UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
INSTITUTO DE BIOLOGIA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
Estudo etnográfico acerca das artes de pesca na comunidade de Conceição de Salinas- BA e os conhecimentos biológicos e ecológicos associados
por
TAINÁ EVELYN MALTA BARBOSA
Trabalho de Conclusão do Curso
apresentado ao Instituto de Biologia
da Universidade Federal da Bahia
como exigência para obtenção do
grau de Bacharel em Ciências
Biológicas.
Salvador, BA
(2026)
1UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
INSTITUTO DE BIOLOGIA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
Estudo etnográfico acerca das artes de pesca na comunidade de
Conceição de Salinas- BA e os conhecimentos biológicos e ecológicos
associados
por
TAINÁ EVELYN MALTA BARBOSA
Trabalho de Conclusão do Curso
apresentado ao Instituto de Biologia da
Universidade Federal da Bahia como
exigência para obtenção do grau de
Bacharel em Ciências Biológicas.
Orientador: Prof. Dr. Charbel Niño El-Hani
Coorientadora: MsC. Tamissa Gabrielle Godoi
Salvador, BA
(2026)PÁGINA DE AVALIAÇÃO DA BANCA EXAMINADORA
Data da defesa: 03 de julho de 2026
Banca Examinadora
___________________________________________________________
Prof. Dr. Charbel Niño El-Hani
Instituto de Biologia – UFBA
______________________________________________________________
Juliana de Oliveira Fonseca
Instituto de Biologia – UFBA
______________________________________________________________
Prof. Dr. Gabriel Barros
Instituto de Biologia – UFBARESUMO
Este trabalho consiste em um estudo etnográfico realizado na comunidade
quilombola de Conceição de Salinas, Bahia, com o objetivo de investigar as artes de
pesca e os conhecimentos biológicos e ecológicos dos pescadores e marisqueiras.
A pesquisa buscou compreender como esses saberes tradicionais baseiam as
práticas produtivas e a relação da comunidade com o ambiente marinho. Para isso,
utilizou-se uma metodologia qualitativa baseada na observação participante e na
realização de entrevistas semiestruturadas com 15 especialistas tradicionais, cujas
idades variaram entre 31 e 75 anos. Os resultados demonstraram a existência de
um complexo sistema de conhecimento ecológico local, evidenciado por uma
etnotaxonomia detalhada que classifica espécies por cores, tamanhos e formatos. O
estudo destacou a importância central do peixe "xangó" nas teias alimentares e
como isca principal para a captura de espécies maiores, como o robalo e a pescada.
Além disso, foi observado como os ciclos de maré, a influência da lua e a
sazonalidade ditam a escolha das diversas artes de pesca, como redes, gaiolas e
gruzeiras. Por fim, a análise revelou que, apesar da riqueza desses saberes, a
comunidade enfrenta desafios como o desaparecimento e a diminuição de diversas
espécies de pescados e o crescente desinteresse juvenil pela continuidade da pesca
artesanal.
4ABSTRACT
This research consists of an ethnographic study conducted in the Quilombola
community of Conceição de Salinas, Bahia, with the objective of investigating fishing
gear and the biological and ecological knowledge of fishermen and shellfish
gatherers. The research sought to understand how this traditional knowledge
underpins productive practices and the community's relationship with the marine
environment. To this end, a qualitative methodology was employed, based on
participant observation and semi-structured interviews with 15 traditional experts,
whose ages ranged from 31 to 75 years. The results demonstrated the existence of a
complex
system
of local ecological knowledge, evidenced by a detailed
ethnotaxonomy that classifies species according to color, size, and shape. The study
highlighted the central importance of the "xangó" fish in food webs and as the primary
bait for capturing larger species, such as snook and whiting. In addition, it was
observed how tidal cycles, lunar influence, and seasonality dictate the choice of
various fishing methods, including nets, cages, and gruzeiras. Finally, the analysis
revealed that, despite the richness of this knowledge, the community faces
challenges such as the disappearance and decline of several fish species and the
growing disinterest among younger generations in continuing artisanal fishing.
5AGRADECIMENTOS
Nessa seção de trabalho de curso, expressei meu amor e gratidão a todos aqueles
que foram essenciais para que eu chegasse até aqui.
Inicialmente eu quero agradecer àquele que nunca me desamparou: Deus. A ele que
nunca me deixou desistir de mim e me deu forças para que eu conseguisse concluir
essa fase tão importante da minha vida.
Agradeço profundamente aos meus pais, Carla e Márcio, que me deram todo o
suporte para que eu conseguisse seguir o meu sonho, muitas vezes se anulando
para que eu pudesse ter até mais do que eu precisava. Obrigada por não me
deixarem desistir, por me apoiarem em cada decisão e por sempre dizerem o quanto
acreditam em mim. Eu amo vocês e espero conseguir os recompensar por tudo o
que fizeram por mim.
Agradeço também ao meu irmão por ser um companheiro de risadas, futebol e
vídeos no YouTube. Te amo e espero que eu consiga sempre te dar todo apoio que
você merece.
Agradeço ao meu namorado, o meu amor. Aquele que aturou de perto cada
desespero, choro e medo, quem me deu colo e sempre disse que iria ficar tudo bem
e que eu conseguiria. Você, que além de apoio emocional, foi quem me ajudou nas
etapas da escrita, me auxiliando sempre que eu precisei. Eu definitivamente não
conseguiria sem você, Danilo, muito obrigada por tudo.
Agradeço às amigas que eu tive o prazer de conhecer durante o caminho da vida,
em especial: Agatha Carvalho, Carolina Paranhos e Letícia Lima por serem minha
família desde a escola, por sempre confiarem e acreditarem em mim e serem meu
Porto Seguro; Brenda Pita, Riane Maurício e Luana Monteiro por vivenciarem
comigo o caos que é a universidade, por me amarem, me apoiarem e me ajudarem
dentro e fora da UFBA. Eu amo cada uma de vocês e nunca vou conseguir
expressar o quanto sou grata por tê-las na minha vida.
Aos amigos que a UFBA me deu de forma direta ou indireta: Albert Gomes, Emile
Mauricio e Lucas Santos por serem parceiros não apenas no riso mas,
principalmente, nas dificuldades. Amo muito vocês.
6À toda a minha família, em especial: as minhas primas Deise Malta, Carol Malta e
Beatriz Malta por serem abrigo nos dias difíceis e por cada apoio, seja revisando
meus textos ou me mandando mensagens de incentivo; a minha avó e a minha
madrinha por todo amor e apoio. Obrigada, eu amo vocês.
Agradeço ao meu orientador, Charbel El-Hani, por todo auxílio com este estudo.
Agradeço também a minha co-orientadora, Tamissa Godoi, por ser minha mãe e
amiga nesta pesquisa, por todo cuidado e carinho me cedendo até os seus fins de
semana inegociáveis. Agradeço também a Taiala Menezes pelas explicações sobre
codificação e por se disponibilizar para tirar minhas dúvidas.
Por fim, agradeço à Universidade Federal da Bahia e ao Instituto de Biologia por ser
a minha casa por quase seis anos.
7SUMÁRIO
RESUMO
ABSTRACT
AGRADECIMENTOS
SUMÁRIO................................................................................................................................(i)
ÍNDICE DE FIGURAS............................................................................................................ (ii)
1. INTRODUÇÃO......................................................................................................................1
2. OBJETIVOS......................................................................................................................... 3
2.1 Objetivo Geral............................................................................................................... 3
2.2 Objetivos Específicos....................................................................................................3
3. METODOLOGIA................................................................................................................... 4
3.1 Observação Participante...............................................................................................4
3.2 Entrevistas Semi-Estruturadas......................................................................................5
3.3 Análises de Dados........................................................................................................ 7
3.4 Aspectos Éticos da Pesquisa........................................................................................8
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO............................................................................................ 8
4.1 Conhecimento Ecológico Local.....................................................................................9
4.1.1 Etnotaxonomia................................................................................................... 10
4.1.1.1 Diferenciação de espécies........................................................................ 10
4.1.2 Bioecologia......................................................................................................... 11
4.1.2.1 Relações tróficas....................................................................................... 11
4.1.2.2 Reprodução e defeso................................................................................ 12
4.1.3 Dinâmica ambiental............................................................................................12
4.1.3.1 Ciclos de maré e lua..................................................................................13
4.1.3.2 Sazonalidade.............................................................................................14
4.1.4 Mudanças e vulnerabilidade.............................................................................. 14
4.1.4.1 Sumiço e diminuição de espécies............................................................. 15
4.1.4.2 Eventos extremos......................................................................................16
4.2 Práticas de pesca....................................................................................................... 16
4.2.1 Artes de pesca................................................................................................... 17
4.2.1.1 Diversidade das artes................................................................................17
4.2.1.2 Manutenção e Vida Útil............................................................................. 17
4.2.1.3 Cadeia de Venda.......................................................................................18
4.2.1.4 Qualidade do Material............................................................................... 19
4.2.1.5 Conservação............................................................................................. 19
4.2.1.6 Riscos........................................................................................................20
4.2.2 Navegação......................................................................................................... 21
4.2.2.1 Marcação de pontos..................................................................................21
4.3 Dimensões sociais...................................................................................................... 22
4.3.1 Gênero e continuidade.......................................................................................22
4.3.1.1 Divisão de papéis...................................................................................... 22
4.3.1.2 Transmissão de saberes........................................................................... 23
4.3.1.3 Desinteresse Juvenil................................................................................. 23
85. CONCLUSÃO.....................................................................................................................24
6. REFERÊNCIAS.................................................................................................................. 25
APÊNDICES........................................................................................................................... 28
9ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1. As imagens são referentes às atividades durante a observação
participante. (A), (B), (C) e (D) estão relacionadas às reuniões do trabalho de
Tamissa, sendo (A) e (C) na associação de pescadores, (B) no porto, (D) na casa de
Dona Zezé. As imagens (E) e (F) relacionadas à limpeza do manguezal.
