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EVANGELHO ao pé da letra:
a experiência inaudita de um PEDRO
Meu Pai tinha um amigo chamado Pedro, filho mais velho de uma família tradicional, bem situada na nobreza russa. Podia-se dizer que ele era algo parecido ao que hoje se chama um milionário americano: muito ouro e prata no banco, indústrias e latifúndios. Um belo dia, este ricaço foi ter com meu pai e disse-lhe:
"Teodoro, há tempo que venho lendo o Evangelho e decidi tomá-lo ao pé da letra, como já o fizeram tantas outras pessoas antes de mim. Vou deixar minhas terras, fazendas e bens imóveis urbanos para minha família. Quanto ao meu dinheiro, porém, vou transformá-lo todo em ouro e prata".
Assim disse e assim o fez, com auxílio de meu pai que o ajudou em toda essa transação.
Não havia caminhões naquela época, sendo todo o transporte pesado efetuado em grandes carroças, puxadas por dois cavalos enormes de patas peludas, ainda encontradiços na Europa de hoje e na América do Norte. O homem arranjou uma dessas carroças, com capacidade de uma tonelada de carga. Colocou dentro dela alguns sacos de ouro e prata. Em seguida, acompanhado sempre de meu pai, o milionário Pedro dirigiu-se a um dos bairros pobres ou favelas de Petrogrado. Pois foi aí, de casa em casa, de família em família, de mão em mão, este ricaço distribuiu todo o seu ouro e sua prata que não era pouca! Depois de esvaziada a carroça, ele guardou apenas trinta moedas de prata. Tomou-as na mão e disse:
"Agora, com o meu gesto de desprendimento, creio ter resgatado as trinta moedas sacrilegas pelas quais Cristo foi vendido. Vamos embora!"
Voltou à sua casa, sempre em companhia de meu pai. Lá estava, a sua espera, sobre a cama, uma túnica de linho e um saco do mesmo estofo. Na cozinha estava um grande pão caseiro e uma cabaça. Vestiu a túnica, pegou o saco mais a cabaça e um bordão de peregrino. Depois atravessou as ruas de Petrogrado até atingir a estrada onde meu pai deixou de acompanha-lo e ficou, de pé, olhando o milionário que, a passo firme, caminhava rumo ao desconhecido, à pobreza e solidão de algum "poustínia" (deserto).
Meu pai só parou de olhar quando o homem não era mais que uma silhueta minúscula, recortada contra o sol poente. A silhueta levava apenas uma túnica, um saco, um bordão, uma cabaça. E, além de tudo isso, ainda ia descalço...
Alguns anos mais tarde, meu pai encontrava-se casualmente em Kiev, uma grande cidade ao sul da Rússia. Aí foi à Missa, como bom católico que era. Havia mendigos à porta da igreja, como sempre acontece, e entre eles destacava-se um pelo seu aspecto mais miserável, nos cabelos longos e emaranhados, na barba suja e nos trapos rasgados que mal cobriam seu corpo. Parecia um doido ou retardado pela expressão do olhar parado e vago. Naquele momento, porém, um raio de sol matutino caiu-lhe sobre o rosto e meu pai reconheceu nele o velho amigo de outras eras: Pedro, o ex-milionário! Os dois abraçaram-se efusivamente ali, diante da igreja. Depois entraram e assistiram juntos à Missa. Uma hora mais tarde, durante o café, meu pai perguntou-lhe por que assumira aquela expressão de doido e de idiota, obviamente postiça... Pedro deu-lhe esta bela resposta:
"Estou oferecendo a Deus uma reparação por aqueles que chamaram Cristo de doido, tanto no seu tempo como através de todos estes séculos".
Depois disso, os dois amigos beijaram-se na face e separaram-se. Meu pai nunca mais o viu.
(Do livro de Catherine de Hueck Doherty: "DESERTO VIVO”, Edições Paulinas, 1980, pág. 43-45)
Fim
Fonte: Revista CAVALEIRO DA IMACULADA, nº 113, 1988
