próprio Corpo e o nosso: «Quem come
a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele»
(Jo 6, 56).
788.
Quando a sua presença visível lhes foi tirada, Jesus não deixou
órfãos os discípulos (Cf.
Jo 14, 18). Prometeu-lhes ficar com eles até ao fim
dos tempos (Cf.
Mt 28, 20), e enviou-lhes o seu Espírito (Cf.
Jo 20, 22; Act 2, 33). A comunhão com Jesus tornou-se,
de certo modo, mais intensa: «Comunicando
o seu Espírito aos seus irmãos, por Ele reunidos de todas as
nações, constituiu-os seu Corpo Místico» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965)
9).
789.
A comparação da Igreja com um corpo lança uma luz particular sobre
a ligação íntima existente entre a Igreja e Cristo. Ela não está
somente reunida à volta d'Ele: está unificada n'Ele, no seu Corpo.
Na Igreja, Corpo de Cristo, são de salientar mais especificamente
três aspectos: a unidade de todos os membros entre si, pela união a
Cristo; Cristo, Cabeça do Corpo; a Igreja, Esposa de Cristo.
«UM
SÓ CORPO»
790.
Os crentes que respondem à Palavra de Deus e se tornam membros do
Corpo de Cristo, ficam estreitamente unidos a Cristo: «Neste
Corpo, a vida de Cristo difunde-se nos crentes, unidos pelos
sacramentos, dum modo misterioso e real, a Cristo sofredor e
glorificado» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965)
9), Isto verifica-se particularmente no Baptismo, que
nos une à morte e ressurreição de Cristo (Cf.
Rm 6, 4-5; 1 Cor 12, 13), e na Eucaristia, pela qual,
«participando
realmente no Corpo de Cristo», somos elevados à
comunhão com Ele e entre nós (III
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965)
9).
791.
Mas a unidade do Corpo não anula a diversidade dos membros: «Na
edificação do Corpo de Cristo existe diversidade de membros e
funções. É o mesmo Espírito que distribui os seus vários dons,
segundo a sua riqueza e as necessidades dos ministérios para
utilidade da Igreja» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965)
10). A unidade do Corpo Místico produz e estimula a
caridade entre os fiéis: «Daí que, se algum membro padece, todos
os membros sofrem juntamente; e se algum membro recebe honras, todos
se alegram» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965)
10). Em suma, a unidade do Corpo Místico triunfa sobre
todas as divisões humanas: «Todos vós que
fostes baptizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo. Não há
judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem
mulher; porque todos vós sois um só, em Cristo Jesus»
(Gl 3, 27-28).
«A
CABEÇA DESTE CORPO É CRISTO»
792.
Cristo «é a Cabeça do Corpo que é a
Igreja» (Cl 1, 18). Ele é o Princípio da criação
e da Redenção. Elevado à glória do Pai, «tem
em tudo a primazia» (Cl 1, 18), principalmente
sobre a Igreja, por meio da qual estende o seu reinado sobre tudo
quanto existe.
793.
Une-nos à sua Páscoa: todos os membros se devem esforçar por se
parecerem com Ele, «até que Cristo Se
forme neles» (Gl 4, 19). «É
para isso que nós somos introduzidos nos mistérios da sua vida
[...], associados aos seus sofrimentos como o corpo à cabeça,
unidos à sua paixão para ser unidos à sua glória»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965)
10).
794.
Provê ao nosso crescimento (Cf.
Cl 2, 19): a fim de crescermos em tudo para Aquele que
é a Cabeça (Cf.
Ef 4, 11-16), Cristo distribui no seu Corpo, a Igreja,
os dons e os serviços pelos quais mutuamente nos ajudamos no caminho
da salvação.
795.
Cristo e a Igreja são, pois, o «Cristo total» (Christus
totus). A Igreja é una com Cristo. Os santos têm desta
unidade uma consciência muito viva:
«Congratulemo-nos,
pois, e dêmos graças pelo facto de nos termos tornado não apenas
cristãos, mas o próprio Cristo. Estais a compreender, irmãos, a
graça que Deus nos fez, dando-nos Cristo por Cabeça? Admirai e
alegrai-vos: nós tornámo-nos Cristo. Com efeito, uma vez que Ele é
a Cabeça e nós os membros, o homem completo é Ele e nós [...]. A
plenitude de Cristo é, portanto, a Cabeça e os membros. Que quer
dizer: a Cabeça e os membros? Cristo e a Igreja»
(Santo
Agostinho, In Iohannis evangelium tractatus 21, 8: CCL 36, 216-217
(PL 35, 1568)).
«Redemptor
noster unam se personam cum sanctam Ecelesiam, quam assumpsit,
exhibuit – O
nosso Redentor apresentou-Se a Si próprio como uma única pessoa
unida à santa Igreja, que Ele assumiu» (São
Gregório Magno, Moralia in Job, Praefatio 6, 4: 14 CCL 143, 19 (PL
75, 525)).
«Caput
et membra, quasi una persona mystica – Cabeça
e membros são, por assim dizer, uma só e mesma pessoa mística»
(São
Tomás de Aquino, Summa theologiae 3, q. 48, a. 2, ad 1: Ed. Leon.
11, 464).
Uma
palavra de Santa Joana d'Arc aos seus juízes resume a fé dos santos
Doutores e exprime o bom-senso do crente: «De
Jesus Cristo e da Igreja eu penso que são um só, e não há que
levantar dificuldades a esse respeito» (Santa
Joana D'Arc, Dictum: Procès de condamnation, ed. P. Tisset (Paris
1960), p. 166 (texto em francês).).
A
IGREJA É A ESPOSA DE CRISTO
796.
A unidade de Cristo e da Igreja, Cabeça e membros do Corpo, implica
também a distinção entre ambos, numa relação pessoal. Este
aspecto é, muitas vezes, expresso pela imagem do esposo e da esposa.
O tema de Cristo Esposo da Igreja foi preparado pelos profetas e
anunciado por João Baptista (Cf.
Jo 3, 29). O próprio Senhor Se designou como «o
Esposo» (Mc 2, 19) (Cf.
Mt 22, 1-14; 25, 1-13). E o Apóstolo apresenta a
Igreja e cada fiel, membro do seu Corpo, como uma esposa «desposada»
com Cristo Senhor, para formar com Ele um só Espírito (Cf.
1 Cor 6, 15-17; 2 Cor 11, 2). Ela é a Esposa imaculada
do Cordeiro imaculado (Cf.
Ap 22. 17; Ef 1, 4: 5, 27) que Cristo amou, pela qual
Se entregou «para a santificar»
(Ef 5, 26), que associou a Si por uma aliança eterna, e à
qual não cessa de prestar cuidados como ao Seu próprio Corpo (Cf.
Ef 5, 29.).
«Eis
o Cristo total, Cabeça e Corpo, um só, formado de muitos [...].
Quer seja a Cabeça que fale, quer sejam os membros, é Cristo que
fala: fala desempenhando o papel de Cabeça (ex persona capitis), ou,
então, desempenhando o papel do Corpo (ex persona corporis).
Conforme ao que está escrito: «Serão os
dois uma só carne. É esse um grande mistério; digo-o em relação
a Cristo e à Igreja» (Ef 5, 31-32). E o próprio
Senhor diz no Evangelho: «Já não são
dois, mas uma só carne» (Mt 19, 6). Como vedes,
temos, de algum modo, duas pessoas diferentes; no entanto, tornam-se
uma só na união esponsal [...] «Diz-se
"Esposo" enquanto Cabeça e "esposa" enquanto
Corpo» (Santo
Agostinho, Enarratio in Psalmum 74, 4: CCL 39, 1207 (PL 37,
948-949)).
III.
A Igreja – Templo do Espírito Santo
797.
«O que o nosso
espírito, quer dizer, a nossa alma, é para os nossos membros, o
Espírito Santo é-o para os membros de Cristo, para o Corpo de
Cristo, que é a Igreja» (Santo
Agostinho, Sermão 268, 2: PL 38, 1232). «É
ao Espírito de Cristo, como a um princípio oculto, que se deve
atribuir o facto de todas as partes do Corpo estarem unidas, tanto
entre si como com a Cabeça suprema, pois Ele está todo na Cabeça,
todo no Corpo, todo em cada um dos seus membros» (Pio
XII, enc. Mystici Corporis: DS 3808). É o Espírito
Santo que faz da Igreja «o templo do Deus
vivo» (2 Cor 6, 16) (Cf.
1Cor 3, 16-17; Ef 2, 21):
«De
facto, foi à própria Igreja que o dom de Deus foi confiado [...].
Nela foi depositada a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito
Santo, arras da incorruptibilidade, confirmação da nossa fé e
escada da nossa ascensão para Deus [...]. Porque onde está a
Igreja, aí está também o Espírito de Deus; e onde está o
Espírito de Deus, aí está a Igreja e toda a graça»
(Santo
Ireneu de Lião, Adversus Haereses 3, 24, 1: SC 211. 472-474 (PG 7,
966)).
798.
O Espírito Santo é «o
princípio de toda a acção vital e verdadeiramente salvífica em
cada uma das diversas partes do Corpo» (Pio
XII.enc. Mystici Corporis: DS 3808), Ele realiza, de
múltiplas maneiras, a edificação de todo o Corpo na caridade (Cf.
Ef 4, 16): pela Palavra de Deus, «que
tem o poder de construir o edifício» (Act 20,
32); mediante o Baptismo, pelo qual forma o Corpo de Cristo (Cf.
1 Cor 12, 13); pelos sacramentos, que fazem crescer e
curam os membros de Cristo; pela «graça
dada aos Apóstolos que ocupa o primeiro lugar entre os seus dons»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965)
10); pelas virtudes que fazem agir segundo o bem;
enfim, pelas múltiplas graças especiais (chamadas «carismas»)
pelos quais Ele torna os fiéis «aptos e disponíveis para assumir
os diferentes cargos e ofícios proveitosos para a renovação e cada
vez mais ampla edificação da Igreja» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 12: AAS 57 (1965)
16; cf. Id. Decr. Apostolicam actuositatem, 3: AAS 58 (1966)
839-840).
OS
CARISMAS
799.
Extraordinários ou simples e humildes, os carismas são graças do
Espírito Santo que, directa ou indirectamente, têm uma utilidade
eclesial, ordenados como são para a edificação da Igreja, o bem
dos homens e as necessidades do mundo.
800.
Os carismas devem ser acolhidos com reconhecimento por aquele que os
recebe, mas também por todos os membros da Igreja. De facto, eles
são uma maravilhosa riqueza de graças para a vitalidade apostólica
e para a santidade de todo o Corpo de Cristo; desde que se trate de
dons verdadeiramente procedentes do Espírito Santo e exercidos de
modo plenamente conforme aos impulsos autênticos do mesmo Espírito,
quer dizer, segundo a caridade, verdadeira medida dos carismas (Cf.
1 Cor 13).
801.
Nesse sentido será sempre necessário o discernimento dos carismas.
Nenhum carisma dispensa a referência e a submissão aos pastores da
Igreja. «A eles
compete, de modo especial, não extinguir o Espírito, mas tudo
examinar para reter o que é bom» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 12: AAS 57 (1965)
17), de modo que todos os carismas, na sua diversidade
e complementaridade, cooperem para o «bem
comum» (1 Cor 12, 7) (Cf.
II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium,30: AAS 57
(1965) 37; João Paulo II, Ex. ap. Christifideles laici, 24: AAS 81
(1989) 435).
Resumindo:
802.
Jesus Cristo «entregou-Se por nós, a fim
de nos resgatar de toda a iniquidade e de purificar e constituir um
povo de sua exclusiva posse» (Tt 2, 14).
803.
«Vós sois geração eleita, sacerdócio
real, nação santa, povo adquirido» (1 Pe 2, 9).
804.
Entra-se no povo de Deus pela fé e pelo Baptismo. «Todos
os homens são chamados a fazer parte do povo de Deus»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 13: AAS 57 (1965)
17), para que, em Cristo, «os
homens constituam uma só família e um único povo de Deus»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 1: AAS 58 (1966) 947).
805.
A Igreja é o Corpo de Cristo. Pelo Espírito e pela sua acção nos
sacramentos, sobretudo na Eucaristia, Cristo morto e ressuscitado
constitui como seu Corpo a comunidade dos crentes.
806.
Na unidade deste Corpo, existe diversidade de membros e de funções.
Mas todos os membros estão unidos uns aos outros, particularmente
àqueles que sofrem, aos pobres e aos perseguidos.
807.
A Igreja é este Corpo, cuja Cabeça é Cristo: ela vive d'Ele, n'Ele
e para Ele; e Ele vive com ela e nela.
808.
A Igreja é a Esposa de Cristo: Ele amou-a e entregou-Se por ela.
Purificou-a pelo seu sangue. Fez dela a mãe fecunda de todos os
filhos de Deus.
809.