Figura 2. Imagens retiradas por Tamissa Godoi, foto reproduzida com autorização
da autora. As imagens são das entrevistas com os(as) pescadores(as).
101. INTRODUÇÃO
A etnobiologia é a área da ciência que estuda as relações entre povos ou
comunidades e os ambientes em que vivem, e os conhecimentos biológicos
envolvidos em tais relações. De maneira relacionada, a etnoecologia foca sua
atenção sobre os conhecimentos ecológicos e seu envolvimento nas relações de
povos ou comunidades com seus ambientes. Ela aproxima
conhecimentos
tradicionais e acadêmicos, buscando entender as variadas maneiras pelas quais
diferentes povos e comunidades constroem seus próprios conhecimentos e o
utilizam em práticas que as relacionam com os ambientes em que vivem.
(Albuquerque & Alves, 2016). É uma área que se debruça sobre os conhecimentos
de diferentes comunidades, sejam elas indígenas, quilombolas, pesqueiras ou
qualquer outro tipo de comunidade tradicional, colocando-os em relação com os
conhecimentos acadêmicos, podendo contribuir, assim, para a conservação da
biodiversidade, o entendimento de diferentes modos de relação humano-natureza, a
valorização de outros sistemas de conhecimento e dos modos de vida e produção
cultural e socioeconômica de comunidades tradicionais e etc (Albuquerque & Alves,
2016).
Nesse sentido, o conhecimento dos povos e comunidades tradicionais é a
soma dos saberes acerca do mundo e do saber fazer transmitidos através de muitas
gerações (Diegues, 2000). Nesse sentido, Wagner e Da Silva (2020) afirmam que
O conhecimento tradicional pode ser caracterizado como uma habilidade
repassada através da reprodução da experiência, da observação dos mais
velhos e, principalmente, através da oralidade nos ambientes de
sociabilidade.
Entre as comunidades tradicionais, temos as comunidades pesqueiras
artesanais, que se adequam à compreensão de comunidades tradicionais expressa
na Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades
Tradicionais (Decreto 6.040 de 07 de fevereiro de 2007):
Grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que
possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam
territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural,
social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos,
inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição.
11O litoral baiano apresenta uma diversidade de comunidades pesqueiras
artesanais, que constroem seus modos de vida em relação a diferentes ambientes:
recifes, ambientes estuarinos, manguezais e outros ecossistemas costeiros, que
favorecem a realização de atividades pesqueiras na região (Pacheco, 2006). No
Estado
da
Bahia,
a
pesca
é
majoritariamente
artesanal
(Bahia,
2026),
compreendendo duas formas de atividade pesqueira, a pesca (para captura de
peixes e eventualmente crustáceos) e a mariscagem (para captura de moluscos
bivalves e outros moluscos, caranguejos/siris e outros crustáceos) (Pacheco, 2006).
Em geral, a primeira atividade utiliza instrumentos que auxiliam a captura dos
organismos (redes, varas etc.), enquanto a segunda envolve tanto a coleta manual
quanto o uso de instrumentos (armadilhas, varas etc.). As duas atividades são
consideradas igualmente importantes em termos socioeconômicos e isso é
perceptível em trabalhos como o de Reis-Filho et al. (2025), onde se torna evidente
que a rentabilidade das mulheres (maiores responsáveis pela mariscagem)
geralmente é maior, quando avaliado as capturas.
Por meio dos conhecimentos que fazem parte das culturas pesqueiras,
pescadores e marisqueiras compreendam os organismos e ambientes com os quais
interagem de uma maneira que fundamenta seus modos de produção. Nesse
sentido, é necessário entender que a pesca ultrapassa a dimensão econômica e não
se configura só como uma
fonte de renda para grande parte das populações
pesqueiras. Ela se apresenta, sobretudo, como um meio de uma forma de
identidade e uma herança cultural viva (Bandeira & Brito, 2011).
Pescadores e marisqueiras utilizam em suas atividades de pesca e
mariscagem embarcações, artefatos e utensílios designados de maneira geral como
“artes de pesca” (Pinto, Mourão & Alves, 2021). Em comunidades pesqueiras
artesanais, essas artes são partes importantes do processo de construção e uso de
conhecimentos, bem como tornam possível compreender esses conhecimentos e
como eles são utilizados na captura de peixes e mariscos (Moraes, 2011). Nesse
sentido, tais comunidades têm grande importância na manutenção dos saberes
culturais vinculados ao modo de vida costeiro.
A comunidade pesqueira e quilombola de Conceição de Salinas é uma das
principais comunidades pesqueiras da Baía de Todos os Santos, no estado da
12Bahia, na qual a pesca artesanal constitui a base da cultura local, das formas de
organização social e da identidade dos moradores.
A comunidade obteve sua
certidão quilombola a partir de solicitação feita em 2015 pela Associação de
Pescadores/as Artesanais e Quilombolas de Conceição de Salinas.
De acordo com o Censo de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatísticas (IBGE), o município de Salinas das Margaridas, no qual o
Quilombo de Conceição está situado, tem uma população de cerca de 15.000
habitantes e inclui também os distritos de Cairu, Dendê e Encarnação. A
Comunidade de Conceição se autodefine como uma comunidade tradicional que tem
como base cultural e econômica a pesca e mariscagem artesanal. Nela existem
1.405 famílias cadastradas como quilombolas no Cadastro Único, visto que, no
momento apenas Conceição é uma comunidade certificada e reconhecida no
município.Deste modo, diante da importância dos conhecimentos tradicionais
relacionados à pesca artesanal e da relevância de entender como acontece a
produção e transmissão desses saberes no dia a dia da comunidade, o presente
Trabalho de Conclusão de Curso teve como objetivo realizar um estudo etnográfico
da diversidade de artes de pesca e dos conhecimentos biológicos e ecológicos
utilizados por pescadores e marisqueiras da comunidade de Conceição de Salinas.
2. OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Esse estudo tem como objetivo realizar uma etnografia das artes de pesca
utilizadas pela comunidade pesqueira artesanal de Conceição de Salinas, município
de Salinas das Margaridas, Bahia, Brasil, incluindo os conhecimentos biológicos e
ecológicos associados.
2.2 Objetivos Específicos
● Realizar uma etnografia das artes de pesca da comunidade;
● Investigar os conhecimentos dos pescadores e marisqueiras sobre a
diversidade de pescados encontrados na comunidade;
●
Compreender os conhecimentos ecológicos e biológicos associados às
artes de pesca.
133. METODOLOGIA
Para a realização deste trabalho, foram usadas metodologias vindas
originalmente das ciências humanas, dada a natureza inter e transdisciplinar do
trabalho. Se tratando de etnografía, Spradley (1979) a define como o trabalho de
descrever uma cultura, com o objetivo de compreender o modo como outras
pessoas vivem e aprender com essas pessoas. Como estratégias metodológicas
foram utilizadase a observação participante, tanto de atividades da comunidade
quanto de reuniões colaborativas da equipe de pesquisa com pescadores e
marisqueiras, além de entrevistas semi-estruturadas. Ao longo do processo de
coleta de dados, foram feitas anotações no caderno de campo, como meio de
registro de dados, observações e reflexões da pesquisadora. Optou-se por não
começar as entrevistas em 2025, para possibilitar uma aproximação significativa
com a comunidade, visando criar laços de confiança e conhecimento mútuo, antes
de iniciar a coleta de dados propriamente dita.
