📺️🔉️(1021)_A ciência inacabada que investiga os maiores mistérios da fé [Religião] (CES)

 




Clique p/OUVIR 👉️🔉️

[Página 1]

PONTIFICIA UNIVERSITAS GREGORIANA

FACULTAS THEOLOGIAE

Seminário sistemático TS 1102

Orientador: Pe. F. Pastor

Tema desta síntese: "TEOLOGIA"

Conteúdo:

  1. O que é Teologia?

  2. Teologia: ciência da reflexão humana

  3. O Homem: lugar científico da teologia

  4. A Igreja: lugar permanente da reflexão teológica

  5. A História: princípio para uma teologia dedutiva

  6. O problema da divisão da teologia

  7. A Teologia e as outras ciências

  8. O pluralismo de teologias e o 'ser teólogo'

  9. É a Teologia uma ideologia?

  10. Tem ainda credibilidade a Teologia?

Estudante: Carlos Eduardo DA SILVA

Mat. 30856

Anno III

I Ciclo

Roma, novembro/1984

[Página 2]

T E O L O G I A

1. O QUE É TEOLOGIA?

O que é Teologia? É a primeira pergunta que temos em mente ao iniciarmos este estudo. Mas certamente que não é a única; quase de imediato uma série de perguntas aflora como uma natural possibilidade para uma resposta adequada, interrogando a própria teologia acerca dos seus "pressupostos", "fontes", "objeto", "critérios", "método", etc. Não partimos, porém, do conhecimento "zero", antes, conhecemos já os temas gerais da teologia: Deus, o homem, o mundo, salvação, e escatologia. Mas não só isso; sabemos mais precisamente que tais temas, só são temas da teologia enquanto e porque relacionados entre si, (e mais essencialmente com o núcleo da fé e da revelação (centro da "hierarchia veritatum"). Nos parágrafos sucessivos desta síntese encontraremos uma abordagem não exaustiva, de algumas considerações e questões importantes para a compreensão da essência da teologia enquanto teologia cristã.

2. TEOLOGIA: CIÊNCIA DA REFLEXÃO HUMANA

Inicialmente, como pressuposto para a reflexão teológica, enfocaremos o homem na busca de sua autocompreensão. O homem na investigação de sua capacidade de conhecimento e desenvolvimento desta a partir de sua própria reflexão sobre si mesmo, condicionada à sua existência histórica, e em perene busca das inesgotáveis verdades do mundo visível e do invisível, do imanente e do transcendente que o envolve. Pois é a partir dessa reflexão que ele pode chegar à compreensão da essência da teologia. E para tal, dispõe ele do patrimônio cultural da inteligência humana, que vem se desenvolvendo desde os primórdios, e embora este não represente ainda a totalidade da compreensão do homem sobre si, garante ao menos as condições básicas para tal reflexão. Em última instância o seu interesse será sempre uma busca do que seja a verdade, e para tal esforça-se sempre mais em refletir e explicitar de forma científica sua reflexão. Como porém a verdade não existe fora do espaço da intersubjetividade e como toda reflexão expressa-se através da própria linguagem humana, condicionada historicamente, variável e limitada, logo nenhuma reflexão pode alcançar devidamente a verdade. Tal reflexão, no entanto, contribuirá sempre para o aumento da razão teórica e prática que formam juntas o saber uno do homem, isto é, um todo complexo. A uma tal reflexão porém, sistematizada lógica e metodicamente, chamamos ciência. E como existem entre as atividades humanas múltiplas possibilidade de reflexões e igual intento em se sistematizar as concretas experiências empíricas, assim existe também uma pluralidade de "ciências". E já o próprio conceito de ciência é fruto da reflexão humana e por isso tem em si mesmo uma história. Portanto, cada ciência está determinada por sua própria compreensão histórica e, em parte, pela história de todas as ciências. Consequentemente, todas as ciências estão interrelacionadas e então uma parte da verdade deverá encontrar-se necessariamente na unidade da consciência humana. Por sua vez então, a teologia, enquanto obra do homem e da história, é essencialmente uma ciência; e esta por sua vez implica ser incompleta, isto é, uma reflexão inacabada.

