📺️(960)_Por que TODOS explicam errado? A IDEIA MAIS PODEROSA da Física! (Feynman)

 



O Tabuleiro de Galton e a Curva Normal



Esse é o tabuleiro de Galton.

E toda vez que eu viro ele,

essas bolinhas atravessam o tabuleiro,

mas no caminho batem nesses pinos.

E a ideia que quando todas as  bolinhas estiverem descidas,

nós vamos poder contar quantas caíram em  cada uma dessas caixinhas aqui embaixo.

Ou, se a gente quiser usar o linguajar matemático,

quando todas as bolinhas estiverem descido,  

nós vamos poder ver qual é  a distribuição das bolinhas.

E honestamente, essa  distribuição parece bem simples.

Nós temos mais bolinhas no centro

e menos bolinhas nas extremidades, o que  para algumas pessoas pode parecer óbvio.

E de

fato, pelo menos em parte é.

Mas na outra parte, o tabuleiro  de Galton demonstra a ideia

mais poderosa da física.

Pelo menos segundo o físico Richard Feynman.

O tabuleiro de Galton é  incrível, mas de uma forma sutil.

Tanto é que a maior parte das explicações  para como ele funciona está incompleta.

E quando eu digo incompleta, eu não quero dizer  necessariamente que as explicações estão erradas.

Mas sim que essa curva final, que é o  resultado da distribuição das bolinhas,

é ainda mais incrível e no final do vídeo você  vai entender um pouco mais sobre o universo.

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Ao invés de ter que pensar nesse tabuleiro  físico, com bolinhas físicas que batem umas  

nas outras seguindo equações complicadas, vamos  imaginar o que seria um tabuleiro de Galton ideal.

Nesse tabuleiro, duas coisas vão ser verdade.

Primeiro, quando uma bolinha bater em um pino,  ela tem 50% de chances de cair para a esquerda

e 50% de chances de cair para a direita.

E segundo, as bolinhas não batem umas nas outras.

A primeira condição nos ajuda a ignorar os  casos extremos em que uma bolinha fica mais  

longe do que o esperado, e a segunda condição é  equivalente a jogar apenas uma bolinha por vez,

ao invés de deixar todas caírem ao mesmo tempo.

Com esse tabuleiro ideal, a pergunta  que nós queremos responder é...

Se nós soltarmos mil bolinhas,

quantas bolinhas vão cair  em cada uma dessas caixas?

E aqui eu queria que vocês já  prestassem atenção em uma coisa.

O resultado é aleatório, porque  cada bolinha tem 50% de chances  

de ir pra esquerda ou pra direita  depois de colidir com um dos pinos.

Mas ainda assim, nós podemos calcular, em média,

quantas bolinhas nós vamos  encontrar em cada caixinha no final.

Ou, em termos técnicos,

nós podemos estudar a distribuição  da posição das bolinhas.

Então vamos pensar em um passo de cada vez.

Ou melhor, em um pino de cada vez.

Toda vez que uma bolinha encontrar um pino,  ela pode ir pra direita ou pra esquerda.

E isso nos deixa com dois resultados. Ou a  bolinha foi pra esquerda, ou ela foi pra direita.

Mas se colocarmos dois pinos no caminho,  nós agora vamos ter quatro possibilidades.

Dois desvios pra direita,  ou dois desvios pra esquerda

… ou um desvio para a direita, e  um para esquerda ou vice-versa.

Na prática, os dois últimos cenários são o mesmo.

A bolinha não sofre nenhum desvio total.

Matematicamente falando, isso quer dizer  que, com dois pinos, nós temos 25% de chance

de desviar para a esquerda ou direita e  50% de chance de nenhum desvio acontecer.

E nós podemos seguir essa lógica  para quantos pinos nós quisermos.

Com três pinos, existem quatro  possibilidades finais. Três desvios  

para a esquerda ou para a direita, ou  um desvio, para a esquerda ou direita.

E o cenário em que a bolinha só desviou uma vez  é três vezes mais provável do que o cenário em

que ela desviou três vezes.

E o padrão continua.

A cada pino adicional, existe uma chance cada vez

mais baixa de cenários extremos.

E uma chance cada vez mais alta de  que a bolinha mal seja desviada.

E quem nos diz algo sobre a distribuição final das  

bolinhas depois de passarem  pelo tabuleiro de Galton?

Na média, as bolinhas continuam  no centro do tabuleiro.

E a beleza da matemática é que se nós quisermos  ignorar o caso entediante em que as bolinhas

ficam no centro, nós podemos!

Esse tipo de distribuição em que só existem  duas possibilidades que se repetem de novo

e de novo e de novo é chamado  de distribuição binomial.

E segundo essa distribuição, se nós jogarmos  mil bolinhas por seis andares de pinos,

na média, 315 delas não vão sofrer desvio total,

235 vão ser desviadas duas vezes,

94 vão ser desviadas quatro vezes

e 15 bolinhas vão ser desviadas seis vezes.

Só que quando as pessoas  apresentam um tabuleiro de Galton,

elas frequentemente querem  falar de uma outra distribuição,

que é a chamada distribuição normal,  

fonte da famosa curva gaussiana, que  surge a partir dessa equação daqui.