3.1 Observação Participante
Antes da realização do estudo, foi iniciado uma aproximação com a
comunidade, através de visitas que começaram em agosto de 2025, acompanhada
da minha co-orientadora, doutoranda (UFBA) que também atua na comunidade, e de
uma mestranda em antropologia (USP) que está investigando as práticas
transdisciplinares do projeto. Durante o ano de 2025, foram feitas duas visitas com o
objetivo de aproximar-se da comunidade e começar a entender suas atividades,
conhecer as lideranças e alguns pescadores e marisqueiras, e participar de
atividades, como as de limpeza do manguezal (Figura 1, imagem (E) e (F)), e de
reuniões colaborativas do projeto no qual o estudo se insere, com participação de
membros da comunidade (Figura 1, imagem (A), (B), (C) e (D)). Todas essas
atividades possibilitaram uma aproximação significativa com os membros da
comunidade, o que levou a uma abertura maior e fortaleceu laços de confiança para
a continuidade da pesquisa.
14Figura 1. (A), (B) e (D) Imagens retiradas por Nataline, foto reproduzida com
autorização da autora.
(C) imagem de própria autoria. (E) e (F) imagens
retiradas por autor desconhecido. As imagens são referentes a observação
participante, sendo (A), (B), (C) e (D) relacionadas às reuniões do trabalho de
Tamissa e (E) e (F) relacionadas à limpeza do manguezal.
3.2 Entrevistas Semi-Estruturadas
Durante esse período foi possível adaptar os roteiros de entrevistas, os quais
foram construídos e testados pela equipe de pesquisa em estudos em outras duas
15comunidades (Siribinha e Poças, no litoral norte da Bahia) e foram adaptados para a
realidade de Conceição, visando uma uma conexão melhor com o meu trabalho.
Sendo assim, depois de fazer análises, algumas perguntas foram mudadas e outras
retiradas já que estas não estavam relacionadas com o meu objetivo de pesquisa
(como por exemplo, com o que os entrevistados usavam o dinheiro da pesca).
Em Fevereiro de 2026, foi iniciada a coleta de dados por meio de entrevistas
semi-estruturadas, o que possibilitou diálogos mais abertos e profundos, mesmo
tendo sido usado um roteiro prévio com tópicos a serem abordados em cada
entrevista. As entrevistas seguiram as recomendações técnicas e éticas fornecidas
por Bunce, Townsley e Pollnac (2000) sobre métodos de entrevistas respeitosas e
minimamente invasivas. Em conjunto com a confiança firmada entre pesquisadores
e pescadores/marisqueiras, essas características das entrevistas contribuíram para
práticas eticamente apropriadas durante a coleta de dados, bem como para a
qualidade dos próprios dados, que depende da natureza e qualidade das relações
estabelecidas.
A maior parte das entrevistas foram realizadas no porto e na praia de
Conceição (Figura 2, imagem (B) (C), (E) e (F)), com o propósito de minimizar a
interferência nas rotinas dos pescadores e das marisqueiras. Porém, algumas foram
realizadas em suas próprias casas ou estabelecimentos (Figura 2, imagem (A) e
(D)), onde a pesquisadora ia acompanhada por lideranças da comunidade. A maior
parte das entrevistas aconteceu durante o dia (manhã ou tarde), quando os
pescadores estavam em suas casas, em seus estabelecimentos comerciais, na
praia ou no porto chegando de suas pescarias, mariscando ou
fazendo as
manutenções das suas redes. Os entrevistados foram indicados por membros da
comunidade, principalmente as lideranças e outros pescadores e marisqueiras.
Os registros das entrevistas foram feitos por meio de gravações de áudio,
com o consentimento dos participantes. Isso permitiu que eu pudesse manter minha
atenção no que estava sendo expresso pelos participantes, já que fazer anotações
no caderno de campo não permitiria esse foco.
16Figura 2. Imagens retiradas por Tamissa Godoi, foto reproduzida com
autorização da autora. As imagens são das entrevistas com os(as)
pescadores(as).
3.3 Análises de Dados
Após a realização das
entrevistas,
elas passaram por um processo de
transcrição (transformadas em texto). No total foram entrevistados 15 especialistas
tradicionais, sendo 12 pescadores (11 homens e 1 mulher) e 3 marisqueiras e as
17idades dos participantes variaram entre 31 e 75 anos. Com o término desta primeira
etapa, segui para o processo de codificação das entrevistas. As codificações foram
feitas de maneira indutiva, ou seja, os códigos foram obtidos a partir dos dados, sem
uso de categorias a priori. Foram utilizadas as anotações do diário de campo e
fotografias tiradas na comunidade como suporte para a análise dos dados. Nas
etapas seguintes foi utilizado o Manual de Codificação apresentado por Saldaña
(2013). A estrutura de análise segue uma lógica crescente: os códigos (dados
específicos) são agrupados em categorias (conceitos), que por sua vez compõem os
temas (grandes eixos de sentido) e essa hierarquia facilita a interpretação dos
resultados, garantindo que os achados apresentados estejam diretamente baseados
nas evidências coletadas na comunidade de Conceição. Com base nessa análise,
foram gerados códigos, categorias e temas que permitiram a interpretação dos
dados.
3.4 Aspectos Éticos da Pesquisa
O presente estudo se situa em projeto aprovado pelo Comitê de Ética em
Pesquisa da Faculdade de Educação da UFBA (CAAE - n. 93662025.4.0000.0348),
intitulado
“Comunidades
pesqueiras
artesanais
e
conhecimento
pesqueiro:
processos participativos como caminho para melhores práticas de gestão e
conservação ambiental”, tendo como pesquisadora responsável Tamissa Gabrielle
Godoi.
Todos os participantes das entrevistas e das outras etapas da pesquisa
consentiram seus registros de fotografias e áudios através de termos de
consentimento livre e esclarecido (TCLE). O consentimento foi informado e coletado
através da leitura do termo e gravação de cada participante, visto que grande parte
dos participantes possuem pouco estudo e letramento. Sendo assim, foi considerado
que essa forma de consentimento é mais adequada ao público, evitando
constrangimentos ou quebras de confiança que um termo escrito que deveria ser
lido pelo participante poderia causar.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da análise dos transcritos, foram encontrados três temas na análise
dos dados: (1) conhecimento ecológico local, (2) tecnologias e práticas de pesca e
18(3) dimensões sociais e econômicas. No tema “conhecimento ecológico local”, foram
obtidas as categorias Etnotaxonomia (com o código diferenciação de espécies),
Bioecologia (com os códigos Relações tróficas e Reprodução e Defeso), Dinâmica
Ambiental (com os códigos ciclos de maré e lua e Sazonalidade) e Mudanças e
Vulnerabilidades (com os códigos Sumiço e diminuição de espécies e Eventos
extremos). O tema “tecnologias e práticas de pesca”, por sua vez, abrange as
categorias Artes de Pesca (com os códigos Diversidade das artes, Manutenção e
Vida Útil, Cadeia de Venda,
Qualidade do Material, Conservação e Riscos) e
Navegação (com o código Marcação de pontos). Por fim, no tema “dimensões
sociais e econômicas” está incluída a categoria Gênero e continuidade (que inclui os
códigos Divisão de papéis, Transmissão de saberes e Desinteresse juvenil). A partir
disso, os resultados das análises e a discussão estão melhor detalhados por temas,
categorias e códigos nos tópicos abaixo.
4.1 Conhecimento Ecológico Local
O primeiro tema que surgiu na análise diz respeito aos conhecimentos
biológicos, ecológicos e ambientais construídos nas experiências práticas dos
pescadores e das marisqueiras, e transmitidos de geração a geração, que são parte
do conhecimento pesqueiro artesanal. Ele diz respeito à maneira como os
pescadores classificam os seres vivos, diferenciam as espécies, e compreendem os
ciclos da natureza e as cadeias e teias tróficas que incluem peixes e mariscos.
Foram identificadas três categorias: etnotaxonomia, bioecologia e dinâmica
ambiental. Os achados do estudo compreendem que o pescador não só captura o
peixe mas possui um sistema de classificação detalhado, distinguindo espécies por
caracteres morfológicos, compreendendo como espécies servem de isca para
predadores maiores e explicando como fatores ambientais que ele é capaz de
interpretar se relacionam ao sucesso das atividades pesqueiras. Os resultados
encontrados nesta pesquisa revelam que a comunidade pesqueira de Conceição de
Salinas detêm conhecimentos biológicos e ecológicos que reforçam o significado de
conhecimento tradicional, no sentido discutido por Diegues (2004), consiste num
conjunto de saberes sobre as relações dos seres vivos entre si e com o ambiente
em que vivem. É este saber que garante a continuidade do modo de vida de
comunidades pesqueiras.
