🔉️(1015)_O PÃO NOSSO [Literatura] (Yvette Amaral)


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O PÃO NOSSO 

Yvette Amaral


O pão sempre esteve na mesa do pobre. Até na sacola de mendigos paupérrimos que nem mesa ou casa tinham, se via um pedaço deste alimento.


Mas, no Brasil, o custo dos produtos båsicos da alimentação aumentou tanto ultimamente que não existe mais nenhuma comida acessível à população de baixa renda. De que o pobre se alimenta, é interrogação sem resposta.


Não hå mais possibilidade de previsão para o orçamento doméstico. A cesta båsica aumenta semanalmente. Nenhuma correção de salårio cobre as indispensåveis despesas de uma família e do próprio indivíduo cujo poder aquisitivo mingua cada dia mais.


O que estĂĄ acontecendo no Brasil relativamente ao custo de vida, Ă© algo alarmante que cheira a calamidade pĂșblica. É crime em dimensĂŁo de genocĂ­dio. EstĂĄ se matando lentamente uma porção considerĂĄvel da comunidade.


Hå muito que se fala numa sub-raça que se estå formando no nordeste, mas ela parece estender-se, penetrando jå no contexto das grandes cidades.


Se a situação nĂŁo mudar, teremos em breve, dois **"Brasis"** bem distintos. Um numericamente muito reduzido, nutrido, com estudos atĂ© o 3Âș grau, habitando moradias dignas de gente, conhecendo atĂ© o luxo. O outro, muitĂ­ssimo mais populoso, deficiente fĂ­sica e intelectualmente, amontoando-se nos morros, nas encostas ou respirando a podridĂŁo dos palafitas.


NĂŁo esqueçamos, porĂ©m, que, apesar de toda a misĂ©ria, o nosso povo hoje Ă© mais sabido e conscientizado que ontem. E este povo de barriga vazia, mas de cabeça atordoada pelos contraste que percebe; jĂĄ vem extravasando sua revolta atravĂ©s de brutais e atĂ© mortais formas de violĂȘncia. Ele percebe a permissividade que domina o mundo econĂŽmico brasileiro, nĂŁo mais controlado pelas autoridades competentes, porĂ©m pelos interesses dos que manipulam o mercado. NĂŁo se pensa no estĂŽmago do povo. É triste, mas Ă© verdade: corta-se o subsĂ­dio do trigo, porĂ©m o governo continua alimentando os marajĂĄs, num paĂ­s onde tanta gente nĂŁo consegue mais comprar o pĂŁo nosso de cada dia.



Fim

Fonte: Boletim COMUNHÃO E PARTICIPAÇÃO, NÂș 09 (1988)