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O PĂO NOSSO
Yvette Amaral
O pão sempre esteve na mesa do pobre. Até na sacola de mendigos paupérrimos que nem mesa ou casa tinham, se via um pedaço deste alimento.
Mas, no Brasil, o custo dos produtos bĂĄsicos da alimentação aumentou tanto ultimamente que nĂŁo existe mais nenhuma comida acessĂvel Ă população de baixa renda. De que o pobre se alimenta, Ă© interrogação sem resposta.
NĂŁo hĂĄ mais possibilidade de previsĂŁo para o orçamento domĂ©stico. A cesta bĂĄsica aumenta semanalmente. Nenhuma correção de salĂĄrio cobre as indispensĂĄveis despesas de uma famĂlia e do prĂłprio indivĂduo cujo poder aquisitivo mingua cada dia mais.
O que estĂĄ acontecendo no Brasil relativamente ao custo de vida, Ă© algo alarmante que cheira a calamidade pĂșblica. Ă crime em dimensĂŁo de genocĂdio. EstĂĄ se matando lentamente uma porção considerĂĄvel da comunidade.
Hå muito que se fala numa sub-raça que se estå formando no nordeste, mas ela parece estender-se, penetrando jå no contexto das grandes cidades.
Se a situação nĂŁo mudar, teremos em breve, dois **"Brasis"** bem distintos. Um numericamente muito reduzido, nutrido, com estudos atĂ© o 3Âș grau, habitando moradias dignas de gente, conhecendo atĂ© o luxo. O outro, muitĂssimo mais populoso, deficiente fĂsica e intelectualmente, amontoando-se nos morros, nas encostas ou respirando a podridĂŁo dos palafitas.
NĂŁo esqueçamos, porĂ©m, que, apesar de toda a misĂ©ria, o nosso povo hoje Ă© mais sabido e conscientizado que ontem. E este povo de barriga vazia, mas de cabeça atordoada pelos contraste que percebe; jĂĄ vem extravasando sua revolta atravĂ©s de brutais e atĂ© mortais formas de violĂȘncia. Ele percebe a permissividade que domina o mundo econĂŽmico brasileiro, nĂŁo mais controlado pelas autoridades competentes, porĂ©m pelos interesses dos que manipulam o mercado. NĂŁo se pensa no estĂŽmago do povo. Ă triste, mas Ă© verdade: corta-se o subsĂdio do trigo, porĂ©m o governo continua alimentando os marajĂĄs, num paĂs onde tanta gente nĂŁo consegue mais comprar o pĂŁo nosso de cada dia.
Fim
Fonte: Boletim COMUNHĂO E PARTICIPAĂĂO, NÂș 09 (1988)