194.1.1 Etnotaxonomia
Nesta categoria está incluído apenas o código Diferenciação de Espécies e
nele estão os critérios usados pelos entrevistados para fazer a distinção das
espécies.
4.1.1.1 Diferenciação de espécies
Este código se refere aos achados do estudo que mostram que os
pescadores diferenciam espécies diferentes de peixes pela cor (cor da carne das
pescadas: amarela ou branca), formato do olho (olho preto ou olho de fogo das
tainhas), diferenciam também os tipos de camarão e percebem variações dentro de
uma mesma família (como os três tipos de robalo: roliço, canguçu e peba que se
diferenciam pelo tamanho e cor das escamas). A capacidade dos pescadores de
reconhecer e diferenciar as espécies de pescados a partir de caracteres
morfológicos, incluindo cores, tamanhos, formatos de diferentes estruturas, bem
como outras características, está de acordo com o que se encontra descrito na
literatura que trata de Etnotaxonomia. Berlin (1992), por exemplo, afirma que
sistemas tradicionais de conhecimento apresentam classificações com diferentes
níveis hierárquicos, organizados em até seis níveis, sendo o nível genérico o mais
numerosos e ricos em nomes já que é nele que o ser humano identifica mais
facilmente as diferenças morfológicas. No caso de Conceição de Salinas, as
diferenças subjacentes à identificação de peixes que os pescadores atribuem a uma
mesma família, como no caso da menção a diferentes tipos de robalo, indica que o
contato frequente com esses animais gera um reconhecimento de sua diversidade, a
partir de várias características que apoiam sua diferenciação taxonômica local.
Foi possível observar, ainda, que os conhecimentos acerca desse tema não
constituem necessariamente consensos, mas circulam de maneira variada na
comunidade, como pôde ser concluído a partir da diversidade de respostas para as
mesmas perguntas, como quando o entrevistado P9 afirma que existe apenas um
tipo de robalo e o participante P4 informa que existem três tipos de robalo. Essa
diferenciação nas respostas reforça um cuidado metodológico discutido por Renck
et al. (2025), o de não assumir que o conhecimento nas comunidades é distribuído
de forma homogênea, de tal forma que se parta do pressuposto de que existiria um
20conhecimento da comunidade. À luz da heterogeneidade dos conhecimentos, a
depender da idade, do gênero e da experiência de cada pescador, se houver
consensos, estes devem surgir a partir dos dados, em vez de serem assumidos
como premissas de um
estudo etnobiológico. Como exemplo de unidades de
registro nas entrevistas interpretadas conforme esse código, podemos citar:
[...] A arraia tem de vários tipos: tem a de duas cabeças, tem a arraia branca,
tem a rabo de fita, tem o pintado, a manteiga... O pintado ele tem umas
pintas pretas nas costas, a duas cabeças tem um desenho na cabeça que a
gente diz que é duas cabeças e rabo de fita ela é meio robusta assim... tem
a jamanta também que tem dois chifres, ali é boi do mar, muito forte [...] (P10,
maio de 2026)
[...] Existem vários tipos, várias espécies...o sabor deles é quase o mesmo, a
cor... mas tem uns que é diferente do outro, tem um que chama xangó tauba
tem um que chama xangó listrado, quase a pititinga. [...] (P11, maio de 2026)
4.1.2 Bioecologia
A categoria Bioecologia inclui os códigos Relações tróficas e Reprodução e
Defeso. Aqui estão englobados os saberes dos especialistas tradicionais sobre
conhecimentos ecológicos, por exemplo, sobre o que os peixes comem e quais são
seus predadores (relações tróficas). A partir das entrevistas, ficou perceptível que o
xangó é uma das peças principais na dinâmica de pesca da comunidade, já que sua
presença atrai peixes maiores como o robalo, a pescada e o xaréu. Além disso, é
muito utilizado como isca em várias artes de pesca presentes na comunidade, sendo
citado pela grande maioria dos entrevistados. Os achados sobre as relações tróficas
envolvendo peixes mostram que os pescadores têm conhecimentos ecológicos
sobre cadeias e teias alimentares, os quais são utilizados em suas práticas de
pesca.
Outro achado importante diz respeito
ao período de defeso de espécies
como as de camarões e robalos. O conhecimento sobre esses períodos reprodutivos
é difundido na comunidade, ou seja, é um saber passado intergeracionalmente,
mesmo que varie de forma não consensual entre pescadores e marisqueiras.
4.1.2.1 Relações tróficas
O código relações tróficas diz respeito às percepções dos pescadores acerca
das relações alimentares que existem entre as espécies. Os pescadores
entrevistados descrevem quais indivíduos servem de alimento para determinados
21peixes e quais são os predadores naturais destes. Os relatos de desaparecimento
do xangó, por exemplo, exemplificam essa observação, já que os entrevistados
relacionam diretamente a ausência desse peixe (usado como isca) com a diminuição
de peixes maiores.
[...] qualquer peixe miúdo que ela [pescada branca] vê na frente, se não tiver,
ela vai comer uma carapeba, mas a prioridade dela é o xangó, massambê ela
come assim mas se o xangó tiver sumido ela vai ter que comer alguma coisa
pra não ficar com fome, mas se tiver xangó... ela come camarão, ela gosta
do camarão. [...] (P01, maio de 2026)
4.1.2.2 Reprodução e defeso
Esse código inclui os saberes relacionados aos períodos de reprodução, à
desova, à presença de filhotes e aos períodos de defeso. De acordo com a
legislação federal (MMA/Brasil, 2004), a Bahia está entre os estados nordestinos em
que ocorre o defeso do camarão. Os especialistas tradicionais mostram seus
conhecimentos acerca dos momentos ecológicos importantes na comunidade, como
o período em que os animais não podem ser pegos (defeso), fazendo ajustes das
suas artes e práticas de pesca para respeitar esses períodos, já que além de parar
de capturar os pescados que estão no defeso, os pescadores utilizam artes
diferentes para manterem seus ganhos e evitarem prejuízos futuros. Mesmo quem
não trabalha com artes que capturam pescados que possuem épocas de defeso
(como o camarão e o robalo) conhece as datas de início e fim do período e a sua
importância.
[...] O robalo desova e ganha o manguezal, desova e se manda...Tem a
proibição, que é o defeso, mês de junho. [...] (P04, abril de 2026)
[...] Tem o robalo, o robalo aqui a gente não pega o defeso, que era pra a
gente aqui pegar, porque a gente aqui depende da pesca do robalo, e só
pega aqui o defeso do camarão. [...] (P07, maio de 2026)
4.1.3 Dinâmica ambiental
A dinâmica ambiental em Conceição de Salinas, conforme relatado nas
entrevistas, inclui processos causais complexos, que englobam ciclos de maré,
características meteorológicas e sazonalidade, ditando o funcionamento da pesca e
da mariscagem, e a produtividade pesqueira da região. Os saberes acerca desses
temas permitem que pescadores e marisqueiras identifiquem previamente as
condições mais favoráveis para suas práticas produtivas. Como discute Diegues
22(2004), esse conhecimento permite que o pescador tome decisões sobre a pesca
baseadas em avaliações sobre fatores ambientais. O saber sobre variáveis como,
por exemplo, a relação entre a posição da lua e as marés, contribui para o sucesso
da captura dos pescados, sendo este saber uma das características mais
importantes de um bom pescador.
Tratando-se de sazonalidade, os achados do presente trabalho estão de
acordo com o que mostrou Bandeira (2009), que relata que estações como inverno,
verão e primavera são distintas no que tange à produtividade, por razões que
incluem não apenas a disponibilidade de pescados, mas também fatores como a
chuva, o vento etc. Além disso, este autor também afirma que, durante o inverno, há
uma desvalorização dos mariscos e peixes na Baía de Todos os Santos, o que
também foi evidenciado nas entrevistas.
4.1.3.1 Ciclos de maré e lua
Os pescadores mostram um grande conhecimento sobre a influência da lua
sobre os ciclos de maré, utilizando esses saberes em suas atividades diárias.