A Igreja é o Templo do Espírito Santo. O Espírito é como que a
alma do Corpo Místico, princípio da sua vida, da unidade na
diversidade e da riqueza dos seus dons e carismas.
810.
«A Igreja
universal aparece, assim, como "um povo que vai buscar a sua
unidade à unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo"»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 4: AAS 57 (1965)
7; cf. São Cipriano de Cartago, De dominica Oratione, 23: CCL 3A.
105 (PL 4, 553)).
PARÁGRAFO
3
A
IGREJA É UNA, SANTA, CATÓLICA E APOSTÓLICA
811.
«Esta é a única
Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica
e apostólica» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
11). Estes quatro atributos, inseparavelmente ligados
entre si (Cf.
Santo Ofício, Ep. ad Episcopos Angliae (14 de Setembro de 1864): DS
2888) indicam traços essenciais da Igreja e da sua
missão. A Igreja não os confere a si mesma; é Cristo que, pelo
Espírito Santo, concede à sua Igreja que seja una, santa, católica
e apostólica, e é ainda Ele que a chama a realizar cada uma destas
qualidades.
812.
Só a fé pode reconhecer que a Igreja recebe estas propriedades da
sua fonte divina. Mas as manifestações históricas das mesmas são
sinais que também falam claro à razão humana. «A
Igreja, lembra o I Concílio do Vaticano, em razão da sua santidade,
da sua unidade católica, da sua invicta constância, é, por si
mesma, um grande e perpétuo motivo de credibilidade e uma prova
incontestável da sua missão divina» (I
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 3: DS 3013).
I.
A Igreja é una
«O
SAGRADO MISTÉRIO DA UNIDADE DA IGREJA»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 2: AAS 57 (1965)
92)
813.
A Igreja é una, graças à sua fonte: «O
supremo modelo e princípio deste mistério é a unidade na Trindade
das pessoas, dum só Deus, Pai e Filho no Espírito Santo»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 2: AAS 57 (1965)
92). A Igreja é una graças ao seu fundador: «O
próprio Filho encarnado [...] reconciliou todos os homens com Deus
pela sua Cruz, restabelecendo a unidade de todos num só povo e num
só Corpo» (II
Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 78: AAS 58
(1966) 1101). A Igreja é una graças à sua «alma»:
«O Espírito
Santo que habita nos crentes e que enche e rege toda a Igreja,
realiza esta admirável comunhão dos fiéis e une-os todos tão
intimamente em Cristo que é o princípio da unidade da Igreja»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 2: AAS 57 (1965)
91). Pertence, pois, à própria essência da Igreja
que ela seja una:
«Que
admirável mistério! Há um só Pai do universo, um só Logos do
universo e também um só Espírito Santo, idêntico em toda a parte;
e há também uma só mãe Virgem, à qual me apraz chamar Igreja»
(Clemente
de Alexandria, Paedagogus 1, 6, 42: GCS 12, 115 (PG 8, 300)).
814.
Desde a origem, no entanto, esta Igreja apresenta-se com uma grande
diversidade, proveniente ao mesmo tempo da variedade dos dons de Deus
e da multiplicidade das pessoas que os recebem. Na unidade do povo de
Deus, juntam-se as diversidades dos povos e das culturas. Entre os
membros da Igreja existe uma diversidade de dons, de cargos, de
condições e de modos de vida. «No
seio da comunhão da Igreja existem legitimamente Igrejas
particulares, que gozam das suas tradições próprias»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 13: AAS 57 (1905)
18.). A grande riqueza desta diversidade não se opõe
à unidade da Igreja. No entanto, o pecado e o peso das suas
consequências ameaçam constantemente o dom da unidade. Também o
Apóstolo se viu na necessidade de exortar a que se guardasse «a
unidade do Espírito pelo vínculo da paz» (Ef 4,
3).
815.
Quais são os vínculos da unidade? «Acima
de tudo, a caridade, que é o vínculo da perfeição»
(Cl 3, 14). Mas a unidade da Igreja peregrina é assegurada
também por laços visíveis de comunhão:
– a
profissão duma só fé, recebida dos Apóstolos;
– a
celebração comum do culto divino, sobretudo dos sacramentos;
– a
sucessão apostólica pelo sacramento da Ordem, que mantém a
concórdia fraterna da família de Deus (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 2: AAS 57 (1965)
91-92; Id, Const. dogm. Lumen Gentium, 14: AAS 57 (1965) 18-19; CIC
cân 205).
816.
«A única Igreja
de Cristo [...] é aquela que o nosso Salvador, depois da
ressurreição, entregou a Pedro, com o encargo de a apascentar,
confiando também a ele e aos outros apóstolos a sua difusão e
governo [...]. Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo
como uma sociedade, subsiste (subsistit
in)
na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos
em comunhão com ele» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
11-12).
O
decreto do II Concílio do Vaticano sobre o Ecumenismo explicita:
«Com efeito, só
pela Igreja Católica de Cristo, que é "meio geral de
salvação", é que se pode obter toda a plenitude dos meios de
salvação. Na verdade, foi apenas ao colégio apostólico, de que
Pedro é o chefe, que, segundo a nossa fé, o Senhor confiou todas as
riquezas da nova Aliança, a fim de constituir na terra um só Corpo
de Cristo, ao qual é necessário que sejam plenamente incorporados
todos os que, de certo modo, pertencem já ao povo de Deus»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57 (1965)
94).
817.
De facto, «nesta
Igreja de Deus una e única, já desde os primórdios surgiram
algumas cisões, que o Apóstolo censura asperamente como
condenáveis. Nos séculos posteriores, porém, surgiram dissensões
mais amplas. Importantes comunidades separaram-se da plena comunhão
da Igreja Católica, às vezes por culpa dos homens duma e doutra
parte» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57 (1965)
92-93). As rupturas que ferem a unidade do Corpo de
Cristo (a saber: a heresia, a apostasia e o cisma) (Cf.
CIC cân 751) devem-se aos pecados dos homens:
«Ubi
peccata, ibi est multitudo, ibi schismata, ibi haereses, ibi
discussiones. Ubi autem virtus, ibi singularitas, ibi unio, ex quo
omnium credentium erat cor unum et anima una — Onde
há pecados, aí se encontra a multiplicidade, o cisma, a heresia, o
conflito. Mas onde há virtude, aí se encontra a unicidade e aquela
união que faz com que todos os crentes tenham um só coração e uma
só alma» (Orígenes,
In Ezechielem homilia 9, 1: SC 352, 296 (PG 13, 732)).
818.
Os que hoje nascem em comunidades provenientes de tais rupturas, «e
que vivem a fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da
divisão. A Igreja Católica abraça-os com respeito e caridade
fraterna [...]. Justificados pela fé recebida no Baptismo,
incorporados em Cristo, é a justo título que se honram com o nome
de cristãos e os filhos da Igreja Católica reconhecem-nos
legitimamente como irmãos no Senhor» (II
Concílio do Vaticano,. Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57
(1965) 93).
819.
Além disso, existem fora das fronteiras visíveis da Igreja
Católica, «muitos
elementos de santificação e de verdade» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
12): «a
Palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a
caridade, outros dons interiores do Espírito Santo e outros
elementos visíveis» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57 (1965)
93: cf. Id. Const. dogm. Lumen Gentium, 15: AAS 57 (1965) 19).
O Espírito de Cristo serve-Se destas Igrejas e comunidades eclesiais
como meios de salvação, cuja força vem da plenitude da graça e da
verdade que Cristo confiou à Igreja Católica. Todos estes bens
provêm de Cristo e a Ele conduzem (Cf.
II Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57
(1965) 93) e por si mesmos reclamam «a
unidade católica» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
12).
A
CAMINHO DA UNIDADE
820.
A unidade, «Cristo
a concedeu à sua Igreja desde o princípio. Nós cremos que ela
subsiste, sem possibilidade de ser perdida, na Igreja Católica, e
esperamos que cresça de dia para dia até à consumação dos
séculos» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 4: AAS 57 (1965)
95.). Cristo dá sempre à sua Igreja o dom da unidade.
Mas a Igreja deve orar e trabalhar constantemente para manter,
reforçar e aperfeiçoar a unidade que Cristo quer para ela. Foi por
esta intenção que Jesus orou na hora da sua paixão e não cessa de
orar ao Pai pela unidade dos seus discípulos: «...Que
todos sejam um. Como Tu, ó Pai, és um em Mim e Eu em Ti, assim
também eles sejam um em Nós, para que o mundo creia que Tu Me
enviaste» (Jo 17, 21). O desejo de recuperar a
unidade de todos os cristãos é um dom de Cristo e um apelo do
Espírito Santo (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 1: AAS 57 (1965)
90-91).
821.
Para lhe corresponder de modo adequado, exige-se:
–
uma
renovação permanente da Igreja, numa maior fidelidade à sua
vocação. Essa renovação é a força do movimento a favor da
unidade (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio,, 6: AAS 57
(1965) 96-97);
–
a
conversão do coração, «com
o fim levar uma vida mais pura segundo o Evangelho»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 7: AAS 57 (1965)
97), pois o que causa as divisões é a infidelidade
dos membros ao dom de Cristo;
–
a
oração em comum, porque «a
conversão do coração e a santidade de vida. unidas às orações,
públicas e privadas, pela unidade dos cristãos, devem ser tidas
como a alma de todo o movimento ecuménico, e com razão podem
chamar-se ecumenismo espiritual» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 8: AAS 57 (1965)
98);
–
o
mútuo conhecimento fraterno (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 9: AAS 57 (1965)
98);
–
a
formação ecuménica dos fiéis, e especialmente dos sacerdotes (
II Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 10: AAS 57
(1965) 99.);
–
o
diálogo entre os teólogos, e os encontros entre os cristãos das
diferentes Igrejas e comunidades (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 4: AAS 57 (1965)
94; Ibid. 9: AAS, 57 (1965) 98: Ibid. 11: AAS 57 (1965) 99);
–
a
colaboração entre cristãos nos diversos domínios do serviço dos
homens »(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio,12: AAS 57 (1965)
99-100).
822.
A preocupação com realizar a união «diz
respeito a toda a Igreja, fiéis e pastores» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 5: AAS 57 (1965)
96). Mas também se deve «ter
consciência de que este projecto sagrado da reconciliação de todos
os cristãos na unidade duma só e única Igreja de Cristo,
ultrapassa as forças e capacidades humanas». Por
isso, pomos toda a nossa esperança «na
oração de Cristo pela Igreja, no amor do Pai para connosco e no
poder do Espírito Santo» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 24: AAS 57
(1965) 107).
II.
A Igreja é santa
823.
«A Igreja é
[...], aos olhos da fé, indefectivelmente santa. Com efeito, Cristo,
Filho de Deus, que é proclamado «o único Santo», com o Pai e o
Espírito, amou a Igreja como sua esposa, entregou-Se por ela para a
santificar, uniu-a a Si como seu Corpo e cumulou-a com o dom do
Espírito Santo para glória de Deus» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentitun, 39: AAS 57 (1965)
44.). A Igreja é, pois, «o
povo santo de Deus» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 12: AAS 57 (1965)
16.), e os seus membros são chamados «santos»
(Cf. Act
9,13: 1 Cor 6, 1; 16, 1).
824.
A Igreja, unida a Cristo, é santificada por Ele. Por Ele e n'Ele
toma-se também santificante. «Todas
as obras da Igreja tendem, como seu fim, (II
Concílio do Vaticano, Const. Sacrosanctum Concilium, 10: AAS 56
(1964) 102) para
a santificação dos homens em Cristo e para a glorificação de
Deus». É na Igreja que se encontra «a
plenitude dos meios de salvação» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57 (1965)
94). É nela que «nós
adquirimos a santidade pela graça de Deus» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 48: AAS 57 (1965)
53).
825.
«Na terra, a
Igreja está revestida duma verdadeira, ainda que imperfeita,
santidade» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 48: AAS 57 (1965)
53). Nos seus membros, a santidade perfeita é ainda
algo a adquirir: «Munidos
de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja
qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à
perfeição do Pai, cada um pelo seu caminho» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 11: AAS 57 (1965)
16).
826.
A caridade é a alma da santidade à qual todos são chamados: «É
ela que dirige todos os meios de santificação, lhes dá alma e os
conduz ao seu fim»(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 42: AAS 57 (1965)
48):
«Compreendi
que, se a Igreja tinha um corpo composto de diferentes membros, o
mais necessário, o mais nobre de todos não lhe faltava: compreendi
que a igreja tinha um coração, e que esse coração estava ardendo
de amor. Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja;
que se o Amor se apagasse, os apóstolos já não anunciariam o
Evangelho, os mártires recusar-se-iam a derramar o seu sangue...