[Página 3]

3. O HOMEM: LUGAR CIENTÍFICO DA TEOLOGIA

O que diferencia porém a teologia das outras ciências não é basicamente seu conceito ("scientia fidei") e seu objeto (Deus e o conteúdo da revelação e da fé). Como a revelação, porém, é uma iniciativa de Deus que automanifesta-se na palavra, nos acontecimentos e na pessoa de Jesus Cristo, logo precisamente trata-se de uma revelação feita ao homem, como ser capaz de percebê-la e de comprometer-se totalmente com seu ato de fé e empenho de vida. Portanto a teologia enquanto ciência é a reflexão sistemática e metódica da revelação aceita e apreendida na fé e da própria enquanto objeto de uma realidade psicológica e histórica. E o fato, porém, de que a teologia reflexione crendo não a despoja de seu caráter científico.

Quando enfocamos a teologia como ciência da fé, necessariamente aqui fazemos a precisão que se trata da teologia cristã enquanto trata-se da fé cristã/católica. (Sim, porque existe no mundo outras religiões com suas crenças também no sobrenatural e que caracterizam suas próprias teologias. Por ex., o Budismo, o Hinduísmo). No âmbito da fé cristã existem também distintas compreensões da fé e, portanto, diferenças de confissões; todavia, apesar destas diferenças, como existe apenas uma só fé cristã, assim também existe uma só teologia cristã como ciência da fé.

A teologia se ocupa sistemática e claramente de compreender a fé, o seu conteúdo, suas condições, etc., de modo tal que a fé para esta ciência é base, norma e fim. Ou seja, tal reflexão científica versa sobre a fé como unidade de ato e conteúdo: "fides qua creditur" e "fides quae creditur". Logo não visa uma reflexão simplesmente por curiosidade "teórica" da fé, mas sim é exigência duma resposta esclarecida de cada fiel perante si mesmo e aos outros. Como diz a Escritura: "Estai sempre prontos para vos defender contra quem pedir razões da vossa esperança" (1Pe 3,15). E então é evidente que, até certo ponto, todo cristão é um "teólogo", isto é, um testemunho e proclamador da fé cristã. Sim, porque a teologia quando objetiva-se como conhecimento e expressão da verdade, deve conduzir o cristão a um nível pessoal de conhecimento e comunicação de Deus na fé e a um nível público de um claro e eficaz testemunho. Desta forma então toda teologia é necessariamente teologia "kerigmática" enquanto proclamação e resposta crítica da fé. Relativo a esse aspecto podemos dizer também que a teologia é uma ciência "prática": adjetivo este que designa a totalidade de conhecimento adquirido desinteressadamente pela práxis enquanto orientada à realização da esperança e do amor.

Por outro lado — diz Rahner —: "enquanto reflexão crítica e metodicamente dirigida sobre a fé, o sujeito imediato da teologia não é simplesmente o homem que possui o hábito da fé, mas o homem em sua racionalidade, em correspondência com a distinção entre fé e teologia". Aqui entra a inteligência da fé e da razão, de modo tal que se pode dizer que o sujeito da teologia é a "ratio fide illustrata" (DS 3016). Desta forma a razão do homem é posta ao serviço da fé pelo esforço de apropriar-se do conteúdo íntimo da revelação e da verdade, para sempre mais poder perceber, compreender e explicar "não o que alguém pensou ou pensa, mas sim o que é a coisa em si mesma" — diz S. Tomás (In Librum de caelo I, 22). Em síntese, trata-se de evitar de cair nos extremos do fideísmo ou racionalismo. Desta forma a teologia pode ser designada como "fides quaerens intellectum" e não primariamente como "intellectus quaerens fidem". A esse respeito assim se expressou o Vaticano I: "Se a razão, iluminada pela fé, indaga com diligência, piedade e prudência, chega por um dom de Deus a uma certa inteligência, bastante fecunda, dos mistérios da fé, quer por analogia do que conhece naturalmente, quer pelo nexo que interrelaciona os mistérios entre si e com o fim último do homem" (DS 3016).

[Página 4]

4. A IGREJA: LUGAR PERMANENTE DA REFLEXÃO TEOLÓGICA

Enquanto revelação e fé são o princípio constitutivo da teologia, e enquanto a revelação histórica da palavra de Deus, na concepção católica (diversa da "sola Scriptura" protestante), está referida necessariamente à Escritura e à Tradição; logo a teologia é essencialmente ciência eclesial da fé. E a fé, enquanto audição da revelação dirigida ao povo de Deus (desde a Aliança mosaica), é então a fé da Igreja e na Igreja; caso contrário sucumbiria na arbitrariedade da religiosidade subjetiva do homem particular. Por sua vez, sendo a Igreja uma comunidade de fé constituída socialmente, a teologia colegial está referida ao Magistério da Igreja que propõe a fé e busca a purificação permanente de tudo que é humanamente problemático e historicamente caduco.