Durante as entrevistas, os pescadores afirmaram que a “maré de escuro” (lua nova)
é significativamente melhor para a captura de peixes do que a “maré de lua” (lua
cheia), na qual a produtividade geralmente é mais fraca. Além disso, o ciclo de maré
(baixa ou alta) também define as possibilidades de mariscagem e qual arte de pesca
será utilizada, visto que a maioria dos pescadores usam mais de uma arte de pesca.
[...] Por exemplo, a maré passada os meninos que foram pescar robalo,
panharam muito robalo, ai essa maré panha dois, panha um e aí vai
compensando, até chegar a próxima maré porque assim, essa maré de lua
ela é mais fraca para peixe, né? a maré de escuro dá mais, a maré de escuro
sempre é melhor para peixe do que a maré de lua. [...] ( P01, fevereiro de
2026)
[...] Não dá para pegar marisco quando é maré pequena, essas maré
pequena que não vai na praia, Aí quando passa de lua a maré vai abrindo,
como ela agora tá abrindo como amanhã que é lua, aí ela Vai secando um
pouquinho e fica melhor pra gente pegar [...] (M01, maio de 2026)
Os pescadores relataram no decorrer da pesquisa que esses ciclos estão se
tornando mais imprevisíveis. Alguns afirmam que a maré está “confusa”, o que
dificulta a distinção entre as marés:
[...] É igual a maré hoje, ninguém sabe mais quando é maré de lua ou quando é maré
que não é lua, porque tá tudo assim confuso agora[...] ( M02, fevereiro de 2026)
234.1.3.2 Sazonalidade
Nos trechos incluídos nesse código, é possível compreender as relações
entre estações
e práticas e produtividade pesqueiras. Nas conversas com os
pescadores, eles afirmaram de modo praticamente unânime que o verão é a época
preferida para a maioria das artes de pesca, por conta do sol e da facilidade para a
navegação. Para os especialistas na captura do camarão (com rede 20 - rede com
malhas de 20mm que, de acordo com os pescadores, são próprias para a captura do
camarão), o verão também é o momento ideal, já que as espécies capturadas nesse
período se aproximam mais da praia. Por sua vez, o inverno é preterido por motivos
de segurança, já que as chuvas e ventanias causam riscos às embarcações e aos
pescadores.
[...] O tempo bom aqui é no verão, que no verão a gente pode ir pra qualquer
lugar, até pra bom despacho nois vai, agora no inverno a gente fica mais
aqui, fica aqui por perto, porque do vento e o peixe também some porque
esfria. [...] (participante P02, fevereiro de 2026)
[...] O tempo melhor é setembro até janeiro, que é verão, inverno é difícil,
porque da frieza, o pescador dormindo ai acorda e ta chovendo, ai não vai,
deixa o tempo melhorar pra ir[...] (P04, maio de 2026)
[...] Na peixaria, o robalo, os compradores estão comprando de 30 reais, mas
no inverno ele cai bem, cai muito, ele vai pra 20, 25. A cavala é 25, a
pescada é 15, 20 a depender do tamanho da pescada.[...] (P01, fevereiro de
2026)
4.1.4 Mudanças e vulnerabilidade
Esta categoria se refere às observações dos pescadores sobre as mudanças
ambientais, ecológicas e produtivas ocorridas ao longo do tempo no território de
Conceição de Salinas. As entrevistas mostram que a comunidade pesqueira e
marisqueira percebe alterações na disponibilidade dos pescados e associam essa
escassez diretamente com a dinâmica de pesca e sua cadeia de venda, bem como
com a vida na comunidade. Fenômenos relatados nas entrevistas, como a morte de
mariscos pela alteração da salinidade devida à barragem de Pedra do Cavalo, dizem
respeito a conflitos que também aparecem na literatura. Na pesquisa feita por
Pacheco dos Santos et al. (2024), por exemplo, relata-se que moradores da
comunidade de Santiago do Iguape-BA também enfrentam desafios com a barragem
que funciona desde 2005 e afirmam que essas mudanças impactam na segurança
alimentar dos moradores, pois houve a redução em espécies de pescado antes
24disponíveis. Esses eventos deixam evidente os impactos do racismo ambiental e
estrutural, motivados por uma lógica que prioriza o capital em detrimento de vidas
tradicionais. Conforme apontam do Nascimento et al. (2021), os grandes
empreendimentos utilizam a estratégia de classificar as comunidades tradicionais
como inexistentes e, como consequência direta da degradação feita após esse
apagamento, há o prejuízo à saúde física e mental, à alimentação e à autonomia
econômica dessas pessoas pela escassez de recursos pesqueiros e pela
desestruturação do seu modo de vida ancestral.
Por fim, foi perceptível a preocupação dos pescadores com essas mudanças,
sendo possível referir-se
a uma adaptação forçada dos pescadores a estes
distúrbios ambientais de origem antrópica, incluindo mudanças em suas práticas
pesqueiras e nas artes de pesca que utilizam.
4.1.4.1 Sumiço e diminuição de espécies
Este código abarca todas as percepções dos pescadores acerca do
desaparecimento temporário ou redução de populações de peixes em determinados
períodos do ano. Os pescadores relatam uma diminuição geral de pescados em
relação ao passado, a qual associam, em sua maioria, diretamente ao sumiço do
xangó. De acordo com as entrevistas, o xangó não foi encontrado pelos pescadores
da comunidade por cerca de dois anos e seu retorno só ocorreu no fim de 2025,
porém em quantidades menores do que ocorria antes. Alguns pescadores
relacionam essa redução aos grandes montantes de sua captura, inclusive de forma
que consideraram irresponsável, resultando diversas vezes no descarte desses
peixes devido a não venda e ao seu apodrecimento.
[...] Xangó tem até um tempo sumido né, aqui dava xangó de vc... ta
voltando, tá voltando... o xangô levou um bocado de tempo, o xangó dava
demais, dava demais, não sei quantas canoas chegava cheia aí, era xangó
que não era brincadeira e onde tinha xangó tinha muito peixe, onde tem
xangó tem todo tipo de peixe, tem camarão... o único peixe que não anda
atrás do xangó pra comer ele só é a arraia, o resto dos outros peixes onde
ele tiver, pode ter certeza que tem, tem cavala, robalo, tem bijupirá, todo
peixe. Pescada branca então é o que mais tem, o que mais gosta de xangó.
[...] (participante P01, fevereiro de 2026)
254.1.4.2 Eventos extremos
No
código
eventos
extremos, estão incluídos relatos de situações
consideradas anormais ou prejudiciais à atividade pesqueira. Em contraste com as
variações
de
sazonalidade
esperadas
pelos
pescadores,
esses
eventos
desestabilizam a dinâmica natural e os recursos pesqueiros explorados pela
comunidade de Conceição de Salinas. Em uma das entrevistas, foi relatada a
ocorrência de aumento da mortalidade de mariscos e peixes devido a um evento
descrito como maré vermelha, que resultou na diminuição drástica das espécies de
mariscos. Outro evento também descrito foi o da mudança na salinidade da água
devido ao aumento do calor e das chuvas, que fizeram com que a barragem e usina
hidrelétrica Pedra do Cavalo transbordasse, afetando diretamente a fauna marinha
da qual depende a comunidade. Dessa forma, esses eventos afetam não só a
dinâmica ecológica como também questões socioeconômicas de Conceição.
[...] sumiu muito mesmo, antes tinha muito, lambreta, ostra, siri mole,
camarão, xangó, caparauna, rala coco, chambá, peguari, pegava cestas...
sumiu mais assim foi no coisa da maré vermelha, morreu muito peixe, muito
marisco mesmo morreu aqui, foi isso da maré, a maré vermelha que teve por
aqui, aí a gente foi mariscar e quando chegou morrendo, morrendo peixe e a
gente sem saber o que era que tava morrendo os peixe, via os peixe
boiando. Aí quando a gente uma vez veio mariscar, os mariscos tava tudo
morto, chega tava fedendo, desse dia pra cá sumiu tudo. [...] (M01, maio de
2026)
[...] três anos atrás, tá tendo muita mortandade de marisco, porque começa o
sol quente e depois começa a chover aí acaba que enche lá a pedra do
cavalo, aí acaba que fica cheio e a água escapa, ai tem esse impacto da
água doce com a água salgada, aí os mariscos e os peixes acabam
morrendo com esse impacto. [...] (M02, maio de 2026)
4.2 Práticas de pesca
Esse tema descreve elementos centrais para a compreensão da identidade,
do modo de vida e das práticas produtivas da comunidade de Conceição de Salinas.