Compreendi que o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é
tudo, que abarca todos os tempos e lugares ... numa palavra, que ele
é Eterno» (Santa
Teresa do Menino Jesus, Manuscrito B. 3v: Manuscrits
autobiographiques (Paris 992) p. 299. [Santa Teresa do Menino Jesus e
da Santa Face, Obras Completas (Paço de Arcos, Edições do Carmelo
1996) p. 230].).
827.
«Enquanto que
Cristo, santo e inocente, sem mancha, não conheceu o pecado, mas
veio somente expiar os pecados do povo, a Igreja, que no seu próprio
seio encerra pecadores, é simultaneamente santa e chamada a
purificar-se, prosseguindo constantemente no seu esforço de
penitência e renovação» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
12; cf. In. Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57 (1965) 92-94;
Ibid. 6: AAS 57 (1965) 96-97). Todos os membros da
Igreja, inclusive os seus ministros, devem reconhecer-se pecadores
(Cf. 1 Jo
1, 8-10 ). Em todos eles, o joio do pecado encontra-se
ainda misturado com a boa semente do Evangelho até ao fim dos tempos
( Mt 13,
24-30 ). A Igreja reúne, pois, em si, pecadores
abrangidos pela salvação de Cristo, mas ainda a caminho da
santificação:
A
Igreja «é
santa, não obstante compreender no seu seio pecadores, porque ela
não possui em si outra vida senão a da graça: é vivendo da sua
vida que os seus membros se santificam; e é subtraindo-se à sua
vida que eles caem em pecado e nas desordens que impedem a irradiação
da sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por
estas faltas, tendo o poder de curar delas os seus filhos, pelo
Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo» (Paulo
VI, Sollemnis Professio fidei, 19: AAS 60 (1968) 440).
828.
Ao canonizar certos fiéis, isto é, ao proclamar solenemente que
esses fiéis praticaram heroicamente as virtudes e viveram na
fidelidade à graça de Deus, a Igreja reconhece o poder do Espírito
de santidade que está nela, e ampara a esperança dos fiéis,
propondo-lhes os santos como modelos e intercessores (
II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 40: AAS 57
(1965) 44-45: Ibid, 48-51: AAS 57 (1965) 53-58.). «Os
santos e santas foram sempre fonte e origem de renovação nos
momentos mais difíceis da história da Igreja (João
Paulo II, Ex. ap. Christifideles laici 16: AAS 81 (1989) 417)».
«A santidade é
a fonte secreta e o padrão infalível da sua actividade apostólica
e do seu dinamismo missionário» (João
Paulo II, Ex. ap. Christifideles laici 17: AAS 81 (1989) 419-420).
829.
«Na pessoa da
Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição, sem
mancha nem ruga, que lhe é própria. Mas os fiéis de Cristo têm
ainda de trabalhar para crescer em santidade, vencendo o pecado. Por
isso, levantam os olhos para Maria»(
II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 65: AAS 57
(1965) 64): nela, a Igreja é já plenamente santa.
III.
A Igreja é católica
QUE
QUER DIZER «CATÓLICA»?
830.
A palavra «católico» significa «universal» no sentido de
«segundo a totalidade» ou «segundo a integridade». A Igreja é
católica num duplo sentido:
É
católica porque Cristo está presente nela: «onde
está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica»
(Santo
Inácio de Antioquia, Epistula ad Smyrnaeos 8, 2: SC 10bis p. 138
(Funk 1, 282)). Nela subsiste a plenitude do Corpo de
Cristo unido à sua Cabeça (Cf.
Ef 1, 22-23), o que implica que ela receba d'Ele a
«plenitude dos
meios de salvação» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 6: AAS 58 (1966) 953)
que Ele quis: confissão de fé recta e completa, vida sacramental
integral e ministério ordenado na sucessão apostólica. Neste
sentido fundamental, a Igreja era católica no dia de Pentecostes (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 4: AAS 58 (1966) 950-951)
e sê-lo-á sempre até ao dia da Parusia.
831.
É católica, porque Cristo a enviou em missão à universalidade do
género humano (Cf.
Mt 28, 19):
«Todos
os homens são chamados a fazer parte do povo de Deus. Por isso,
permanecendo uno e único, este povo está destinado a estender-se a
todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da
vontade de Deus que, no princípio, criou a natureza humana na
unidade e decidiu enfim reunir na unidade os seus filhos dispersos
[...]. Este carácter de universalidade que adorna o povo de Deus é
dom do próprio Senhor. Graças a tal dom, a Igreja Católica tende a
recapitular, eficaz e perpetuamente, a humanidade inteira, com todos
os bens que ela contém, sob Cristo Cabeça, na unidade do Seu
Espírito (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 13: AAS 57 (1965)
17).
CADA
UMA DAS IGREJAS PARTICULARES É «CATÓLICA»
832.
«A Igreja de
Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas
comunidades locais de fiéis que, unidas aos seus pastores, recebem,
também elas, no Novo Testamento, o nome de Igrejas [...]. Nelas, os
fiéis são reunidos pela pregação do Evangelho de Cristo e é
celebrado o mistério da Ceia do Senhor [...]. Nestas comunidades,
ainda que muitas vezes pequenas e pobres ou dispersas, está presente
Cristo, por cujo poder se constitui a Igreja una, santa, católica e
apostólica» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 26: AAS 57 (1965)
31).
833.
Entende-se por Igreja particular, que é em primeiro lugar a diocese
(ou «eparquia»), uma comunidade de fiéis cristãos em
comunhão de fé e de sacramentos com o seu bispo, ordenado na
sucessão apostólica (II
Concílio do Vaticano, Decr. Christus Dominus. 11: AAS 58 (1966) 677;
CIC cân 368-369; CCEO cân 177 § 1. 178. 311, § 1. 312).
Estas Igrejas particulares «são
formadas à imagem da Igreja universal; é nelas e a partir delas que
existe a Igreja Católica una e única» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 23: AAS 57 (1965)
27.).
834.
As Igrejas particulares são plenamente católicas pela comunhão com
uma de entre elas: a Igreja Romana, «que
preside à caridade» (Santo
Inácio de Antioquia, Ep ad Romanos, Inscr.: SC 10bis, p. 106 (Funk
1, 252)). «Com
esta Igreja, mais excelente por causa da sua origem, deve
necessariamente estar de acordo toda a Igreja, isto é, os fiéis de
toda a parte» (Santo
Ireneu de Lião, Adversas Haereses 3, 3, 2: SC 211, 32 (PG 7, 849); I
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Pastor aeternus, c. 2: DS 3057).
«Desde que o
Verbo Encarnado desceu até nós, todas as Igrejas cristãs de todo o
mundo tiveram e têm a grande Igreja que vive aqui (em Roma)como
única base e fundamento, porque, segundo as próprias promessas do
Salvador, as portas do inferno nunca prevalecerão sobre ela»
(São
Máximo o Confessor, Opuscula theologica et polemica: PG 91,
137-140).
835.
«A Igreja
universal não deve ser entendida como simples somatório ou, por
assim dizer, federação de Igrejas particulares [...]. Mas é antes
a Igreja, universal por vocação e missão, que lançando raiz numa
variedade de terrenos culturais, sociais e humanos, toma em cada
parte do mundo aspectos e formas de expressão diversos»
(Paulo
VI, Ex. ap. Evangelii nuntiandi, 62: AAS 68 (1976) 52).
A rica variedade de normas disciplinares, ritos litúrgicos,
patrimónios teológicos e espirituais, próprios das Igrejas locais,
«mostra da forma
mais evidente, pela sua convergência na unidade, a catolicidade da
Igreja indivisa» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 23: AAS57 (1965)
29).
QUEM
PERTENCE À IGREJA CATÓLICA?
836.
«Todos os homens
são chamados [...] à unidade católica do povo de Deus; de vários
modos a ela pertencem, ou para ela estão ordenados, tanto os fiéis
católicos como os outros que também acreditam em Cristo e,
finalmente, todos os homens sem excepção, que a graça de Deus
chama à salvação» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 13: AAS 57 (1965)
18):
837.
«Estão
plenamente incorporados na sociedade que é a Igreja aqueles que,
tendo o Espírito de Cristo, aceitam toda a sua organização e todos
os meios de salvação nela instituídos, e que, além disso, pelos
laços da profissão de fé, dos sacramentos, do governo eclesiástico
e da comunhão, estão unidos no todo visível da Igreja, com Cristo
que a dirige por meio do Sumo Pontífice e dos bispos. Mas a
incorporação não garante a salvação àquele que, por não
perseverar na caridade, está no seio da Igreja «de corpo» mas não
«de coração» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 14: AAS 57 (1965)
18-19).
838.
«Com aqueles
que, tendo sido baptizados, têm o belo nome de cristãos, embora não
professem integralmente a fé ou não guardem a unidade de comunhão
com o sucessor de Pedro, a Igreja sabe-se unida por múltiplas
razões» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 15: AAS 57 (1965)
19.). «Aqueles
que crêem em Cristo e receberam validamente o Baptismo encontram-se
numa certa comunhão, embora imperfeita, com a Igreja Católica»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 3: AAS 57 (1965)
93). Quanto às Igrejas Ortodoxas, esta comunhão é
tão profunda «que
bem pouco lhes falta para atingir a plenitude, que permita uma
celebração comum da Eucaristia do Senhor» (Paulo
VI, Allocutio in Aede Sixtina, decem exactis annis a sublatis mutuis
excomunicationibus inter Romanam et Constantinopolitanam Ecclesias
(14 de Dezembro de 1975): AAS 68 (1976) 121: cf. II Concílio do
Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 13-18: AAS 57 (1965)
100-104).
A
IGREJA E OS NÃO-CRISTÃOS
839.
«Aqueles que
ainda não receberam o Evangelho estão também, de uma de ou outra
forma, ordenados ao povo de Deus» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 16: AAS 57 (1965)
20.):
A
relação da Igreja com o Povo Judaico. A Igreja, povo de Deus na
nova Aliança, ao perscrutar o seu próprio mistério, descobre o
laço que a une ao povo judaico (Cf.
II Concílio do Vaticano, Decl. Nostra aetate, 4: AAS 58 (1966)
742-743), «a
quem Deus falou primeiro» (Sexta-Feira
da Paixão do Senhor, Celebração da Paixão do Senhor Oração
Universal VI: Missale Romanum, editio typica (Typis Polyglottis
Vaticanis 1970), p. 254 [Trad. oficial portuguesa: Missal Romano,
Gráfica de Coimbra 1992. p. 259.267].). Ao invés das
outras religiões não cristãs, a fé judaica é já uma resposta à
revelação de Deus na antiga Aliança. É ao povo judaico que
«pertencem a adopção filial, a glória,
as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os
patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne» (Rm
9, 4-5); porque «os dons e o chamamento de
Deus são irrevogáveis» (Rm 11, 29).
840.
Aliás, quando se considera o futuro, o povo de Deus da Antiga
Aliança e o novo povo de Deus tendem para fins análogos: a
esperança da vinda (ou do regresso) do Messias. Mas a esperança é,
dum lado, a do regresso do Messias, morto e ressuscitado, reconhecido
como Senhor e Filho de Deus: do outro, a da vinda no fim dos tempos
do Messias, cujos traços permanecem velados – expectativa
acompanhada pelo drama da ignorância ou do falso conhecimento de
Cristo Jesus.
841.
Relações da Igreja com os muçulmanos. «O
desígnio de salvação envolve igualmente os que reconhecem o
Criador, entre os quais, em primeiro lugar, os muçulmanos que
declarando guardar a fé de Abraão, connosco adoram o Deus único e
misericordioso que há-de julgar os homens no último dia»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 16: AAS 57 (1965)
20; cf. Id, Decl. Nostra aetate, 3: AAS 58 (1966) 741-742.).
842.
A ligação da Igreja com as religiões não cristãs é, antes de
mais, a da origem e do fim comuns do género humano:
«De
facto, todos os povos formam uma única comunidade; têm uma origem
única, pois Deus fez que toda a raça humana habitasse à superfície
da terra; têm também um único fim último, Deus, cuja providência,
testemunhos de bondade e desígnio de salvação se estendem a todos,
até que os eleitos sejam reunidos na cidade santa»
(II
Concílio do Vaticano, Decl. Nostra aetate, 1: AAS 58 (1966) 740).
843.
A Igreja reconhece nas outras religiões a busca, «ainda nas sombras
e sob imagens», do Deus desconhecido mas próximo, pois é Ele quem
a todos dá vida, respiração e todas as coisas e quer que todos os
homens se salvem. Assim, a Igreja considera tudo quanto nas outras
religiões pode encontrar-se de bom e verdadeiro, «como
uma preparação evangélica e um dom d'Aquele que ilumina todo o
homem, para que, finalmente, tenha a vida» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 16: AAS 57 (1965)
20; cf. Id, Decl. Nostra aetate, 2: AAS 58 (1966) 740-741; Paulo VI.
Ex. ap. Evangelii nuntiandi, 53: AAS 68 (1976) 41).
844.