A reflexão científica, sobre a fé e revelação, redunda em proveito para toda a Igreja que crê e que propõe a fé; que escuta e anuncia essa fé, como sua responsabilidade e missão peculiar. Como ciência eclesial, portanto, toda a teologia pode mostrar um aspecto "político" e ser então uma "teologia política" entendida, não como preparação de um "politizar" a sociedade profana, mas enquanto referida ao homem no seu ambiente social e individual. Logo a teologia não pode conceber-se relacionada somente com a salvação e interioridade privadas de cada homem, mas sim que em todos seus pontos materiais deve pensar na importância, influências e repercussões sociais de suas afirmações. Por sua vez a comunidade, assumindo a natureza social e eclesial da teologia, tem também sua importância e autoridade no caminhar da busca da clareza teológica. Consequentemente a teologia não é fruto do trabalho apenas de um indivíduo isolado, mas de toda a comunidade enquanto esta forma o contexto da humana intersubjetividade e enquanto, por sua linguagem comum, possibilita o confronto entre as reflexões teológicas e suas próprias experiências religiosas. (Nessa consonância assim se pronunciaram alguns estudantes de teologia num folheto ⁽¹⁾ recentemente divulgado aqui em Roma: "Il soggetto che fa teologia non è il singolo studioso ma è la comunità cattolica nel suo insieme, è la Chiesa. Dalla dimenticanza di questa verità elementare deriva un pluralismo teologico che in realtà è spesso un soggettivismo, un individualismo che ha talvolta poco a che fare con le basi della tradizione comune. Così la fede si frantuma in una serie di scuole e di correnti"). Paralelo, porém, ao problema da busca da clareza teológica está o da linguagem com a qual a teologia deve estar sempre num processo de permanente purificação e atualização para exprimir a fé segundo a própria linguagem da comunidade, e particularmente como "fides quaerens linguam novam". Tal é a tarefa da Igreja nos confrontos e responsabilidade de sua pastoral permanente.

⁽¹⁾ Folheto intitulado "UN'OCCASIONE FAVOREVOLE" como convite ao povo cristão a participar do convênio sobre "La preghiera nel magistero di Giovanni Paolo II", realizado no dia 24 de novembro de 1984.

[Página 5]

5. A HISTÓRIA: PRINCÍPIO PARA UMA TEOLOGIA DEDUTIVA

Devido ao fato que a Revelação nos foi dada de modo histórico, resulta então que um outro aspecto essencial da teologia é o de ser uma ciência histórica. Esta reflete no processo da automanifestação de Deus através dos eventos singulares e históricos da salvação e está referida a esta História permanentemente, de modo tal que esta é não só ponto de partida como fim para uma teologia dedutiva. A história é assim o lugar da verdade e da revelação, e expressão de uma realidade que amadurece no tempo e no correr do tempo. Em outras palavras, a teologia é a reflexão crítica da experiência histórica salvífica da história da autocomunicação de Deus — que atinge a plenitude com Jesus Cristo — a ponto tal que esta vem a ser incluída no seu próprio objeto formal.

Por outro lado, estando essencialmente ligada ao caráter histórico, da História da Salvação, a teologia tem então como um de seus princípios estruturais a escatologia, uma vez que todo evento salvífico de Deus é igualmente promessa que desperta a esperança.

Enfocando a questão do "objeto formal" da teologia, vale ressaltar que a teologia medieval estabelecia unicamente: Deus em sua divindade e autocomunicação. Esta determinação não é muito frutífera para a compreensão da essência da teologia e de seu método, uma vez que "Deus sub rationis Deitatis" não pode ser princípio de uma teologia meramente dedutiva. Hoje se estabelece, portanto, que o objeto formal da teologia consiste precisamente no modo como se dá a revelação divina, seja através dos eventos históricos, seja por meio da razão humana iluminada pela fé.