Nele estão incluídas as categorias Artes de pesca e Navegação, que têm papel
fundamental na cultura local. No âmbito das práticas produtivas da comunidade,
temos a escolha e compra dos materiais, bem como a confecção e manutenção das
artes de pesca, mudanças nos materiais e nas embarcações, a conservação dos
pescados, os riscos envolvidos na atividade pesqueira, os pontos de pesca, a cadeia
de vendas dentro da comunidade e os modos de escolha das artes de pesca.
264.2.1 Artes de pesca
Esta categoria contempla os conhecimentos relacionados aos instrumentos,
materiais, técnicas e estratégias usadas na captura dos pescados. Os códigos
incluídos nessa categoria descrevem de forma detalhada a diversidade de artes de
pesca e os processos de fabricação, manutenção e reparo das redes e de outros
equipamentos que fazem parte do cotidiano da pesca artesanal de Conceição. Além
disso, essa categoria também deixa evidentes as mudanças que aconteceram ao
longo dos anos na comunidade, tanto nos materiais utilizados nas artes de pesca
quanto nas
embarcações. Portanto, as artes de pesca não se mostram apenas
como instrumentos de trabalho, mas também como meios de expressão material dos
conhecimentos da comunidade pesqueira.
4.2.1.1 Diversidade das artes
Esse código se refere aos petrechos usados pelos especialistas, como vários
tipos de redes, gaiolas, tarrafas, pesqueiros e gruzeiras. Nas entrevistas, foi relatado
que cada arte está associada a certas espécies de pescado, determinados períodos
do ano e condições ambientais específicas. As escolhas das artes de pesca não são
feitas de forma aleatória, mas sim a partir dos saberes acumulados na comunidade,
que são passados de geração em geração, sobre o comportamento dos animais, o
defeso, a dinâmica das marés, as estações do ano e as características do ambiente
que ditam a melhor arte ser usada em cada período, para cada espécie. Foi possível
observar, além disso, que a grande maioria dos pescadores é especialista em mais
de uma arte, utilizando-as no período mais propício para cada uma. Isso também foi
observado por Renck et al. (2025) na comunidade de Siribinha onde os pescadores
dominam uma grande quantidade de técnicas de pesca.
[...] to botando gaiola mesmo porque a ressa [lance da rede ] tá ruim, aí nois
passa pra outra arte, e a arte que tá dando mais é siri. [...] (P07, maio de
2026)
4.2.1.2 Manutenção e Vida Útil
Neste código, estão incluídos relatos sobre as práticas de fabricação, reparo,
manutenção e conservação dos instrumentos de pesca, sejam eles redes, gaiolas ou
outros.
Os
entrevistados
mostraram
conhecimentos
técnicos
detalhados
relacionados ao entralhamento das redes e à colocação de materiais, como chumbo
27e cortiça, por exemplo. Na maioria das vezes, essa confecção é feita pelos próprios
pescadores, porém alguns deles pagam para outros a fazerem. Esses dados
dialogam com o que Pinto, Mourão & Alves (2021) observou sobre existirem
pescadores especialistas
em petrechos de pesca. Além disso, a manutenção
aparece como uma atividade essencial para a pesca, já que os pescadores relatam
conhecimentos sobre a vida útil do material, o intervalo entre um reparo e outro e os
motivos pelos quais as redes podem precisar de manutenção.
[...] A manutenção normalmente é de duas em duas marés assim, aí a maré
tá quebrando, né? quando é maré grande, aí ele tira pra terra pra fazer
manutenção... mais ou menos uma semana... a manutenção é ele mesmo
que faz. [...] (P03, fevereiro de 2026)
[...] Sem rasgar, ela leva mais ou menos uma semana, cinco dias, aí a gente
tira ela pra ajeitar. o nylon que a gente trabalha é fino, ai o peixe lasca [...]
(P11, fevereiro de 2026)
4.2.1.3 Cadeia de Venda
Esse código reúne os relatos relacionados às formas de circulação, venda e
distribuição
do
pescado
capturados pelos pescadores e marisqueiras da
comunidade. Os entrevistados descreveram diversas etapas de comercialização, de
venda direta nas peixarias, para atravessadores e para compradores locais e esses
pontos corroboram com o que foi visto por Bandeira & Brito (2011) já que ele afirma
que a pesca artesanal na Baía de Todos os Santos, em sua maioria, é
comercializada no mercado interno e, além disso, a comercialização passa por uma
rede que vai do atravessador (que geralmente é alguém da comunidade
responsabilizado pela compra e venda do pescado) até as peixarias. O porto de
Conceição funciona como espaço de comercialização, onde o pescado é negociado
logo após o desembarque. A presença de atravessadores aparece de forma
recorrente nas entrevistas, tornando notórias as relações intermediárias que acabam
reduzindo o valor recebido pelos pescadores. Outro ponto observado é que muitas
vezes os pescadores pagam a mulheres da comunidade para que elas tratem os
peixes ou catem os siris capturados. A cadeia de venda também engloba os serviços
de produção e reparo das redes, visto que alguns pescadores pagam outros para
fazer este trabalho (como já mencionado anteriormente).
Nesse código, aparecem também relatos sobre a variação de preços
conforme a espécie, o tamanho e o peso do pescado, a estação do ano e a
28disponibilidade no momento. A cadeia de vendas deixa evidentes as relações sociais
construídas a partir da circulação do pescado na comunidade.
[...] A gente passa pras mulheres, aí elas cortam e vendem a outras pessoas,
a gente não vende a kilo não, a gente vende o balde, o balde até 30 reais.
[...] (P11, maio de 2026)
[...] A gente cozinha, passa pra mulher catar e conserva na geladeira, aí na
semana quando chega pra sexta ou sábado a gente entrega... A gente já
vende pra pessoa certa aqui, as vezes passa pra peixaria e aí ele sai pra
revender fora. Ele tava de 45 agora ta de 40, vai chegando o inverno vai
diminuindo [...] (P07, maio de 2026)
[...] Esse peixe (xaréu) a gente passa pro pessoal da peixaria, porque tem um
pessoal que ja compra, aí eles botam no carro e leva pra algum lugar, um
frigorífico, alguma peixaria que eles já tem já, que eles compra e passa, quer
dizer eles compra na mão da gente e passa pra outras pessoas.[...] (P07,
maio de 2026)
4.2.1.4 Qualidade do Material
Este código é referente às observações dos pescadores sobre durabilidade,
eficiência e procedência dos materiais utilizados na pesca, principalmente redes,
linhas, embarcações e ferramentas. Foram evidentes as comparações feitas pelos
entrevistados sobre os materiais antigos e os atuais, evidenciando uma percepção
crítica sobre as mudanças tecnológicas que ocorreram na atividade pesqueira.
Geralmente, as redes antigas são descritas como mais resistentes e duráveis e os
materiais das redes mais recentes aparecem associados à praticidade, mas com
menor qualidade e vida útil. Assim, é parte dos conhecimentos da comunidade um
entendimento de como as artes de pesca têm mudado ao longo do tempo e de quais
as implicações disso.
[...] A durabilidade da rede hoje em dia é pouco, porque a gente não tem
mais a rede de qualidade. Alguns anos atrás a gente tinha uma empresa
chamada Equipesca , que vendia a rede e a rede dela era muito boa, então
levava 4 a 5 anos ou até mais sem ficar fraca. Hoje não, a maioria só quer
vender a rede da china, é mais frágil, aí você compra a rede e aí com dois
anos a rede fica fraca. O nylon era mais resistente... Essas canoas de fibra
surgiu de vinte e poucos anos pra cá né, porque antes tudo era no remo né, a
gente saia daqui remando né. [...] (P01, fevereiro de 2026)
4.2.1.5 Conservação
Neste código, estão incluídas falas sobre práticas de conservação,
armazenamento e manutenção da qualidade do pescado depois da captura. É
possível perceber que os pescadores usam diferentes técnicas para evitar perdas e
29conservar o pescado. O uso de freezer é muito relatado nas entrevistas, já que eles
permitem uma maior autonomia na venda e no armazenamento dos peixes. Os
entrevistados também mostram conhecimentos sobre os fatores que aceleram o
estrago, como a exposição ao sol e o calor. O conhecimento tradicional inclui, pois,
práticas pós-pesca que são fundamentais para a manutenção da atividade
econômica.