Mas no seu comportamento religioso, os homens revelam também limites
e erros que desfiguram neles a imagem de Deus:
«Muitas
vezes, enganados pelo Maligno, transviaram-se nos seus raciocínios,
trocando a verdade de Deus pela mentira. Preferindo o serviço da
criatura ao do Criador, ou vivendo e morrendo sem Deus neste mundo,
expuseram-se ao desespero final» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 16: AAS 57 (1965)
20.).
845.
Foi para reunir de novo todos os seus filhos, desorientados e
dispersos pelo pecado, que o Pai quis reunir toda a humanidade na
Igreja do seu Filho. A Igreja é o lugar onde a humanidade deve
reencontrar a sua unidade e a salvação. Ela é «o
mundo reconciliado» (Cf.
Santo Agostinho, Sermão 96, 7, 9: PL 38, 588); é a
nau que «navega
segura neste mundo, ao sopro do Espírito Santo, sob a vela panda da
Cruz do Senhor» (Santo
Ambrósio, De virginitate 18, 119: Sancti Ambrosii Episcopi
Mediolanensis opera, v. 14/2 (Milano-Roma 1989) p. 96 (PL 16, 297).).
Segundo uma outra imagem, querida aos Padres da Igreja, ela é
figurada pela arca de Noé, a única que salva do dilúvio (Cf.
já em 1 Pe 3, 20-21).
«FORA
DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO»
846.
Como deve entender-se esta afirmação, tantas vezes repetida pelos
Padres da Igreja? Formulada de modo positivo, significa que toda a
salvação vem de Cristo-Cabeça pela Igreja que é o seu Corpo:
O
santo Concílio «ensina,
apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, que esta Igreja,
peregrina na terra, é necessária à salvação. De facto, só
Cristo é mediador e caminho de salvação. Ora, Ele torna-Se-nos
presente no seu Corpo, que é a Igreja. Ao afirmar-nos expressamente
a necessidade da fé e do Baptismo, Cristo confirma-nos, ao mesmo
tempo, a necessidade da própria Igreja, na qual os homens entram
pela porta do Baptismo. É por isso que não se podem salvar aqueles
que, não ignorando que Deus, por Jesus Cristo, fundou a Igreja
Católica como necessária, se recusam a entrar nela ou a nela
perseverar» (
II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 14: AAS 57
(1965) 18.).
847.
Esta afirmação não visa aqueles que, sem culpa da sua parte,
ignoram Cristo e a sua igreja:
«Com
efeito, também podem conseguir a salvação eterna aqueles que,
ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, no entanto
procuram Deus com um coração sincero e se esforçam, sob o influxo
da graça, por cumprir a sua vontade conhecida através do que a
consciência lhes dita» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 16: AAS 57 (1965)
20; cf. Santo Ofício, Epistula ad Archiepiscopum Bostoniensem (8 de
Agosto 1949): DS 3866-3872).
848.
«Muito embora
Deus possa, por caminhos só d'Ele conhecidos, trazer à fé,
«sem a qual é impossível agradar a Deus»
(Cf. Heb
11, 6.), homens
que, sem culpa sua, ignoram o Evangelho, a Igreja tem o dever e, ao
mesmo tempo, o direito sagrado, de evangelizar» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 7: AAS 58 (1966) 955)
todos os homens.
A
MISSÃO – UMA EXIGÊNCIA DA CATOLICIDADE DA IGREJA
849.
O mandato missionário. «Enviada
por Deus às nações, para ser o sacramento universal da salvação,
a Igreja, em virtude das exigências íntimas da sua própria
catolicidade e em obediência ao mandamento do seu fundador, procura
incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 1: AAS 58 (1966) 947).
«Ide, pois, fazei discípulos de todas as
nações, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo, e ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei. E eis que Eu
estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo» (Mt
28, 19-20).
850.
A origem e o fim da missão. O mandato missionário do Senhor tem a
sua fonte primeira no amor eterno da Santíssima Trindade: «Por sua
natureza, a Igreja peregrina é missionária, visto ter a sua origem,
segundo o desígnio de Deus Pai, na missão do Filho e do Espírito
Santo» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 2: AAS 58 (1966) 948).
E o fim último da missão consiste em fazer todos os homens
participantes na comunhão existente entre o Pai e o Filho, no
Espírito de amor (Cf.
João Paulo II. Enc. Redemptoris missio, 23: AAS 83 (1991) 269-270).
851.
O motivo da missão. É ao amor de Deus por todos os homens que,
desde sempre, a Igreja vai buscar a obrigação e o vigor do seu
ardor missionário: «Porque o amor de Cristo nos impele...»
(2 Cor 5, 14) (Cf.
II Concílio do Vaticano, Decr. Apostolicam actuositatem, 6: AAS 58
(1966) 842-843; João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 11: AAS 83
(1991) 259-260). Com efeito, «Deus
quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da
verdade» (1 Tm 2, 4). Deus quer a salvação de
todos, mediante o conhecimento da verdade. A salvação está na
verdade. Os que obedecem à moção do Espírito da verdade estão já
no caminho da salvação. Mas a Igreja, à qual a mesma verdade foi
confiada, deve ir ao encontro dos que a procuram para lha levar. É
por acreditar no desígnio universal da salvação que a Igreja deve
ser missionária.
852.
Os caminhos da missão. «O
protagonista de toda a missão eclesial é o Espírito Santo»
(João
Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 21: AAS 83 (1991) 268).
É Ele que conduz a Igreja pelos caminhos da missão. E esta
«continua e
prolonga, no decorrer da história, a missão do próprio Cristo, que
foi enviado para anunciar a Boa-Nova aos pobres. É, portanto, pelo
mesmo caminho seguido por Cristo que, sob o impulso do Espírito
Santo, a Igreja deve seguir, ou seja, pelo caminho da pobreza, da
obediência, do serviço e da imolação de si mesma até à morte –
morte da qual Ele saiu vitorioso pela ressurreição»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 5: AAS 58 (1966) 952).
É assim que «o
sangue dos mártires se torna semente de cristãos»
(Tertuliano,
Apologeticum 50, 13: CCL 1, 171 (PL 1, 603)).
853.
Porém, no seu peregrinar, a Igreja também faz a experiência da
«distância que
separa a mensagem de que é portadora, da fraqueza humana daqueles a
quem este Evangelho é confiado» (II
Concílio do Vaticano, Const.past. Gaudium et spes, 43: AAS 58 (1966)
1064). Só avançando pelo caminho «da
penitência e da renovação» (II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
12: cf. Ibid, 15: AAS 57 (1965) 20) e entrando «pela
porta estreita da Cruz» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 1 AAS 58 (1966) 947)
é que o povo de Deus pode expandir o Reino de Cristo (Cf.
João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 12-20: AAS 83 (1991)
260-268). Com efeito, «assim
como foi na pobreza e na perseguição que Cristo realizou a
redenção, assim também a Igreja é chamada a seguir pelo mesmo
caminho, para comunicar aos homens os frutos da salvação»
(II
Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965)
12).
854.
Pela sua própria missão, «a
Igreja faz a caminhada de toda a humanidade e partilha a sorte
terrena do mundo. Ela é como que o fermento e, por assim dizer, a
alma da sociedade humana, chamada a ser renovada em Cristo e
transformada em família de Deus» (II
Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et Spes, 40: AAS 58
(1966) 1058). O esforço missionário exige, portanto,
paciência. Começa pelo anúncio do Evangelho aos povos e grupos que
ainda não acreditam em Cristo (Cf.
João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 42-47: AAS 83 (1991)
289-295); prossegue no estabelecimento de comunidades
cristãs, que sejam «sinais
da presença de Deus no mundo» (Cf.
II Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 15: AAS 58 (1966) 964)
e na fundação de Igrejas locais (Cf.
João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 48-49: AAS 83 (1991)
295-297); compromete-se num processo de inculturação,
para incarnar o Evangelho nas culturas dos povos (Cf.
João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 52-54: AAS 83 (1991)
299-302); e também não deixará de conhecer alguns
fracassos. «Pelo
que diz respeito aos homens, aos grupos humanos e aos povos, a Igreja
só a pouco e pouco os atinge e penetra, assim os assumindo na
plenitude católica» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 6: AAS 58 (1966) 953).
855.
A missão da Igreja requer um esforço em ordem à unidade dos
cristãos (Cf.
João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 50: AAS 83 (1991) 297-298).
«De facto, as
divisões entre cristãos impedem a Igreja de realizar a plenitude da
catolicidade que lhe é própria, naqueles seus filhos que, sem
dúvida, lhe pertencem pelo Baptismo, mas que se encontram separados
da plenitude da comunhão com ela. Mais ainda: para a própria
Igreja, torna-se mais difícil exprimir, sob todos os seus aspectos,
a plenitude da catolicidade na própria realidade da sua vida»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 4: AAS 57 (1965)
96).
856.
A tarefa missionária implica um diálogo respeitoso com aqueles que
ainda não aceitam o Evangelho (Cf.
João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 55: AAS 83 (1991) 302-304).
Os crentes podem tirar proveito para si mesmos deste diálogo,
aprendendo a conhecer melhor «tudo
quanto de verdade e graça se encontrava já entre os povos, como que
por uma secreta presença de Deus» (II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 9: AAS 58 (1966) 958).
Se anunciam a Boa-Nova aos que a ignoram, é para consolidar,
completar e elevar a verdade e o bem que Deus espalhou entre os
homens e os povos, e para os purificar do erro e do mal, «para
glória de Deus, confusão do demónio e felicidade do homem»
(II
Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 9: AAS 58 (1966) 958).
IV.
A Igreja é apostólica
857.
A Igreja é apostólica, porque está fundada sobre os Apóstolos. E
isso em três sentidos:
–
foi
e continua a ser construída sobre o «alicerce dos Apóstolos» (Ef
2, 20 (368)), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo
próprio Cristo (369);
–
guarda
e transmite, com a ajuda do Espírito Santo que nela habita, a
doutrina (370), o bom depósito, as sãs palavras recebidas dos
Apóstolos (371);
-continua
a ser ensinada, santificada e dirigida pelos Apóstolos até ao
regresso de Cristo, graças àqueles que lhes sucedem no ofício
pastoral: o colégio dos bispos, «assistido pelos presbíteros, em
união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja»:
«Pastor
eterno, não abandonais o vosso rebanho, mas sempre o guardais e
protegeis por meio dos santos Apóstolos, para que seja conduzido
através dos tempos, pelos mesmos chefes que pusestes à sua frente
como representantes do vosso Filho, Jesus Cristo» (373).
A
MISSÃO DOS APÓSTOLOS
858.
Jesus é o enviado do Pai. Desde o princípio do seu ministério,
«chamou para junto de Si os que Lhe aprouve [...] e deles
estabeleceu Doze, para andarem consigo e para os enviar a pregar»
(Mc 3, 13-14). A partir de então, eles serão os seus «enviados»
(é o que significa a palavra grega apostoloi). Neles, Jesus continua
a sua própria missão: «Tal como o Pai Me enviou, assim Eu vos
envio a vós» (Jo 20, 21) (374). O seu ministério é, pois, a
continuação da própria missão de Jesus: «Quem vos acolhe,
acolhe-Me a Mim», disse Ele aos Doze (Mt 10, 40) (375).
859.
Jesus uniu-os à missão que Ele próprio recebera do Pai: «assim
como o Filho não pode fazer nada por Si mesmo» (Jo 5, 19.30), mas
tudo recebe do Pai que O enviou, assim também aqueles que Jesus
envia nada podem fazer sem Ele (376); d'Ele recebem o mandato da
missão e o poder de o cumprir. Os apóstolos de Cristo sabem,
portanto, que são qualificados por Deus como «ministros de uma
Aliança nova» (2 Cor 3, 6), «ministros de Deus» (2 Cor 6, 4),
«embaixadores de Cristo» (2 Cor 5, 20), «servidores de Cristo e
administradores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1).
860.
No múnus dos Apóstolos há um aspecto intransmissível: serem as
testemunhas escolhidas da ressurreição do Senhor e os alicerces da
Igreja. Mas há também um aspecto da sua missão que permanece.
Cristo prometeu estar com eles até ao fim dos tempos (377). «A
missão divina confiada por Jesus aos Apóstolos é destinada a durar
até ao fim dos séculos, uma vez que o Evangelho que devem
transmitir é, para a Igreja, princípio de toda a sua vida em todos
os tempos. Por isso é que os Apóstolos tiveram o cuidado de
instituir [...] sucessores» (378).
OS
BISPOS, SUCESSORES DOS APÓSTOLOS
861.
«Para que a missão que lhes fora confiada pudesse ser continuada
depois da sua morte, os Apóstolos, como que por testamento,
mandataram os seus cooperadores imediatos para levarem a cabo a sua
tarefa e consolidarem a obra por eles começada, encomendando-lhes a
guarda do rebanho em que o Espírito Santo os tinha instituído para
apascentar a Igreja de Deus. Assim, instituíram homens nestas
condições e tudo dispuseram para que, após a sua morte, outros
homens provados tomassem conta do seu ministério» (379).