Mas espera!

Se você olhar para a maneira como as  

bolinhas ficam distribuídas no  final do tabuleiro de Galton,

ela lembra muito essa curva.

E isso não é coincidência.

A distribuição normal, inclusive, tem  esse nome porque ela é extremamente comum.

Essa curva vive aparecendo  nos mais diversos cenários.

Por exemplo, a altura média da população  mundial está distribuída em uma curva normal.

Quer saber qual é a distribuição de  velocidades das partículas em um gás?

Também é uma distribuição normal.

Como está distribuído o tamanho de qualquer  parte de quase qualquer animal no planeta?

Ou é a distribuição normal,  ou é uma variação dela?

Distribuição de um tabuleiro de Galton ideal para  

um bilhão de bolinhas e mil pinos,  aproximadamente distribuição normal.

O ponto é que o motivo de a distribuição  normal aparecer tanto não é um acidente.

Ela é uma consequência de uma série de  resultados matemáticos que eu vou chamar

coletivamente de Teorema do Limite Central.

O que o Teorema do limite  central diz, mais ou menos,  

é que se você soma um monte de  coisas aleatórias e independentes,

o resultado dessa soma, que também é  aleatório, segue uma distribuição normal.

Por exemplo, a altura é resultado de  múltiplos fatores genéticos e ambientais.

Dentre eles, quais genes você herdou do  seu pai e da sua mãe, e quais genes eles  

herdaram dos antepassados deles, ou como você  se alimentou durante a sua juventude, ou se  

você foi ou não foi exposto a uma diversidade de  fatores que afetam o desenvolvimento infantil.

A altura de uma pessoa é o resultado de uma  

combinação muito grande de fatores  incontroláveis e independentes.

Então, a distribuição de altura da população  pode ser aproximada por uma distribuição normal.

No caso do tabuleiro de Galton, o raciocínio  é um pouco diferente, mas o resultado é  

o mesmo. A distribuição do tabuleiro de  Galton, que é uma distribuição binomial,

aproxima muito bem uma distribuição normal.

E a aproximação fica melhor conforme  nós aumentamos o número de pinos

no caminho das bolinhas.

Ou seja, uma distribuição  binomial com muitas etapas

é aproximadamente uma distribuição normal.

E é por isso que as bolinhas  no tabuleiro de Galton

formam aproximadamente uma curva normal.

O problema é que essa afirmação não é verdade  pro tabuleiro de Galton físico, da vida real.

Essa afirmação só faz sentido  nesse cenário idealizado,  

em que os pinos dividem as bolinhas perfeitamente

e uma bolinha nunca afeta a outra.

Na vida real, as bolinhas estão sempre  batendo nas outras o tempo todo.

E não, não tem nada de aleatório  na trajetória das bolinhas.

O caminho que elas fazem é perfeitamente  determinado pelas leis da física, pelo menos

em teoria.

Mas espera aí, eu acabei de dizer que a nossa  explicação pra um tabuleiro de Galton ideal

não funciona na vida real.

Mas ainda assim, o resultado que  nós nosso tabuleiro de Galton da  

vida real nos dá o mesmo resultado do idealizado?

E esse é o verdadeiro poder  da distribuição normal.

Tanto o tabuleiro de Galton  físico quanto a versão ideal

se aproximam da distribuição normal.

O que muda é o porquê disso.

Vamos com calma.

Ao invés de considerar um monte  de bolinhas que podem colidir,

vamos jogar só uma bolinha por vez e  repetir o processo várias e várias vezes.

Qual vai ser a distribuição final das bolinhas?

Isso é, se nós jogarmos mil bolinhas, uma por vez,

quantas bolinhas vão sofrer zero desvio,

ou um desvio, ou dois desvios totais?

Vamos pensar o que acontece quando  uma bolinha bate em um pino.

Apesar do cenário não ser ideal,  o caso mais comum vai ser que  

colidir com um pino de fato desvia a  bolinha pra esquerda ou pra direita.

Mas outros cenários também são possíveis.

A bolinha pode bater no pino e ser jogada  pro canto do tabuleiro de uma vez só.

Ou uma outra infinidade de  situações estranhas pouco prováveis.

Isso ainda é quase que o cenário ideal, alguns  desvios quando esses eventos raros acontecem.

Só que esses eventos raros também são aleatórios.

O que significa que a distribuição  final ainda tem que ser o resultado  

de uma série de eventos aleatórios e dependentes.

O que significa que a distribuição final  ainda se aproxima de uma distribuição normal.

Então, mesmo no mundo real, um tabuleiro de Galton  segue aproximadamente uma distribuição normal.

Então, mesmo no mundo real, um tabuleiro de Galton  segue aproximadamente uma distribuição normal.

Ou seja, a probabilidade

de uma bolinha ser desviada uma  ou duas ou três vezes é dada

por essa curva daqui. Mas por  que que nós estamos falando de

probabilidades?

Se nós tivermos a posição inicial de cada

bolinha, nós podemos determinar  precisamente qual caminho cada

uma delas deve percorrer.