[...] Não tem como armazenar tudo, é muito peixe e aqui não tem câmara
frigorífica, só freezer, aí liga e eles vêm pegar...Robalo já conserva na
freezer porque robalo a quantidade é menos, então cada peixaria dessa tem
quatro, cinco freezer, ou a gente que pesca também, cada um tem sua
freezer em casa para conservar peixe, entendeu?... Mas todo mundo tem
freezer por que da isca. [...] (P01, fevereiro de 2026)
4.2.1.6 Riscos
Existem muitos riscos envolvendo as atividades pesqueiras, que foram
relatados em trechos reunidos nesse código, que contempla os perigos, os
acidentes e as situações de vulnerabilidade associados a estas atividades. Dentre
as respostas das entrevistas, foram descritos diversos tipos de riscos presentes no
dia a dia da pesca artesanal, incluindo acidentes com os anzóis da gruzeira,
afundamento das embarcações, mudanças repentinas do clima e perigos
relacionados ao vento e às correntes marítimas. Os riscos podem ser muito
associados às artes de pesca, de forma que foi comum nos relatos a afirmação de
que algumas artes são mais perigosas do que outras, por conta, por exemplo, da
quantidade de anzóis ou do peso. Outro ponto muito mencionado foram os riscos
relacionados à navegação em embarcações de fibra, já que elas têm um peso muito
maior e, caso virem com a agitação do mar, é muito difícil revirá-las. Assim, a pesca
artesanal envolve também estratégias de cuidado para se adaptar aos perigos que
são comuns ao ambiente marinho.
[...] A arte mais perigosa que a gente tem aí é só a gruzeira porque é anzol,
porque por exemplo, a gente vai largar uma gruzeira, ela tem de 300, 400,
500, 600 anzol, é um risco... quando você largar aqui um peixe panhar o que
você largou lá, mas aí tem cuidado. Às vezes acontece um acidentezinho [...]
(P01, fevereiro de 2026)
[...] Tem, toda rede corre perigo no mar, pode ter uma ventania. Aqui já
morreu gente. [...] (P09, maio de 2026)
304.2.2 Navegação
Na categoria Navegação, estão incluídos os saberes da comunidade sobre o
território e os espaços que são utilizados pelos pescadores para se deslocarem no
mar e ir aos pontos de captura dos pescados. A navegação, para a comunidade de
Conceição, não é apenas sobre conduzir a embarcação, mas sim com a observação
do ambiente e a experiência cotidiana dos pescadores, a partir do conhecimento do
território, dos costeiros (base de seu território de vida e cultura onde essas
comunidades tradicionais exercem suas atividades) e dos pontos que são utilizados
para a pesca. Foi observado que os entrevistados possuem um amplo conhecimento
geográfico sobre Conceição e a região, o que corrobora com o que foi dito por
Diegues (2004) já que o mesmo declara que uma das características mais
importantes do segredo da profissão de pescador é o saber se localizar e memorizar
os bons pontos de pesca. Assim, foram mencionados muitos locais que são usados
para a pesca, como Barra, Cabuçu, Ilha do Medo, Madre de Deus, Ponta de Nossa
Senhora, Coroa Nova e Coroa das Pedras. Esses locais são mais do que espaços
físicos; são espaços de memória e experiência acumulada ao decorrer das
gerações.
4.2.2.1 Marcação de pontos
O código Marcação de pontos diz respeito aos conhecimentos utilizados pelos
pescadores para localizar áreas específicas de pesca. Durante as entrevistas, os
pescadores relataram que utilizam marcações de pontos para identificar com maior
facilidade os locais onde determinadas espécies costumam aparecer. Essas
marcações são feitas a partir da observação de referências geográficas e visuais,
permitindo que os pescadores possam retornar várias vezes aos mesmos pontos de
pesca. A marcação é relacionada ao reconhecimento dos costeiros, à paisagem e à
profundidade desses locais, apoiando-se em saberes adquiridos a partir da
experiência e transmitidos de geração em geração.
[...] A gente pesca por marcação né, aí a gente pesca... tem vários costeiros
tem aqui a barra, o cabuçu, em frente a itaparica, ponta de nossa senhora, lá
na ilha do medo, esses costeiro tudo a gente pesca, vai até o farol da barra lá
em Salvador. [...] (P01, fevereiro de 2026)
314.3 Dimensões sociais
Este tema descreve como a pesca artesanal é, para além de um meio de
sustento, um modo de vida que está associado às relações familiares, à cultura, à
identidade, à organização da comunidade e à transmissão dos saberes tradicionais.
Nos relatos, foram feitos relatos frequentes sobre o desinteresse dos jovens pela
pesca, o que pode vir a ameaçar a continuidade da transmissão dos conhecimentos
pesqueiros artesanais. Além disso, foi possível observar que há diferença entre as
artes de pesca praticadas por homens e mulheres e que há uma cooperação entre
pescadores
e
marisqueiras
para
compartilhamento
de
conhecimentos
e
experiências.
4.3.1 Gênero e continuidade
Nessa categoria, estão reunidos aspectos sociais e culturais relativos à
participação de homens e mulheres na pesca, aos processos de aprendizado e à
transmissão de saberes. A partir das entrevistas e das análises feitas, é possível
perceber como esses códigos podem permitir a percepção da dinâmica presente na
comunidade, além de possibilitar a compreensão de como a atividade pesqueira é
organizada socialmente, quem participa de determinadas atividades ou as
características culturais que são mantidas ao decorrer das gerações.
4.3.1.1 Divisão de papéis
A pesca artesanal de Conceição é caracterizada por construções sociais de
gênero historicamente estabelecidas. Os entrevistados associam com muita
frequência a presença de homens à atividade pesqueira embarcada e a de mulheres
à atividade de mariscagem, catado e tratamento dos pescados, essa mesma relação
foi também observada no trabalho de Bandeira & Brito (2011). Quando associadas
diretamente à pesca, as mulheres atuam acompanhando seus maridos, mostrando
que, apesar de haver uma certa flexibilidade, nessa atividade a mulher é
coadjuvante. Enquanto isso, homens aparecem predominantemente relacionados
ao trabalho braçal associado à condução de embarcações e às puxadas de redes.
[...] só homem só, se a mulher jogar não guenta não, que é 13kg por dia,
13kg de chumbo. [...] (P08, maio de 2026)
32[...] Normalmente é homem, mulher aqui é bem pouco. Não, as mulheres aqui
fazem outra função, cata siri, escama peixe. [...] (P03, fevereiro de 2026)
4.3.1.2 Transmissão de saberes
Este código reúne os relatos associados aos processos de transferência de
conhecimentos pesqueiros em Conceição. Nas entrevistas, os pescadores
descrevem a pesca como algo próprio da comunidade, sendo um saber adquirido
intergeracionalmente através da convivência familiar, da experiência do dia a dia e
da observação das práticas de pescadores mais antigos. Esses saberes não se
limitam às artes de pesca, mas incluem os pontos de navegação, o comportamento
dos pescados e as condições do ambiente. De maneira geral, essa transmissão de
saberes acontece informalmente, com a participação nas atividades desde a
infância, o que pode ser entendido como uma pedagogia própria da comunidade
pesqueira. Por isso, pais, avós, tios e pescadores com maior experiência são
sempre descritos como figuras essenciais para o processo de aprendizado. Somado
a isso, Moraes (2011) afirma que os saberes tradicionais são passados pela
observação e pelos ensinamentos de gerações mais experientes.
Os saberes acerca da pesca envolvem também uma forma de relação com o
ambiente, o que gera uma sensação de identidade constituída de maneira integrada
à natureza, e um reconhecimento do legado de gerações anteriores, o que contribui
para um sentimento de pertencimento à comunidade.
[...] Rapaz, eu comecei a pescar com os mais antigos, né? Alguns já
morreram, tem meu avô que já morreu a muitos anos, tem meu tio e outros
também que já foram, que a gente foi aprendendo a pescar... É passado de
geração pra geração. [...] (P01, fevereiro de 2026)
4.3.1.3 Desinteresse Juvenil
O código Desinteresse Juvenil diz respeito ao que os pescadores e
marisqueiras relatam sobre a diminuição do interesse dos mais novos pela
continuidade das práticas de pesca da comunidade. Nas entrevistas, os(as)
especialistas expressam preocupação com o futuro da atividade pesqueira, já que
muitos(as) jovens estão se afastando dessa cultura por conta das dificuldades
econômicas, devido às dificuldades na pesca e mariscagem por conta da diminuição
dos peixes e mariscos, e das novas oportunidades de trabalho dentro e fora da
comunidade. Apesar desses relatos serem maioria, isso não é um consenso, visto
33que uma parcela menor dos entrevistados afirmam que os jovens ainda estão
interessados em continuar a propagação dos conhecimentos pesqueiros.
[...] Pescador diminuiu um bocado, hoje a juventude não quer mais pescar,
essa geração que tá aí da minha idade, quando acabar não sei não como vai
ser, é o mesmo que marisqueira, hoje em dia as meninas não mariscam mais.
tem poucos jovens. [...] (P01, fevereiro de 2026).