862.
«Do mesmo modo que o encargo confiado pelo Senhor singularmente a
Pedro, o primeiro dos Apóstolos, e destinado a ser transmitido aos
seus sucessores, é um múnus permanente, assim também é permanente
o múnus confiado aos Apóstolos de serem pastores da Igreja, múnus
cuja perenidade a ordem sagrada dos bispos deve garantir». Por isso,
a Igreja ensina que, «em virtude da sua instituição divina, os
bispos sucedem aos Apóstolos como pastores da Igreja, de modo que
quem os ouve, ouve a Cristo e quem os despreza, despreza a Cristo e
Aquele que enviou Cristo» (380).
O
APOSTOLADO
863.
Toda a Igreja é apostólica, na medida em que, através dos
sucessores de Pedro e dos Apóstolos, permanece em comunhão de fé e
de vida com a sua origem. Toda a Igreja é apostólica, na medida em
que é «enviada» a todo o mundo. Todos os membros da Igreja, embora
de modos diversos, participam deste envio. «A vocação cristã é
também, por natureza, vocação para o apostolado». E chamamos
«apostolado» a «toda a actividade do Corpo Místico» tendente a
«alargar o Reino de Cristo à terra inteira» (381).
864.
«Sendo Cristo, enviado do Pai, a fonte e a origem de todo o
apostolado da Igreja», é evidente que a fecundidade do apostolado,
tanto dos ministros ordenados como dos leigos, depende da sua união
vital com Cristo (382). Segundo as vocações, as exigências dos
tempos e os vários dons do Espírito Santo, o apostolado toma as
formas mais diversas. Mas é sempre a caridade, haurida
principalmente na Eucaristia, «que é como que a alma de todo o
apostolado» (383).
865.
A Igreja é una, santa, católica e apostólica na sua identidade
profunda e última, porque é nela que existe desde já, e será
consumado no fim dos tempos, «o Reino dos céus», «o Reino de
Deus» (384), que veio até nós na Pessoa de Cristo e que cresce
misteriosamente no coração dos que n'Ele estão incorporados, até
à sua plena manifestação escatológica. Então, todos os homens
por Ele resgatados e n' Ele tornados «santos e imaculados na
presença de Deus no amor» (385), serão reunidos como o único povo
de Deus, «a Esposa do Cordeiro» (386), «a Cidade santa descida do
céu, de junto de Deus, trazendo em si a glória do mesmo Deus»
(387). E «a muralha da cidade assenta sobre doze alicerces, cada um
dos quais tem o nome de um dos Doze apóstolos do Cordeiro» (Ap 21,
14).
Resumindo:
866.
A Igreja é una: tem um só Senhor, professa uma só fé, nasce dum
só Baptismo e forma um só Corpo, vivificado por um só Espírito,
em vista duma única esperança (388), no termo da qual todas as
divisões serão superadas.
867.
A Igreja é santa: é seu autor o Deus santíssimo; Cristo, seu
Esposo, por ela Se entregou para a santificar; vivifica-a o Espírito
de santidade. Embora encerra pecadores no seu seio, ela é «a
sem-pecado feita de pecadores». Nos santos brilha a sua santidade;
em Maria, ela é já totalmente santa.
868.
A Igreja é católica: anuncia a totalidade da fé, tem à sua
disposição e administra a plenitude dos meios de salvação; é
enviada a todos os povos; dirige-se a todos os homens; abrange todos
os tempos; «é, por sua própria natureza, missionária» (389).
869.
A Igreja é apostólica: está edificada sobre alicerces duradouros,
que são «os Doze apóstolos do Cordeiro» (390); é indestrutível
(391); é infalivelmente mantida na verdade: Cristo é quem a governa
por meio de Pedro e dos outros apóstolos, presentes nos seus
sucessores, o Papa e o colégio dos bispos.
870.
«A única Igreja de Cristo, da qual professamos no Credo que é una,
santa, católica e apostólica, [...] é na Igreja Católica que
subsiste, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos que estão
em comunhão com ele, embora numerosos elementos de santificação e
de verdade se encontrem fora das suas estruturas» (392).
PARÁGRAFO
4
OS
FIÉIS DE CRISTO:
HIERARQUIA,
LEIGOS, VIDA CONSAGRADA
871.
«Fiéis são aqueles que, por terem sido incorporados em Cristo pelo
Baptismo, foram constituídos em povo de Deus e por este motivo se
tornaram, a seu modo, participantes do múnus sacerdotal, profético
e real de Cristo e, segundo a própria condição, são chamados a
exercer a missão que Deus confiou à Igreja para esta realizar no
mundo» (393).
872.
«Devido à sua regeneração em Cristo, existe entre todos os fiéis
verdadeira igualdade no concernente à dignidade e à actuação,
pela qual todos eles cooperam para a edificação do Corpo de Cristo,
segundo a condição e a função próprias de cada um» (394).
873.
As próprias diferenças que o Senhor quis que existissem entre os
membros do seu Corpo servem a sua unidade e missão. Porque «há na
Igreja diversidade de ministérios, mas unidade de missão. Cristo
confiou aos Apóstolos e aos seus sucessores o encargo de ensinar,
santificar e governar em seu nome e pelo seu poder. Mas os leigos,
feitos participantes do múnus sacerdotal, profético e real de
Cristo, assumem na Igreja e no mundo a parte que lhes toca naquilo
que é a missão de todo o povo de Deus» (395). Por fim, «de ambos
estes grupos [hierarquia e leigos] existem fiéis que, pela profissão
dos conselhos evangélicos [...], se consagram a Deus de modo
peculiar, e contribuem para a missão salvífica da Igreja» (396).
I.
A constituição hierárquica da Igreja
PORQUÊ
O MINISTÉRIO ECLESIAL?
874.
A fonte do ministério na Igreja é o próprio Cristo. Foi Ele que o
instituiu e lhe deu autoridade e missão, orientação e finalidade.
«Cristo
Senhor, para apascentar e aumentar continuamente o povo de Deus,
instituía na sua Igreja vários ministérios, para bem de todo o
Corpo. Com efeito, os ministros que estão dotados do poder sagrado
estão ao serviço dos seus irmãos, para que todos quantos pertencem
ao povo de Deus [...] alcancem a salvação» (397).
875.
«Como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como
hão-de ouvir falar, sem que alguém o anuncie? E como hão-de
anunciar, se não forem enviados?» (Rm 10, 14-15). Ninguém, nenhum
indivíduo ou comunidade, pode anunciar a si mesmo o Evangelho. «A
fé surge da pregação» (Rm 10, 17). Por outro lado, ninguém pode
dar a si próprio o mandato e a missão de anunciar o Evangelho. O
enviado do Senhor fala e actua, não por autoridade própria, mas em
virtude da autoridade de Cristo; não como membro da comunidade, mas
falando à comunidade em nome de Cristo. Ninguém pode conferir a si
mesmo a graça; ela deve ser-lhe dada e oferecida. Isto supõe
ministros da graça, autorizados e habilitados em nome de Cristo. É
d'Ele que os bispos e presbíteros recebem a missão e a faculdade (o
«poder sagrado») de agir na pessoa de Cristo Cabeça e os diáconos
a força de servir o povo de Deus na «diaconia» da Liturgia, da
Palavra e da caridade, em comunhão com o bispo e com o seu
presbitério. A este ministério, no qual os enviados de Cristo fazem
e dão, por graça de Deus, o que por si mesmos não podem fazer nem
dar, a tradição da Igreja chama «sacramento». O ministério da
Igreja é conferido por um sacramento próprio.
876.
Intrinsecamente ligado à natureza sacramental do ministério
eclesial está o seu carácter de serviço. Com efeito, inteiramente
dependentes de Cristo, que lhes dá missão e autoridade, os
ministros são verdadeiramente «servos de Cristo» (398), à imagem
do mesmo Cristo que por nós livremente tomou «a forma de servo»
(Fl 2, 7). E uma vez que a palavra e a graça, de que são ministros,
não são deles, mas de Cristo que lhas confiou para os outros, eles
tornar-se-ão livremente servos de todos (399).
877.
Do mesmo modo, pertence à natureza sacramental do ministério
eclesial que ele tenha um carácter colegial. De facto, desde o
princípio do seu ministério, o Senhor Jesus instituiu os Doze,
«gérmenes do novo Israel e ao mesmo tempo origem da hierarquia
sagrada» (400). Escolhidos juntamente, também juntamente foram
enviados, e a sua unidade fraterna estará ao serviço da comunhão
fraterna de todos os fiéis. Será como um reflexo e um testemunho da
comunhão das pessoas divinas (401). Por isso, todo o bispo exerce o
seu ministério no seio do colégio episcopal e em comunhão com o
bispo de Roma, sucessor de Pedro e chefe do mesmo colégio; e todos
os presbíteros exercem o seu ministério no seio do presbyterium da
diocese, sob a direcção do seu bispo.
878.
Finalmente, pertence à natureza sacramental do ministério eclesial
que ele tenha um carácter pessoal. Se os ministros de Cristo actuam
em comunhão, fazem-no sempre também de modo pessoal. Cada qual é
chamado pessoalmente –: «Tu, segue-Me» (Jo 21, 22)(402) – para
ser, na missão comum, uma testemunha pessoal, pessoalmente
responsável perante Aquele que lhe confere a missão, agindo «na
pessoa d'Ele» e em favor das pessoas: «Eu te baptizo em nome do
Pai...»; «Eu te absolvo...».
879.
O ministério sacramental na Igreja é, pois, um serviço exercido em
nome de Cristo. Tem um carácter pessoal e uma forma colegial. Isto
verifica-se nos vínculos que ligam o colégio episcopal e o seu
chefe, o sucessor de Pedro, bem como na relação entre a
responsabilidade pastoral do bispo pela sua Igreja particular e a
solicitude comum do colégio episcopal pela Igreja universal.
O
COLÉGIO EPISCOPAL E O SEU CHEFE, O PAPA
880.
Cristo, ao instituir os Doze, «deu-lhes a forma dum corpo colegial,
quer dizer, dum grupo estável, e colocou á sua frente Pedro,
escolhido de entre eles» (403). «Assim como, por instituição do
Senhor, Pedro e os outros apóstolos formam um só colégio
apostólico, assim de igual modo o pontífice romano, sucessor de
Pedro, e os bispos, sucessores dos Apóstolos, estão unidos entre
si» (404).
881.
Foi só de Simão, a quem deu o nome de Pedro, que o Senhor fez a
pedra da sua Igreja. Confiou-lhe as chaves desta (405) e instituiu-o
pastor de todo o rebanho (406). «Mas o múnus de ligar e desligar,
que foi dado a Pedro, também foi dado, sem dúvida alguma, ao
colégio dos Apóstolos unidos ao seu chefe» (407). Este múnus
pastoral de Pedro e dos outros apóstolos pertence aos fundamentos da
Igreja e é continuado pelos bispos sob o primado do Papa.
882.
O Papa, bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, «é princípio
perpétuo e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si,
tanto os bispos como a multidão dos fiéis» (408). Com efeito, em
virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja,
o pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo
e universal, que pode sempre livremente exercer» (409).
883.
«O colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em
união com o pontífice romano [...] como sua cabeça». Como tal,
este colégio é «também sujeito do poder supremo e pleno sobre
toda a Igreja, poder que, no entanto, só pode ser exercido com o
consentimento do pontífice romano» (410).
884.
«O colégio dos bispos exerce de modo solene o poder sobre toda a
Igreja no concílio ecuménico» (411). Mas «não há concilio
ecuménico se não for, como tal, confirmado, ou pelo menos aceite,
pelo sucessor de Pedro» (412).
885.
«Pela sua múltipla composição, este colégio exprime a variedade
e a universalidade do povo de Deus: enquanto reunido sob uma só
cabeça, revela a unidade do rebanho de Cristo» (413).
886.
«Cada bispo, individualmente, é o princípio e o fundamento da
unidade na sua respectiva Igreja particular» (414). Como tal,
«exerce a sua autoridade pastoral sobre a porção do povo de Deus
que lhe foi confiada» (415), assistido pelos presbíteros e
diáconos. Mas, como membro do colégio episcopal, cada qual
participa na solicitude por todas as Igrejas (416), dever que exerce,
antes de mais, «governando bem a sua própria Igreja como porção
da Igreja universal», contribuindo assim «para o bem de todo o
Corpo Místico, que é também o corpo das Igrejas» (417). Esta
solicitude há-de abranger, de modo particular, os pobres (418), os
perseguidos por causa da fé e ainda os missionários espalhados por
toda a terra.
887.
