...IDE E ENSINAI!
RELIGIÕES E RELIGIÃO
**OS BATISTAS**
**1. ORIGEM**
Não se pode entender o surto dos Batistas sem mencionar os Anabatistas ($=$ rebatizados, aqueles que batizam de novo).
**1.1. Os Anabatistas**
Durante as lutas religiosas desencadeadas por Martinho Lutero (1483-1546) na Alemanha, surgiu o grupo dos "Profetas de Zwickau", que aderiram a Lutero; pouco depois, porém, ultrapassaram Lutero na linha das reformas. Foram chamados "Anabatistas", porque rejeitavam o Batismo de crianças e rebatizavam os adultos batizados em idade infantil (coisa que Lutero não fazia); além disto, professavam um tipo de "Reino de Deus" de inspiração socialista e revolucionária o que atraiu muitos camponeses. Em conseqüência, desencadeou-se a chamada "Guerra dos Camponeses" (1524-1525). Este movimento foi sufocado na Alemanha; mas as idéias anabatistas - depuradas de reivindicações políticas - sobreviveram na Suiça, na Alsácia e na Holanda. O principal ramo anabatista ficou sendo o Mennonismo, devido a Menno Simons ($+$1559), ainda hoje existente na Holanda e Alemanha.
**1.2. Os Batistas**
Passemos agora à Inglaterra do século XVI. A reforma religiosa anglicana parecia a muitos grupos extremados conservadora demais, pois mantinha a hierarquia episcopal. Entre os opositores inflamados, destacavam-se os Congregacionalistas, que atribuíam o governo da Igreja à congregação local e não à hierarquia de bispos e presbíteros.
Em Gainsborough, no ano de 1604, fundou-se uma comunidade congregacionalista, dirigida por John Smyth, antigo ministro anglicano; acolheu refugiados anabatistas e menonitas, Smyth, porém, e seus adeptos viram-se obrigados a se exilar, indo para Amsterdam (Holanda), onde o calvinismo predominava. No exílio, Smyth viveu em casa de um padeiro menonita, que o persuadiu de que o batismo conferido às crianças era inválido (tese anabatista). Em conseqüência, Smyth administrou a si mesmo um segundo batismo, de cujo valor, porém, começou em breve a duvidar. Diante deste fato, os seus companheiros, por ele convencidos da tese anabatista, o expulsaram da comunidade; Smyth não conseguiu ser admitido nem mesmo entre os menonitas, aos quais pedira acolhimento; faleceu em 1617.
Em 1612 um grupo de seus discípulos regressou à Inglaterra e lá fundou a primeira Igreja dita "batista" (não mais "anabatista"). Foram também chamados "Batistas Gerais" ou Arminianos, porque contrariamente à doutrina calvinista, professavam que Cristo na Cruz morreu por todos os homens.
Outro grupo se formou, pouco depois, dito "dos Batistas regulares ou particulares"; eram dissidentes do anglicanismo de Londres, que em 1641 se convenceram da tese anabatista. Mandaram então um de seus membros, Ricardo Blount, a Rijnsburg na Holanda, a fim de pedir o batismo de adulto à seita de Dompelaers (derivada do menonismo) e levar à Inglaterra o "verdadeiro batismo". Blount desincumbiu-se da sua missão: voltando em 1641, rebatizou por imersão (única forma de batismo reconhecida pela seita) 55 membros da comunidade de Londres. Aceitou do calvinismo holandês a doutrina de que Cristo salva somente os predestinados; donde o nome de "Batistas regulares" ou "particulares" que lhes tocou. Em 1644 havia na Inglaterra 47 comunidades de Batistas Gerais e 7 de Batistas Particulares. Com o tempo, porém, os Batistas Gerais foram declinando numericamente.