[...] As meninas mais novas não querem mais ir pro sol quente, ficar com a
bunda pra cima, pegando peso daqui, de lá, até em casa, então o pessoal
desiste... só é quem já mariscava antes. [...] (M02, maio de 2026).
[...] Diminuiu, o povo agora vem catando siri, escamando peixe para
revender... Quando não tem marisco aí vai ganhar dinheiro em terra... As
meninas não tão querendo não. [...] (P01, fevereiro de 2026).
5. CONCLUSÃO
A análise dos dados permite concluir que a pesca artesanal em Conceição de
Salinas vai além da dimensão econômica, consolidando-se como uma peça
fundamental da identidade e uma herança cultural viva para a comunidade
quilombola. Os resultados revelam que os pescadores e marisqueiras detêm um
amplo conhecimento ecológico local, evidenciado por uma etnotaxonomia que
diferencia espécies por critérios morfológicos detalhados e um entendimento
sofisticado das teias tróficas, onde o peixe xangó ocupa um papel central como elo
alimentar e isca fundamental. Além disso, a pesquisa demonstrou que a prática da
pesca é conduzida pela dinâmica ambiental, na qual o domínio sobre os ciclos da
lua e das marés, aliado à percepção da sazonalidade, determina as estratégias de
captura e a escolha das artes de pesca. No campo social, identificou-se uma divisão
de gênero marcada e uma preocupante tendência de desinteresse juvenil, que,
somada às alterações na disponibildade de pescados, ameaça a continuidade dessa
herança cultural.
O objetivo da pesquisa foi realizado através da aplicação de uma metodologia
etnográfica que priorizou a inserção da pesquisadora no cotidiano da comunidade
para criar laços de confiança e compreensão mútua. A realização de 15 entrevistas
semiestruturadas com especialistas tradicionais, ligada à observação participante e
ao uso de diários de campo, permitiu não apenas entender a diversidade das artes
de pesca, mas também capturar a dimensão dos saberes biológicos e ecológicos
associados a esses instrumentos. O processo de codificação indutiva dos relatos
34possibilitou que os temas, códigos e categorias surgissem diretamente dos relatos
dos entrevistados, garantindo que a descrição da cultura da comunidade fosse fiel
às experiências vividas e aos conhecimentos transmitidos por gerações em
Conceição de Salinas.
Portanto, a valorização do conhecimento biológico e ecológico local e o
reconhecimento dos direitos territoriais da comunidade são fundamentais não só
para a conservação da biodiversidade da Baía de Todos os Santos, mas para
garantir a sobrevivência e a autonomia cultural da comunidade Quilombola de
Conceição de Salinas.
6. REFERÊNCIAS
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ethnobiology?. In: Introduction to ethnobiology. Cham: Springer International
Publishing, 2016. p. 3-7.
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35DEFESOS
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36REIS-FILHO, José Amorim et al. Fisherwomen’s activities are as complex, salient,
and profitable as those performed by fishermen: A study from vulnerable traditional
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uma haliêutica historicizada. Oficina do historiador, v. 13, n. 1, p. e36763-e36763,
2020.
37APÊNDICES
Apêndice A- Roteiro de entrevista semi-estruturada para os membros da
comunidade de Conceição, aplicado em 2026.
Roteiro de entrevista
Explicação do projeto, pedido de autorização, coleta de informações do participante
(Nome completo e idade)
I. TIPOS DE PESCA REALIZADOS PELO PESCADOR OU MARISQUEIRA:
1. Quais os tipos de pesca realizados pelo Sr./Sra.?
II. (FOCO DA ENTREVISTA) TIPO DE PESCA CHAMADO:
3. O que pega? Quais peixes? (Solicitar descrições)
4. Onde joga (ex. a rede)? (Solicitar descrições)
- Qual horário (explorar possíveis conexões com lua, maré etc.)
- Quanto tempo fica lá? (Solicitar uma descrição)
- Precisa-se embarcação?
- Locais de embarque e desembarque:
5. Vai com quem? Quantas pessoas?
6. As pessoas tem papéis diferentes? (Solicitar uma descrição)
III. OBJETOS, APARELHOS, UTENSÍLIOS PARA ESSE TIPO DE PESCA:
7. Leva mais alguma coisa ?
8. Quem faz? Onde compra?
9. Precisa de manutenção? quanto tempo dura (vida útil)? Porque estraga? (Solicitar
uma descrição)
Pessoas que confeccionam, consertam, ou vendem e localidades:
IV. ISCA PARA ESSE TIPO DE PESCA:
10. Precisa de isca?
11. Como pega essa isca? Quem fornece?
V. CONDIÇÕES PARA A PESCA (BOA/RUIM):
11. Tem época em que prefere fazer (esse tipo de pesca)? Tem época em que não
dá para usar? (Solicitar uma descrição)
38VI. CUIDADOS A TER DURANTE A PESCA:
12. Tem algum perigo (durante esse tipo de pesca)? (Solicitar uma descrição)
VII. CAPTURA COM ESSE TIPO DE PESCA:
13. Geralmente pega quanto (com esse tipo de pesca)? (Solicitar uma descrição)
- Qual foi a maior captura? Quando foi?
14. Como conserva o que pega?
15. Onde vende? Quem compra?
- Preço por quilo:
VIII. PAPEL DE HOMENS E MULHERES NESSE TIPO DE PESCA:
16. Homem e mulher pescam (nesse tipo de pesca? (Solicitar uma descrição)
IX. MUDANÇAS NESSE TIPO DE PESCA:
17. Quem te ensinou? É passado de geração para geração?(Solicitar uma
descrição)
- Explorar distintas conexões:
- Mudanças na confecção, utilização e manutenção (materiais, aparelhos, uso,
manutenção, conserto):
- Mudanças nos locais de pesca frequentados:
- Mudanças nas espécies capturadas, Sabe citar quais as causas:
- Mudanças na captura (quilos) e Mudanças nos ganhos (preços e
comercialização):
- Mudanças nas embarcações e locais de embarque e desembarque:
- Mudança na idade/gênero/número de pescadores dedicados a essa pesca:
18. Você poderia me dizer quais os peixes que você conhece?
19. Quais peixes possuem épocas de desova e período de defeso aqui na sua
região:
Agora vamos conversar sobre x (etnogênero)?
I. Etnotaxonomia
Têm tipos diferentes de x?
39O que eles têm de parecido para chamar todos de x?
Tem algum peixe parecido com x? Por que parece (tamanho, cor, peso,
sazonalidade)?
Tem algum outro nome para x?
O que eles têm de diferente para chamar um xx, outro de xy? Se eu encontrar um
peixe desses, como é que eu faço para saber que é esse peixe?
Qual peso xx, xy costuma ter? Qual o preço por Kg?
II. Habitat
Onde pesca xx, xy? Acha em algum outro lugar além de onde pesca? [Se falar em
termos muito genéricos, tipo “no rio”, explorar assoalhos (“fundo de lama”, “pedra”
etc.), microhabitats (“entra no mangue”, “sobe o rio”... “é só no baixo mar”, “tem no
alto mar”, assoalhos, acha em todo lugar ou tem um lugar próprio...]
Como é que acha o lugar onde pesca?
III. Interação com a pesca
O que atrapalha pegar esses peixes (barulho de motor, chuva, sujeira na água)?
Tinha mais ou menos desse peixe no passado? Por quê?
IV. Sazonalidade
Encontra o ano todo xx, xy? Encontra mais alguma época do ano?
Todos x tipos acha o ano todo?
Pra onde xx, xy vai quando ele não tá por aqui?
Tem alguma época do ano que não pode pegar xx, xy? (Defeso)
V. Relações tróficas
O que xx, xy come?
Quem come eles?
VI. Comportamento
Onde xx, xy nada? Vai pelo chão, vai na parte de cima da água?
Pula pra fora da água? Anda de cardume? Os x tipos andam de cardume?
40Quantos kg costuma pegar de uma vez?
Vii. Reprodução
Quando xx, xy tem filhote, cria? Quando vocês acham eles pequenininhos?
Dá para saber qual é o macho, qual é a fêmea? Como?
Já viu os ovos? Já viu os filhotes? Como são (os ovos, os filhotes)? Onde ficam os
ovos e os filhotes?
VIII. Usos
Usa para tratar alguma doença ou tem alguma importância para alguma religião?
Tem alguma época do ano que não pode comer esse peixe?
Estraga fácil? Na rede? Fora do mar?
Você poderia me dizer quais os peixes que você conhece?
41