As Igrejas particulares vizinhas e de cultura homogénea formam
províncias eclesiásticas ou conjuntos mais vastos, chamados
patriarcados ou regiões (419). Os bispos destes conjuntos podem
reunir-se em sínodos ou concílios provinciais. «Igualmente, hoje,
as conferências episcopais podem prestar uma ajuda múltipla e
fecunda, em ordem à realização concreta do espírito colegial»
(420).
O
OFÍCIO DE ENSINAR
888.
Os bispos, com os presbíteros seus cooperadores, «têm como
primeiro dever anunciar o Evangelho de Deus a todos os homens»
(421), conforme a ordem do Senhor; (422). Eles são «os arautos da
fé», que trazem a Cristo novos discípulos, e os «doutores
autênticos» da fé apostólica, «munidos da autoridade de Cristo»
(423).
889.
Para manter a Igreja na pureza da fé transmitida pelos Apóstolos,
Cristo quis conferir à sua Igreja uma participação na sua própria
infalibilidade, Ele que é a Verdade. Pelo «sentido sobrenatural da
fé», o povo de Deus «adere de modo indefectível à fé», sob a
conduta do Magistério vivo da Igreja (424).
890.
A missão do Magistério está ligada ao carácter definitivo da
Aliança instaurada por Deus em Cristo com o seu povo. Deve
protegê-lo dos desvios e falhas, e garantir-lhe a possibilidade
objectiva de professar, sem erro, a fé autêntica. O múnus pastoral
do Magistério está, assim, ordenado a velar por que o povo de Deus
permaneça na verdade que liberta. Para cumprir este serviço. Cristo
dotou os pastores do carisma da infalibilidade em matéria de fé e
de costumes. O exercício de tal carisma pode revestir-se de diversas
modalidades:
891.
«Desta infalibilidade goza o pontífice romano, chefe do colégio
episcopal, por força do seu ofício, quando, na qualidade de pastor
e doutor supremo de todos os fiéis, e encarregado de confirmar na fé
os seus irmãos, proclama, por um acto definitivo, um ponto de
doutrina respeitante à fé ou aos costumes [...]. A infalibilidade
prometida à Igreja reside também no corpo dos bispos, quando exerce
o seu Magistério supremo em união com o sucessor de Pedro»,
sobretudo num concílio ecuménico (425) Quando, pelo seu Magistério
supremo, a Igreja propõe alguma coisa «para crer como sendo
revelada por Deus» (426) como doutrina de Cristo, «deve-se aderir
na obediência da fé a tais definições» (427). Esta
infalibilidade abarca tudo quanto abarca o depósito da Revelação
divina
892.
A assistência divina é também dispensada aos sucessores dos
Apóstolos, quando ensinam em comunhão com o sucessor de Pedro, e de
modo particular ao bispo de Roma, pastor de toda a Igreja, quando,
mesmo sem chegarem a uma definição infalível e sem se pronunciar
de «modo definitivo», no exercício do seu Magistério ordinário,
propõem uma doutrina que leva a uma melhor inteligência da
Revelação em matéria de fé e de costumes. A este ensinamento
ordinário devem os fiéis «prestar o assentimento religioso do seu
espírito» (429), o qual, embora distinto do assentimento da fé, é,
no entanto, seu prolongamento.
O
OFÍCIO DE SANTIFICAR
893.
O bispo tem igualmente «a responsabilidade de dispensar a graça do
sumo sacerdócio» (430), em particular na Eucaristia, que oferece
pessoalmente ou cuja celebração pelos presbíteros seus
cooperadores ele garante. É que a Eucaristia é o centro da vida da
Igreja particular. O bispo e os presbíteros santificam a Igreja com
a sua oração e o seu trabalho, bem como pelo ministério da Palavra
e dos sacramentos. E também a santificam com o seu exemplo, actuando
«não com um poder autoritário sobre a herança do Senhor, mas como
modelos do rebanho» (1 Pe 5, 3). Assim «chegarão, com o rebanho
que lhes está confiado, à vida eterna» (431).
O
OFÍCIO DE GOVERNAR
894.
«Os bispos dirigem as suas Igrejas particulares, como vigários e
legados de Cristo, mediante os seus conselhos, incitamentos e
exemplos; mas também com a sua autoridade e com o seu poder sagrado»
(432), que, no entanto, devem exercer para edificação naquele
espírito de serviço que é próprio o do seu Mestre (433).
895.
«Este poder, que eles exercem pessoalmente em nome de Cristo, é um
poder próprio, ordinário e imediato. O seu exercício, contudo,
está regulado em definitivo pela autoridade suprema da Igreja»
(434). Mas os bispos não devem ser considerados como vigários do
Papa; a autoridade ordinária e imediata deste sobre toda a Igreja,
não anula, pelo contrário, confirma e defende, a daqueles. A
autoridade episcopal deve exercer-se em comunhão com toda a Igreja,
sob a direcção do Papa.
896.
O Bom Pastor há-de ser o modelo e a «forma» do múnus pastoral do
bispo. Consciente das suas fraquezas, «o bispo pode mostrar-se
indulgente para com os ignorantes e os transviados. Não se furte a
atender os que de si dependem, rodeando-os de carinho, como a
verdadeiros filhos [...]. Quanto aos fiéis, devem viver unidos ao
seu bispo como a Igreja a Jesus Cristo e Jesus Cristo ao Pai» (435).
«Segui
todos o bispo, como Jesus Cristo o Pai; e o presbitério como se
fossem os Apóstolos; quanto aos diáconos, respeitai-os como à lei
de Deus. Ninguém faça, à margem do bispo, nada do que diga
respeito à Igreja» (436).
II.
Os fiéis leigos
897.
«Por leigos entendem-se aqui todos os cristãos com excepção dos
membros da ordem sacra ou do estado religioso reconhecido pela
Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Baptismo,
constituídos em povo de Deus e feitos participantes, a seu modo, da
função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte
que lhes toca, na Igreja e no mundo, a missão de todo o povo
cristão» (437).
A
VOCAÇÃO DOS LEIGOS
898.
«A vocação própria dos leigos consiste precisamente em procurar o
Reino de Deus ocupando-se das realidades temporais e ordenando-as
segundo Deus [...]. Pertence-lhes, de modo particular, iluminar e
orientar todas as realidades temporais a que estão estreitamente
ligados, de tal modo que elas sejam realizadas e prosperem
constantemente segundo Cristo, para glória do Criador e Redentor»
(438).
899.
A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária
quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar, com
as exigências da doutrina e da vida cristã, as realidades sociais,
políticas e económicas. Tal iniciativa é um elemento normal da
vida da Igreja:
«Os
fiéis leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja: por
eles, a Igreja é o princípio vital da sociedade. Por isso, eles,
sobretudo, devem ter uma consciência cada vez mais clara, não
somente de que pertencem à Igreja, mas de que são Igreja, isto é,
comunidade dos fiéis na terra sob a direcção do chefe comum, o
Papa, e dos bispos em comunhão com ele. Eles são Igreja» (439).
900.
Porque, como todos os fiéis, são por Deus encarregados do
apostolado, em virtude do Baptismo e da Confirmação, os leigos têm
o dever e gozam do direito, individualmente ou agrupados em
associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação
seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra.
Este dever é ainda mais urgente quando só por eles podem os homens
receber o Evangelho e conhecer Cristo. Nas comunidades eclesiais, a
sua acção é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos
pastores não pode, a maior parte das vezes, alcançar pleno efeito
(440).
A
PARTICIPAÇÃO DOS LEIGOS NA FUNÇÃO SACERDOTAL DE CRISTO
901.
«Em virtude da sua consagração a Cristo e da unção do Espírito
Santo, os leigos recebem a vocação admirável e os meios que
permitem ao Espírito produzir neles frutos cada vez mais abundantes.
De facto, todas as suas actividades, orações, iniciativas
apostólicas, a sua vida conjugal e familiar, o seu trabalho de cada
dia, os seus lazeres do espírito e do corpo, se forem vividos no
Espírito de Deus, e até as provações da vida se pacientemente
suportadas, tudo se transforma em "sacrifício espiritual,
agradável a Deus por Jesus Cristo" (1 Pe 2, 5). Na celebração
eucarística, todas estas oblações se unem à do Corpo de Senhor,
para serem piedosamente oferecidas ao Pai. É assim que os leigos,
como adoradores que em toda a parte se comportam santamente,
consagram a Deus o próprio mundo» (441).
902.
Os pais participam dum modo particular no múnus da santificação,
«vivendo em espírito cristão a vida conjugal e cuidando da
educação cristã dos filhos» (442).
903.
Os leigos, se têm as qualidades requeridas, podem ser admitidos de
modo estável aos ministérios de leitor e de acólito (443). «Onde
as necessidades da Igreja o aconselharem, por falta de ministros, os
leigos, mesmo que não sejam leitores nem acólitos, podem suprir
alguns ofícios destes, como os de exercer o ministério da Palavra,
presidir às orações litúrgicas, conferir o Baptismo e distribuir
a sagrada Comunhão, segundo as prescrições do Direito» (444).
A
SUA PARTICIPAÇÃO NA FUNÇÃO PROFÉTICA DE CRISTO
904.
«Cristo [...] realiza a sua missão profética não só através da
hierarquia [...], mas também por meio dos leigos. Para isso os
constituiu testemunhas, e lhes concedeu o sentido da fé e a graça
da Palavra» (445):
«Ensinar
alguém, para o trazer à fé, [...] é dever de todo o pregador e,
mesmo, de todo o crente» (446).
905.
Os leigos realizam a sua missão profética também pela
evangelização, «isto é, pelo anúncio de Cristo, concretizado no
testemunho da vida e na palavra». Para os leigos, «esta acção
evangelizadora [...] adquire um carácter específico e uma
particular eficácia, por se realizar nas condições ordinárias da
vida secular» (447).
«Este
apostolado não consiste só no testemunho da vida: o verdadeiro
apóstolo procura todas as ocasiões de anunciar Cristo pela palavra,
tanto aos não-crentes [...] como aos fiéis» (448).
906.
Aqueles de entre os fiéis leigos que disso forem capazes e que para
tal se formarem, podem também prestar o seu concurso à formação
catequética (449), ao ensino das ciências sagradas (450) e aos
meios de comunicação social (451).
907.
«Os fiéis, segundo a ciência, a competência e a proeminência de
que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de
manifestar aos sagrados pastores a sua opinião acerca das coisas
atinentes ao bem da Igreja e de a exporem aos restantes fiéis, salva
a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos
pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das
pessoas» (452).
A
SUA PARTICIPAÇÃO NA FUNÇÃO REAL DE CRISTO
908.
Fazendo-se obediente até à morte (453), Cristo comunicou aos seus
discípulos o dom de régia liberdade, para que «com abnegação de
si mesmos e santidade de vida, vençam em si próprios o reino do
pecado» (454).
«Aquele
que submete o corpo e governa a sua alma, sem se deixar submergir
pelas paixões, é senhor de si mesmo; pode ser chamado rei, porque é
capaz de reger a sua própria pessoa: é livre e independente e não
se deixa cativar por uma escravidão culpável» (455).
909.
«Além disso, também pela união das suas forças, devem os leigos
sanear as instituições e as condições de vida no mundo, quando
estas tendem a levar ao pecado, para que todas se conformem com as
regras da justiça e favoreçam a prática da virtude, em vez de a
impedirem. Agindo assim, impregnarão de valor moral a cultura e as
obras humanas (456).
910.
«Os leigos também podem sentir-se ou serem chamados a colaborar com
os pastores no serviço da comunidade eclesial, trabalhando pelo
crescimento e vida da mesma, exercendo ministérios muito variados,
segundo a graça e os carismas que ao Senhor aprouver comunicar-lhes»
(457).
911.
Na Igreja, «os fiéis leigos podem cooperar no exercício do poder
de governo, segundo as normas do direito» (458). É o caso da sua
presença nos concílios particulares (459) nos sínodos diocesanos
(460) e nos conselhos pastorais (461) do exercício da função
pastoral duma paróquia (462) da colaboração nos conselhos para os
assuntos económicos (463); da participação nos tribunais
eclesiásticos (464); etc.
912.
Os fiéis devem «distinguir cuidadosamente os direitos e deveres que
lhes competem como membros da Igreja, daqueles que lhes dizem
respeito como membros da sociedade humana. Procurem harmonizar uns e
outros, lembrando-se de que em todos os assuntos temporais se devem
guiar pela sua consciência cristã, pois nenhuma actividade humana,
mesmo de ordem temporal, pode subtrair-se ao domínio de Deus»
(465).
913.
«Assim, todo e qualquer leigo, em virtude dos dons que lhe foram
concedidos, é ao mesmo tempo testemunha e instrumento vivo da missão
da própria Igreja "segundo a medida do dom de Cristo" (Ef
4, 7)» (466).
III.
A vida consagrada
914.