Nos Estados Unidos a denominação batista assumiu grandes proporções. Em 1630, o ministro anglicano William Rogers (1599-1683), descontente na Inglaterra, teve que emigrar para a América do Norte. Em 1638 convenceu-se de que batismo recebido na infância era inválido; por isto pediu a um amigo, Ezequiel Hollyman, que o batizasse de novo; por sua vez, Ezequiel lhe solicitou o rebatismo. Outros companheiros imitaram tais exemplos, dando assim origem à primeira Igreja Batista nos EE.UU. da América. - O espírito de independência reinante na colônia provocou numerosas divisões entre os batistas norte-americanos; conhecem-se hoje dezenas de ramos batistas: Velhos Batistas, Batistas Primitivos, Batistas do Livre Arbítrio, Batistas Campbellistas ou Reformados, Batistas do $7^{\circ}$ dia (porque observam o sábado), Batistas dos Seis Princípios ($=$ arrependimento, fé, batismo, imposição das mãos, ressurreição dos mortos e juízo eterno; ver Hb 6,1s), Batistas Abertos, Batistas Fechados, Batistas Gerais, Batistas Particulares, Batistas das Novas Luzes, Batistas das Velhas Luzes, Batistas das Duas Sementes no Espírito...
A denominação batistas assim dividida já não constitui uma Igreja, mas Fraternidades ou Congregações de crentes, prontas a se subdividir, desde que haja divergência entre os seus membros. Todavia, como nota característica comum, guardam a tese de que o Batismo não se confere a crianças e, por conseguinte, é preciso rebatizar quem recebeu o sacramento na infância.
O governo de cada comunidade é congregacionalista: o poder administrativo compete à assembléia dos membros da igreja local. É esta quem escolhe e depõe os seus pastores.
Dada a grande autonomia de governo e de pensamento entre os Batistas, compreende-se que não tenham preocupação ecumênica. Os Batistas nem querem ser enumerados entre os protestantes, mas pretendem constituir uma denominação cristã própria, ao lado do Catolicismo, do Protestantismo, do Anglicanismo e da Ortodoxia oriental o que não se justifica, desde que se leve em conta a história do tronco batista; procede da Reforma protestante do século XVI.
**2. DOUTRINA**
Os Batistas professam pontos doutrinários do Calvinismo (Calvino foi um Reformador contemporâneo de Lutero, mais extremado que este):
* Deus predestina os homens não somente para a glória, mas também para a condenação eterna;
* Somente a fé salva; as boas obras são ilusórias;
* a graça de Deus não apaga o pecado no crente, mas apenas encobre-o; por isto Deus não o leva em conta;
* o Batismo e a Ceia não comunicam a graça, mas apenas a fortalecem naqueles que os receberam com fé;
* a Bíblia é a única fonte de doutrina.
Sobre estas teses fundamentais cada ramo batista coloca seus pontos de vista próprios.
**3. APRECIAÇÃO**
Quanto ao Batismo em particular, notemos o seguinte:
1. É verdade que a Escritura não refere explicitamente o batismo dos pequeninos. Isto se explica pelo fato de que o século I, quando os pregadores do Evangelho chegavam a determinada cidade, não encontravam famílias cristãs, cujos filhos pudessem ser batizados pelos missionários, mas era preciso pregar a fé aos adultos, pagãos ou judeus para dar origem a familias cristas. Os casos de Batismo de crianças só se podiam tornar normais a partir da segunda geração cristã, ou seja, em épocas que em grande parte já escapam ao âmbito do Novo Testamento. Mesmo assim, porém, a Sagrada Escritura narra que vários personagens pagãos professaram a fé cristã e se fizeram batizar "com toda a sua casa"; ver At 16,13-15. 31-33; 18,8; 1 Cor 1,16. A expressão "casa (oikos)" significa na antigüidade o chefe da família com todos os seus domésticos, inclusive as crianças (que geralmente não faltavam). Por isto o escritor cristão Orígenes, por volta de 240, podia dizer: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de dar o Batismo aos pequeninos".
2. Quanto à maneira de batizar, reconheçamos que a imersão (mergulho) era geralmente praticada na Igreja antiga. Todavia não era o único rito em uso: é difícil crer que os 3.000 convertidos de Pentecostes em Jerusalém (cidade onde a água era escassa; cf 2Rs 20,20) tenham sido batizados por imersão (cf At 2,41); muito menos se concebe que o carcereiro batizado com toda a sua família em Filipos tenha sido mergulhado na água (cf At 16,33); o mesmo se deve talvez dizer do sacramento administrado por São Pedro na casa do centurião Cornélio (cf At 10,47s). Afinal, o que importa não é a quantidade de água, mas a água mesma como símbolo de purificação.
*(Transcrito do "NÓS e nós", ES 01-04, Editora Santuário, Aparecida SP, da autoria de dom Estevão Bettencourt, OSB).*
Fonte:
Revista CAVALEIRO DA IMACULADA, nº 10, 1988.
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