Porque de novo, o caminho é  determinado pelas leis da física.

Então, o que significa falar de

probabilidades se a física é determinista?

A razão que nós falamos de probabilidade para  algo determinístico é extremamente simples.

Esse caminho perfeitamente determinado  da bolinha só existe na teoria.

Na prática, a bolinha segue um caminho caótico.

E é muito difícil de prever exatamente  como uma bolinha vai cair pelo tabuleiro.

Então o que as probabilidades  representam é essa ignorância.

É a nossa incapacidade de descrever  o caminho da bolinha perfeitamente.

Ou seja, ao invés de lutar contra  equações extremamente complicadas,

nós abraçamos a nossa ignorância.

E aí procuramos entender como que  as coisas se comportam na média.

Nós transformamos a incerteza em probabilidades.

E essa ideia é extremamente poderosa.

E eu vou demonstrar isso provando  que um tabuleiro de Galton realista

também aproxima uma distribuição  normal sem fazer quase nenhuma conta.

Nós já vimos que se nós  jogarmos uma bolinha por vez,

o tabuleiro de Galton físico vai se comportar  aproximadamente como o tabuleiro de Galton ideal.

Mas o que acontece quando nós  jogamos mil bolinhas de uma vez?

Como é que nós podemos descobrir  quantas bolinhas nos esperamos encontrar

em cada posição final no meio desse caos todo?

Primeiro de tudo, nós temos  que abraçar a nossa ignorância.

Não tem um truque aqui.

Nós vamos apenas ter que tratar de probabilidades.

Nesse cenário tem duas coisas que  uma bolinha pode fazer além de cair.

Ou bater em um pino, ou bater em outra bolinha.

E nós já vimos que bater em pino gera um

cenário parecido com o caso ideal, que é  uma distribuição binomial que aproxima uma

distribuição normal.

Mas o que acontece quando duas bolinhas colidem?

Quando uma bolinha

bate em outra, a bolinha é desviada  para a esquerda ou para a direita.

É basicamente a mesma coisa do que  se ela tivesse batido em um pino.

O que isso significa é que  bolinhas batendo umas nas outras,

pelo menos de um ponto de vista probabilístico,

é a mesma coisa que bolinhas baterem em pinos.

Então, adicionar bolinhas no tabuleiro de Galton

é tipo adicionar andares de pinos.

E como nós vimos no cenário ideal,

quanto mais pinos no caminho, de uma  distribuição normal o tabuleiro chega.

Ou seja, adicionar bolinhas  adiciona aleatoriedade,

que tende a aproximar a distribuição  final da distribuição normal,

que é a famosa curva gaussiana.

Então, um tabuleiro de Galton ideal  aproxima uma distribuição normal

por causa da estatística da distribuição binomial,

em que probabilidades são  uma construção matemática.

E um tabuleiro de Galton realista aproxima  a distribuição normal por conta de cenários

caóticos que costumam aproximar  a distribuição normal.

E nesse caso, as probabilidades representam  não uma construção matemática perfeita,

mas sim a nossa ignorância.

E essa é a ideia mais poderosa da física.

Existe uma frase famosa que é  supostamente atribuída a Richard Feynman.

E ela diz que o conhecimento mais importante  da humanidade é o de que a matéria é composta

de átomos, que são pequenas partículas  que nunca param de se mexer.

E o motivo desse conhecimento ser tão importante  é justamente porque, partindo dele e da ideia

de transformar incerteza em probabilidades,  nós podemos deduzir um número inacreditável

de fatos científicos importantes.

E essa é a base de uma das áreas mais bem  sucedidas da física, a física estatística.

Partindo do fato de que toda matéria é feita

de pequenas partículas que seguem as leis da  física, sem nunca resolver nenhuma equação

para nenhuma partícula individual, nós  podemos reconstruir as leis da termodinâmica,

entender como a matéria se comporta próxima  do zero absoluto, incluindo efeitos quânticos,  

criar modelos precisos para sólidos cristalinos,  

como metais e semicondutores, estudar o  comportamento de todo tipo de molécula e

compostos orgânicos dos mais diversos ambientes,  modelar como a energia se movimenta dentro de

estrelas, e eu podia continuar o dia  todo listando aplicações dessa teoria.

Tem até economistas que usam os princípios  da física estatística no mercado financeiro.

É genuinamente incrível o quanto abraçar nossa  ignorância e substituir ela por probabilidades

não só torna nossa vida mais fácil, como  também nos permite descobrir os mecanismos

por trás de coisas tão  complexas no nosso universo.

Parem pra pensar no quão absurda é essa ideia.

Grande parte da física moderna e do nosso  entendimento do universo é uma consequência

direta de sabermos que a matéria é feita  de átomos, e que nós não precisamos saber  

como cada átomo individual se comporta para saber  como a matéria se comporta, pelo menos na média.

Muito obrigado e até a próxima!



Fonte: vídeo "Todo mundo explica isso ERRADO"  in  https://youtu.be/3sZJnZFHtEo  |  Canal Ciência Todo Dia