«O estado de vida constituído pela profissão dos conselhos
evangélicos, embora não pertença à estrutura hierárquica da
Igreja, está, no entanto, incontestavelmente ligado à sua vida e
santidade» (467).
CONSELHOS
EVANGÉLICOS, VIDA CONSAGRADA
915.
Os conselhos evangélicos são, na sua multiplicidade, propostos a
todos os discípulos de Cristo. A perfeição da caridade, a que
todos os fiéis são chamados, comporta, para aqueles que livremente
assumem o chamamento à vida consagrada, a obrigação de praticar a
castidade no celibato por amor do Reino, a pobreza e a obediência. É
a profissão destes conselhos, num estado de vida estável
reconhecido pela Igreja, que caracteriza a «vida consagrada» a Deus
(468).
916.
A partir daí, o estado de vida consagrada aparece como uma das
maneiras de viver uma consagração «mais íntima», radicada no
Baptismo e totalmente dedicada a Deus (469). Na vida consagrada, os
fiéis propõem‑se, sob a moção do Espírito Santo, seguir
Cristo mais de perto, entregar‑se a Deus amado acima de todas
as coisas e, procurando a perfeição da caridade ao serviço do
Reino, ser na Igreja sinal e anúncio da glória do mundo que há-de
vir (470).
UMA
GRANDE ÁRVORE, DE FRONDOSA RAMAGEM
917.
«Tal como uma árvore se ramifica maravilhosa e variadamente no
campo do Senhor, a partir de uma semente lançada por Deus, assim
surgiram diversas formas de vida solitária ou comum, e várias
famílias religiosas que vêm aumentar a riqueza espiritual, tanto em
proveito dos seus próprios membros como no de todo o Corpo de
Cristo» (471).
918.
«Desde as origens da Igreja, houve homens e mulheres que se
propuseram, pela prática dos conselhos evangélicos, seguir mais
livremente Cristo e imitá-Lo de modo mais fiel. Cada qual a seu
modo. Levaram uma vida consagrada a Deus. Muitos de entre eles, sob o
impulso do Espírito Santo, viveram na solidão; outros fundaram
famílias religiosas que a Igreja de bom grado acolheu e aprovou com
a sua autoridade» (472).
919.
Os bispos devem esforçar-se sempre por discernir os novos dons de
vida consagrada, confiados pelo Espírito Santo à sua Igreja. A
aprovação de novas formas de vida consagrada é reservada à Sé
Apostólica (473).
A
VIDA EREMÍTICA
920.
Os eremitas nem sempre fazem profissão pública dos três conselhos
evangélicos; mas, «por meio de um mais estrito apartamento do
mundo, do silêncio na solidão, da oração assídua e da
penitência, consagram a sua vida ao louvor de Deus e à salvação
do mundo» (474).
921.
Os eremitas manifestam o aspecto interior do mistério da Igreja que
é a intimidade pessoal com Cristo. Oculta aos olhos dos homens, a
vida do eremita é pregação silenciosa d'Aquele a Quem entregou a
sua vida. Cristo é tudo para ele. É uma vocação especial para
encontrar no deserto, no próprio combate espiritual, a glória do
Crucificado.
AS
VIRGENS E AS VIÚVAS CONSAGRADAS
922.
Já desde os tempos apostólicos, apareceram virgens (475) e viúvas
cristãs (476), chamadas pelo Senhor a unirem-se a Ele sem partilha,
numa maior liberdade de coração, de corpo e de espírito, que
tomaram a decisão, aprovada pela Igreja, de viver, respectivamente,
no estado de virgindade ou de castidade perpétua, «por amor do
Reino dos céus» (Mt 19, 12).
923.
As virgens, «emitindo o santo propósito de seguir mais de perto a
Cristo, são consagradas a Deus pelo Bispo diocesano segundo o rito
litúrgico aprovado, desposam-se misticamente com Cristo Filho de
Deus e dedicam-se ao serviço da Igreja» (477). Por este ritual
solene (consecratio virginum – consagração das virgens), a
«virgem é constituída como pessoa consagrada, sinal transcendente
do amor da Igreja a Cristo, imagem escatológica da Esposa celeste e
da vida futura» (478).
924.
«Próxima das outras formas de vida consagrada» (479), a ordem das
virgens estabelece a mulher que vive no mundo (ou a monja) na oração,
na penitência, no serviço dos seus irmãos e no trabalho
apostólico, segundo o estado e carismas respectivos concedidos a
cada uma (480). As virgens consagradas podem associar-se para
observarem mais fielmente os seus propósitos (481).
A
VIDA RELIGIOSA
925.
Nascida no Oriente, nos primeiros séculos do cristianismo (482), e
vivida em institutos canonicamente erectos pela Igreja (483), a vida
religiosa distingue-se das outras formas de vida consagrada pelo
aspecto cultual, pela profissão pública dos conselhos evangélicos,
pela vida fraterna em comum e pelo testemunho dado a respeito da
união de Cristo e da Igreja (484).
926.
A vida religiosa faz parte do mistério da Igreja. É um dom que a
Igreja recebe do seu Senhor, e que oferece, como um estado de vida
estável, ao fiel chamado por Deus à profissão dos conselhos.
Assim, a Igreja pode, ao mesmo tempo, manifestar Cristo e
reconhecer-se como Esposa do Salvador. A vida religiosa é convidada
a significar, nas suas variadas formas, a própria caridade de Deus,
em linguagem do nosso tempo.
927.
Todos os religiosos, isentos ou não (485), têm o seu lugar entre os
cooperadores do bispo diocesano na sua função pastoral (486). A
implantação e a expansão missionária da Igreja requerem a
presença da vida religiosa em todas as suas formas, desde os começos
da evangelização (487). «A história confirma os grandes méritos
das famílias religiosas na propagação da fé e na formação de
novas Igrejas, desde as antigas instituições monásticas e as
Ordens medievais, até às congregações modernas» (488).
OS
INSTITUTOS SECULARES
928.
«Instituto secular é o instituto de vida consagrada, em que os
fiéis, vivendo no século, se esforçam por atingir a perfeição da
caridade e por contribuir, sobretudo a partir de dentro, para a
santificação do mundo» (489).
929.
Os membros destes institutos, mediante uma «vida perfeita e
inteiramente consagrada [a esta] santificação» (490), tomam parte
na tarefa de evangelização da Igreja, «no mundo e a partir do
mundo» (491), onde a sua presença actua «à maneira de fermento»
(492). O seu testemunho de vida cristã visa ordenar segundo Deus as
realidades temporais e impregnar o mundo com a força do Evangelho.
Assumem, por vínculos sagrados, os conselhos evangélicos e mantêm
entre si a comunhão e fraternidade próprias do seu teor de vida
secular (493).
AS
SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA
930.
Aproximam-se das diversas formas de vida consagrada, «as sociedades
de vida apostólica, cujos membros, sem votos religiosos, prosseguem
o fim apostólico próprio da sociedade e, vivendo em comum a vida
fraterna, de acordo com a própria forma de vida, tendem, pela
observância das constituições, à perfeição da caridade. Entre
elas há sociedades, cujos membros [...] assumem os conselhos
evangélicos» segundo as suas constituições» (494).
CONSAGRAÇÃO
E MISSÃO: ANUNCIAR O REI QUE VEM
931.
Entregando-se a Deus amado sobre todas as coisas, aquele que pelo
Baptismo já Lhe estava devotado, encontra-se, assim, mais
intimamente consagrado ao serviço divino e dedicado ao bem da
Igreja. Pelo estado de consagração a Deus, a Igreja manifesta
Cristo e mostra como o Espírito Santo nela actua de modo admirável.
Aqueles que professam os conselhos evangélicos têm, pois, por
missão, antes de mais, viver a sua consagração. «Visto estarem
dedicados, em virtude da sua consagração, ao serviço da Igreja,
têm obrigação de trabalhar, de modo especial, segundo a índole
própria do instituto, na acção missionária» (495).
932.
Na Igreja, que é como o sacramento, isto é, o sinal e o instrumento
da vida de Deus, a vida consagrada surge como um sinal particular do
mistério da Redenção. Seguir e imitar Cristo «mais de perto»,
manifestar «mais claramente» o seu aniquilamento, é entrar «mais
profundamente» presente, no coração de Cristo, aos seus
contemporâneos. Quem segue este caminho «mais estreito» estimula
os seus irmãos pelo seu exemplo e «dá este esplêndido e sublime
testemunho: o mundo não pode ser transfigurado e oferecido a Deus
sem o espírito das bem-aventuranças» (496).
933.
Quer este testemunho seja público, como no estado religioso, quer
seja mais discreto ou mesmo secreto, a vinda de Cristo é, para todos
os consagrados, a origem e a meta das suas vidas:
«Como
o povo de Deus não tem na terra cidade permanente [...], o estado
religioso [...] manifesta a todos os crentes a presença, já neste
mundo, dos bens celestes; dá testemunho da vida nova e eterna
adquirida pela redenção de Cristo e anuncia a ressurreição futura
e a glória celeste» (497).
Resumindo:
934.
«Por instituição divina, há na Igreja, entre os fiéis, ministros
sagrados, também chamados, em direito, clérigos, sendo os outros
chamados leigos». E há fiéis que, pertencendo a uma ou a outra
destas duas categorias, se consagraram a Deus pela profissão dos
conselhos evangélicos e servem assim a missão da Igreja (498).
935.
Para anunciar a fé e implantar o seu Reino, Cristo envia os
Apóstolos e respectivos sucessores. Fá-los participantes da sua
missão. É d'Ele que uns e outros recebem o poder de agir em seu
nome.
936.
0 Senhor fez de Pedro o fundamento visível da sua Igreja. Deu-lhe as
chaves dela. O bispo da Igreja de Roma, sucessor de S. Pedro, é «a
cabeça do colégio dos bispos, vigário de Cristo e pastor da Igreja
universal neste mundo» (499).
937.
0 Papa «está revestido, por instituição divina, do poder supremo,
plenário, imediato e universal para o governo das almas» (500).
938.
Os bispos, estabelecidos pelo Espírito Santo, sucedem aos Apóstolos.
São, «cada um por sua parte, princípio visível e fundamento da
unidade nas suas Igrejas particulares» (501).
939.
Ajudados pelos presbíteros seus cooperadores e pelos diáconos, os
bispos têm o encargo de ensinar autenticamente a fé, celebrar o
culto divino, sobretudo a Eucaristia, e governar a sua Igreja como
verdadeiros pastores. Incumbe-lhes também o cuidado de todas as
Igrejas, com e sob a orientação do Papa.
940.
«Sendo próprio do estado dos leigos viverem a sua vida no meio do
mundo e dos assuntos profanos, eles são chamados por Deus a exercer
o seu apostolado no mundo à maneira de fermento, graças ao vigor do
seu espírito cristão» (502).
941.
Os leigos participam do sacerdócio de Cristo: cada vez mais unidos a
Ele, desenvolvem a graça do Baptismo e da Confirmação em todas as
dimensões da vida pessoal, familiar, social e eclesial, e assim
realizam a vocação à santidade dirigida a todos os baptizados.
942.
Graças à sua missão profética, os leigos «são também chamados
a ser, em todas as circunstâncias e no próprio coração da
comunidade humana, testemunhas de Cristo» (503).
943.
Graças à sua missão real, os leigos têm o poder de vencer em si
mesmos e no mundo o império do pecado, mediante a abnegação e a
santidade de vida (504).
944.
A vida consagrada a Deus caracteriza-se pela profissão pública dos
conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, num
estado de vida estável reconhecido pela Igreja.
945.
Entregue a Deus, amado sobre todas as coisas, aquele que o Baptismo
já a Ele tinha destinado, encontra-se, no estado de vida consagrada,
mais intimamente votado ao serviço divino e dedicado ao bem de toda
a Igreja.
PARÁGRAFO
5
A
COMUNHÃO DOS SANTOS
946.
Depois de ter confessado «a santa Igreja Católica», o Símbolo dos
Apóstolos acrescenta «a comunhão dos santos». Este artigo é, em
certo sentido, uma explicitação do anterior: pois «que é a Igreja
senão a assembleia de todos os santos?» (505). A comunhão dos
santos é precisamente a Igreja.
947.
«Uma vez que todos os crentes formam um só corpo, o bem duns é
comunicado aos outros [...]. E assim, deve-se acreditar que existe
uma comunhão de bens na Igreja. [...] Mas o membro mais importante é
Cristo, que é a Cabeça [...]. Assim, o bem de Cristo é comunicado
a todos os membros, comunicação que se faz através dos sacramentos
da Igreja» (506). «Como a Igreja é governada por um só e mesmo
Espírito, todos os bens por ela recebidos tornam-se necessariamente
um fundo comum» (507).
948.
A expressão «comunhão dos santos» tem, portanto, dois
significados estreitamente ligados: «comunhão nas coisas santas,
sancta», e «comunhão entre as pessoas santas, sancti».