6. O PROBLEMA DA DIVISÃO DA TEOLOGIA

O problema não é questão de simples sistematização das disciplinas, pois pode-se considerar a teologia sob diferentes aspectos e, por estes, dividi-la ou reconhecer partes. Se a encara do ponto de vista de sua finalidade logo pode-se perguntar qual a intenção do labor teológico? É uma finalidade teórica ou prática? Se prática, deverá então regular nossas ações, ordenar o agir de nossa vida; se teórica ou especulativa, deverá aplicar-se ao conhecimento da verdade. Se se encara a teologia sob o aspecto do método, pode se então falar de teologia positiva e de teologia especulativa. Terminologicamente porém uns preferem dizer teologia histórica (positiva) e teologia sistemática (especulativa). Outros, no entanto, usam dizer parte dogmática (Escritura, Padres da Igreja, Magistério) e parte sistemática (especulativa). Apesar de qualquer cogitação, enquanto a teologia tem por objeto Deus em sua vida íntima e em seu desígnio de salvação, e como fim conhecer melhor o desígnio de Deus salvador que é onde introduzir a criatura humana na intimidade da vida divina, logo — do mesmo modo que nas ciências experimentais — a teologia recolhe e sistematiza o dado revelado (t. positiva) para investigar-lhe em seguida a inteligibilidade (t. especulativa); eis o seu método.

Antigamente, porém, se distinguia erroneamente Θεολογία (doutrina de Deus no sentido estrito) e Οἰκονομία (doutrina da criação e da ação salvífica de Deus). O erro é que não percebiam que "Deus em si" só nos é conhecido por sua autocomunicação e pela nossa salvação; e então precisamente a Οἰκονομία é a Θεολογία.

Uma outra possibilidade de dividir a teologia é em função das três características da fé; ou seja: em teologia histórica entendida como "auditus fidei"; em teologia sistemática, como "intellectus fidei" e em teologia prática referida à "praxis fidei". Essa divisão apresenta um testemunho de unidade da teologia, porém, traz consequentemente uma série de dificuldades para a devida colocação das disciplinas. Por ex., como situar a história da Igreja nesse esquema? Certamente que esta é uma ciência histórica, mas não lhe compete tratar do todo único ao qual está ordenado o "auditus fidei", tais como exegese, teologia bíblica, história dos dogmas e suas ciências auxiliares. Particularmente se poderia entender a história da Igreja como história dos dogmas, ou mesmo como pressuposto da teologia prática enquanto esta deve conhecer o passado da Igreja para agir normativamente no presente. Igualmente a teologia moral se põe em dificuldade para situar-se em tal esquema de divisão. Esta caberia colocar-se como parte da teologia sistemática e mais particularmente como parte da antropologia teológica. Porém, seria concebível que a t. moral se incluísse na t. histórica para ressaltar o condicionamento histórico de suas afirmações e exigências materiais concretas; ou então poderia ser incluída na t. prática em sua totalidade e plenitude de atualização ética.

No geral as demais disciplinas teológicas usuais ou bem são partes de uma disciplina teológica mais ampla ou de uma ciência teológica auxiliar, ou bem são combinações de várias outras por motivos práticos ou técnicos de trabalho. Nesse particular vale acrescentar aqui uma outra possível divisão da teologia segundo o aspecto da matéria estudada. Esta possibilita ordenar a teologia segundo as disciplinas (T. apologética, T. dogmática, T. moral, T. espiritual, T. litúrgica, T. patrística, etc.) e segundo os tratados (Revelação, Igreja, Deus uno e trino, criação, encarnação, redenção, graça, Virtudes, sacramentos, Fins últimos). Enfim, vale dizer ainda que tais disciplinas em sua maior parte não tiveram um ponto de origem genuinamente teológico, mas surgiram em correspondência com o aparecimento de outras ciências profanas (cuja relação com a teologia trataremos no parágrafo seguinte).