«Sancta
sanctis! (O que é santo, para aqueles que são santos)». Assim
proclama o celebrante na maior parte das liturgias orientais, no
momento da elevação dos santos Dons antes do serviço da comunhão.
Os fiéis (sancti) são alimentados pelo Corpo e Sangue de Cristo
(sancta), para crescerem na comunhão do Espírito Santo (Koinônia)
e a comunicarem ao mundo.
I.
A comunhão dos bens espirituais
949.
Na comunidade primitiva de Jerusalém, os discípulos «eram assíduos
ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fracção do pão
e às orações» (Act 2, 42).
A
comunhão na fé. A fé dos fiéis é a fé da Igreja recebida dos
Apóstolos, tesouro de vida que se enriquece na medida em que é
partilhada.
950.
A comunhão nos sacramentos. «O fruto de todos os sacramentos
pertence a todos. Os sacramentos, e sobretudo o Baptismo, que é como
que a porta por onde os homens entram na Igreja, são outros tantos
vínculos sagrados que os unem todos e os ligam a Jesus Cristo. A
comunhão dos santos é a comunhão dos sacramentos [...];o nome de
comunhão pode aplicar-se a cada um deles, porque cada um deles nos
une a Deus [...]. Mas este nome convém mais à Eucaristia do que a
qualquer outro, porque é principalmente ela que consuma esta
comunhão» (508).
951.
A comunhão dos carismas: na comunhão da Igreja, o Espírito Santo
«distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as
ordens» para a edificação da Igreja (509). Ora, em cada um se
manifestam os dons do Espírito, para o bem comum» (1 Cor 12, 7).
952.
«Eles punham tudo em comum» (Act 4, 32): «Tudo o que o verdadeiro
cristão possui, deve olhá-lo como um bem que lhe é comum com os
demais, e deve estar sempre pronto e ser diligente para ir em socorro
do pobre e da miséria do próximo» (510). O cristão é um
administrador dos bens do Senhor (511).
953.
A comunhão da caridade: na sanctorum communio, «nenhum de nós vive
para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo» (Rm 14, 7). «Se
um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro for
honrado por alguém, todos os membros se alegram com ele. Vós sois
Corpo de Cristo e seus membros, cada um na parte que lhe diz
respeito» (1 Cor 12, 26-27). «A caridade não é interesseira» (1
Cor 13, 5) (512). O mais insignificante dos nossos actos, realizado
na caridade, reverte em proveito de todos, numa solidariedade com
todos os homens, vivos ou defuntos, que se funda na comunhão dos
santos. Pelo contrário, todo o pecado prejudica esta comunhão.
II.
A comunhão entre a Igreja do céu e a da terra
954.
Os três estados da Igreja. «Até que o Senhor venha na sua
majestade e todos os seus anjos com Ele e, vencida a morte, tudo Lhe
seja submetido, dos seus discípulos uns peregrinam na terra, outros,
passada esta vida, são purificados, e outros, finalmente, são
glorificados e contemplam "claramente Deus trino e uno, como Ele
é"» (513):
«Todos,
porém, comungamos, embora de modo e grau diversos, no mesmo amor de
Deus e do próximo, e todos entoamos ao nosso Deus o mesmo hino de
glória. Com efeito, todos os que são de Cristo e têm o seu
Espírito, formam uma só Igreja e n'Ele estão unidos uns aos
outros») (514).
955.
«E assim, de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda
caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de
Cristo: mas antes, segundo a constante fé da Igreja, essa união é
reforçada pela comunicação dos bens espirituais» (515).
956.
A intercessão dos santos. «Os bem-aventurados, estando mais
intimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na
santidade [...]. Eles não cessam de interceder a nosso favor, diante
do Pai, apresentando os méritos que na terra alcançaram, graças ao
Mediador único entre Deus e os homens, Jesus Cristo [...]. A nossa
fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua solicitude fraterna»
(516):
«Não
choreis, que eu vos serei mais útil depois da morte e vos ajudarei
mais eficazmente que durante a vida» (515).
«Quero
passar o meu céu a fazer o bem sobre a terra» (518)
957.
A comunhão com os santos. «Não é só por causa do seu exemplo que
veneramos a memória dos bem-aventurados, mas ainda mais para que a
união de toda a Igreja no Espírito aumente com o exercício da
caridade fraterna. Pois, assim como a comunhão cristã entre os
cristãos ainda peregrinos nos aproxima mais de Cristo, assim também
a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem procedem, como de
fonte e Cabeça, toda a graça e a própria vida do povo de Deus»
(519).
«A
Cristo, nós O adoramos, porque Ele é o Filho de Deus; quanto aos
mártires, nós os amamos como a discípulos e imitadores do Senhor:
e isso é justo, por causa da sua devoção incomparável para com o
seu Rei e Mestre. Assim nós possamos também ser seus companheiros e
condiscípulos!» (520).
958.
A comunhão com os defuntos. «Reconhecendo claramente esta
comunicação de todo o Corpo místico de Cristo, a Igreja dos que
ainda peregrinam venerou, com muita piedade, desde os primeiros
tempos do cristianismo, a memória dos defuntos; e, "porque é
um pensamento santo e salutar rezar pelos mortos, para que sejam
livres de seus pecados" (2 Mac 12, 46), por eles ofereceu também
sufrágios» (521). A nossa oração por eles pode não só
ajudá-los, mas também tornar mais eficaz a sua intercessão em
nosso favor.
959.
Na única família de Deus. «Todos os que somos filhos de Deus e
formamos em Cristo uma família, ao comunicarmos uns com os outros na
caridade mútua e no comum louvor da Santíssima Trindade,
correspondemos à íntima vocação da Igreja» (522).
Resumindo:
960.
A Igreja é «comunhão dos santos»: esta expressão designa, em
primeiro lugar, as «coisas santas» (sancta) e, antes de mais, a
Eucaristia, pela qual «é representada e se realiza a unidade dos
fiéis que constituem um só Corpo em Cristo» (523).
961.
Este termo também designa a comunhão das «pessoas santas»
(sancti) em Cristo, que «morreu por todos», de modo que o que cada
um faz ou sofre por Cristo e em Cristo reverte em proveito de todos.
962.
«Nós cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo: dos que
peregrinam na terra, dos defuntos que estão levando a cabo a sua
purificação e dos bem-aventurados do céu: formam todos uma só
Igreja; e cremos que, nesta comunhão, o amor misericordioso de Deus
e dos seus santos está sempre atento às nossas orações» (524).
PARÁGRAFO
6
MARIA
– MÃE DE CRISTO
MÃE
DA IGREJA
963.
Depois de termos falado do papel da Virgem Maria no mistério de
Cristo e do Espírito, é conveniente considerarmos agora o seu lugar
no mistério da Igreja. «Efectivamente, a Virgem Maria [...] é
reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor
[...]. Ao mesmo tempo, porém, é verdadeiramente "Mãe dos
membros (de Cristo) [...], porque cooperou com o seu amor para que na
Igreja nascessem os fiéis, membros daquela Cabeça"» (525).
«Maria, [...] Mãe de Cristo e Mãe da Igreja» (526).
I.
A maternidade de Maria em relação à Igreja
INTEIRAMENTE
UNIDA A SEU FILHO...
964.
O papel de Maria em relação à Igreja é inseparável da sua união
com Cristo e decorre dela directamente. «Esta associação de Maria
com o Filho na obra da salvação, manifesta-se desde a concepção
virginal de Cristo até à sua morte» (527). Mas é particularmente
manifesta na hora da sua paixão:
«A
Bem-aventurada Virgem avançou na peregrinação de fé, e manteve
fielmente a sua união como Filho até à Cruz, junto da qual esteve
de pé, não sem um desígnio divino; padeceu acerbamente com o seu
Filho único e associou-se com coração de mãe ao seu sacrifício,
consentindo amorosamente na imolação da vítima que d'Ela nascera;
e, por fim, foi dada por mãe ao discípulo pelo próprio Jesus
Cristo, agonizante na Cruz, com estas palavras: "Mulher, eis aí
o teu filho" (Jo 19, 26-27)» (528).
965.
Depois da Ascensão do seu Filho, Maria «assistiu com suas orações
aos começos da Igreja» (529). E, reunida com os Apóstolos e
algumas mulheres, vemos «Maria implorando com as suas orações o
dom daquele Espírito, que já na Anunciação a cobrira com a Sua
sombra» (530).
...
TAMBÉM NA SUA ASSUNÇÃO...
966.
«Finalmente, a Virgem Imaculada, preservada imune de toda a mancha
da culpa original, terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao
céu em corpo e alma e exaltada pelo Senhor como rainha, para assim
se conformar mais plenamente com o seu Filho, Senhor dos senhores e
vencedor do pecado e da morte» (529). A Assunção da santíssima
Virgem é uma singular participação na ressurreição do seu Filho
e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos:
«No
teu parto guardaste a virgindade e na tua dormição não abandonaste
a mundo, ó Mãe de Deus: alcançaste a fonte da vida. Tu que
concebeste o Deus vivo e que, pelas tuas orações, hás-de livrar as
nossas almas da morte» (532).
...
ELA É NOSSA MÃE NA ORDEM DA GRAÇA
967.
Pela sua plena adesão à vontade do Pai, à obra redentora do Filho
e a todas as moções do Espírito Santo, a Virgem Maria é para a
Igreja o modelo da fé e da caridade. Por isso, ela é «membro
eminente e inteiramente singular da Igreja» (533) e constitui mesmo
«a realização exemplar»,o typus, da Igreja (534).
968.
Mas o seu papel em relação à Igreja e a toda a humanidade vai
ainda mais longe. Ela «cooperou de modo inteiramente singular, com a
sua fé, a sua esperança e a sua ardente caridade, na obra do
Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É, por essa
razão, nossa Mãe, na ordem da graça» (535).
969.
«Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem
interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação
e que manteve inabalável junto da Cruz, até à consumação
perpétua de todos os eleitos. De facto, depois de elevada ao céu,
não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme
intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna
[...]. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de
advogada, auxiliadora, socorro e medianeira» (536).
970.
«Mas a função maternal de Maria para com os homens, de modo algum
ofusca ou diminui a mediação única de Cristo, mas antes manifesta
a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salutar da Virgem
santíssima [...] deriva da abundância dos méritos de Cristo,
funda-se na sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí
toda a sua eficácia» (537). «Efectivamente, nenhuma criatura pode
ser equiparada ao Verbo Encarnado e Redentor; mas, assim como o
sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos
ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma
só, se difunde variamente pelos seres criados, assim também a
mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas
criaturas, uma cooperação variada, que participa dessa fonte única»
(538).
II.
O culto à Santíssima Virgem
971.
«Todas as gerações me hão-de proclamar ditosa» (Lc 1, 48): «a
piedade da Igreja para com a santíssima Virgem pertence à própria
natureza do culto cristão» (539). A santíssima Virgem «é com
razão venerada pela Igreja com um culto especial. E, na verdade, a
santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o
título de "Mãe de Deus", e sob a sua protecção se
acolhem os fiéis implorando-a em todos os perigos e necessidades
[...]. Este culto [...], embora inteiramente singular, difere
essencialmente do culto de adoração que se presta por igual ao
Verbo Encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o
poderosamente» (540). Encontra a sua expressão nas festas
litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus (541) e na oração mariana,
como o santo rosário, «resumo de todo o Evangelho» (542).
III.
Maria - ícone escatológico da Igreja
972.
Depois de termos falado da Igreja, da sua origem, missão e destino,
não poderíamos terminar melhor do que voltando a olhar para Maria,
a fim de contemplar nela o que a Igreja é no seu mistério, na sua
«peregrinação da fé», e o que será na pátria ao terminar a sua
caminhada, onde a espera, na «glória da santíssima e indivisa
Trindade» e «na comunhão de todos os santos» (543), Aquela que a
mesma Igreja venera como Mãe do seu Senhor e como sua própria Mãe:
«Assim
como, glorificada já em corpo e alma, a Mãe de Jesus é imagem e
início da igreja que se há-de consumar no século futuro, assim
também, brilha na terra como sinal de esperança segura e de
consolação, para o povo de Deus ainda peregrino» (544).
Resumindo:
973.
Ao pronunciar o «Fiat» da Anunciação e dando o seu consentimento
ao mistério da Encarnação, Maria colabora desde logo com toda a
obra a realizar por seu Filho. Ela é Mãe, onde quer que Ele seja
Salvador e Cabeça do Corpo Místico.
974.
Terminado o curso da sua vida terrena, a santíssima Virgem Maria foi
elevada em corpo e alma para a glória do céu, onde participa já na
glória da ressurreição do seu Filho, antecipando a ressurreição
de todos os membros do Seu Corpo.
975.
«Nós cremos que a santíssima Mãe de Deus, a nova Eva, a Mãe da
Igreja, continua a desempenhar no céu o seu papel maternal para com
os membros de Cristo» (545).
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