[Página 6]

7. A TEOLOGIA E AS OUTRAS CIÊNCIAS

Atualmente existe um pluralismo de ciências com as quais a teologia tenta dialogar em vista não só da reconciliação de afirmações teológicas, bem como da confrontação com a "mentalidade" das ciências modernas. Tal diálogo está longe de realizar-se plenamente; mas todavia, a teologia, considerando a precária situação gnoseológica (i.é., o pluralismo das ciências, que não podem reduzir-se a uma síntese satisfatória) e também os métodos e resultados particulares dessas ciências, põe-se como a única que pode cobrir não apenas um setor da realidade, mas todo o real — no conjunto global do saber e da fé —, e por isso mesmo, sabe-se em condições de ajudar o científico a suportar humanamente tal situação. Na base, a tudo isso estava, ao início, a filosofia que tinha o monopólio da mediação científica da compreensão do homem e do conhecimento do mundo. Com o passar do tempo foram surgindo as outras ciências, antropologicamente mais importantes que a filosofia para a compreensão do homem — e inclusive para a teologia —, e estas já não se consideram mais como partes subordinadas ou ramificações da única filosofia, mas sim como autônomas de fato. "Se esta maneira de entender-se as modernas ciências não filosóficas está justificada ou não, é já outra questão" — diz Rahner. Para ele o que importa é que a teologia deve levar em conta tais ciências como seu interlocutor no diálogo que por si, tem efeito para ambas as partes.

Particularmente a teologia já mantém uma grande relação com as ciências antropológicas atuais e também com o conjunto das chamadas "ciências da religião" (tais como: história das religiões, psicologia da religião, filosofia da religião, sociologia da religião). No que diz respeito, por exemplo à relação da teologia com a história das religiões não se pode dizer que se contradizem uma à outra, ou mesmo que o objeto de uma e de outra seja claramente separável.

Já a relação da teologia com a filosofia é muito mais difícil de determinar, porque é muito mais complicada. Historicamente já o termo "teologia" não foi criado pela teologia, mas originou-se do pensamento grego, aparecendo pela primeira vez em Platão (Pol. II, 379a.). Entendia ele, por teologia, os mitos, as lendas e história dos deuses criticados filosoficamente e a partir dos cultos. Por sua vez Aristóteles, em consideração filosófico-metafísica do ente no seu Ser, construiu uma teologia ontológica ou "Filosofia primeira", enquanto tem por objeto o deus que é estudado nas suas relações e causas primeiras (Metaf. VI). Vê-se já o esforço, a partir das reflexões filosóficas, pelo conhecimento da divindade e do tema religião em geral. Deste forma, com a filosofia vai-se criando um conceito de teologia desde então distinto do da filosofia. Mas somente nos séculos IV e V o termo "teologia" foi aceito pela fé cristã de modo claro e definitivo para indicar o verdadeiro conhecimento de Deus. S. Agostinho a definirá como "ratio sive sermo de divinitate" (Civ. Dei VIII,1) (i.é.: o discurso sobre a divindade). Desde então (até o início da alta escolástica) a fé revelada foi estudada na sua relação com a filosofia. Mais tarde S. Tomás em sua reflexão, sublinhou o vínculo da teologia com a filosofia bem como sua distinção. A distinção foi entre a teologia natural dos filósofos (pela qual Deus pode ser conhecido como princípio e fim do conhecimento do mundo e de si) e a teologia relativa à sacra doctrina (na qual Deus é o sujeito de todos os enunciados) enquanto essa parte da automanifestação de Deus na sua revelação atestada pela Sagrada Escritura. Com isso S. Tomás não eliminou a teologia filosófica (mítico-cultural), antes, a reconheceu como parceira e lhe deu o verdadeiro sentido. Tradicionalmente se diz que, entre as ciências, somente a filosofia foi a serva da teologia e, mais particularmente, que só ela esteve em grau de ser tal "serva".

Contudo, uma pergunta se impõe: — Como podem coexistir a filosofia e a teologia, se ambas pretendem ser ciência fundamental, isto é, capaz de dar o esclarecimento da existência em absoluto e em sua totalidade, realizada pelo método científico e reflexivo, e ambas, igualmente têm a pretensão da universalidade? O que, como mostra a história, a teologia sempre pensou com meios filosóficos. Não se trata pois de negar a filosofia, pois mesmo ao se distinguir essencialmente entre natureza e graça, e entre conhecimento natural de Deus e revelação, já aí a teologia postula uma filosofia. Por sua vez a filosofia, enquanto reflexão transcendental sistemática, não pode apresentar-se como a interpretação concreta e salvífica da existência a ponto de substituir a religião (e a teologia) em sua dimensão concreta e histórica. Acima de qualquer especulação, no entanto, está Deus que é sempre maior que a filosofia e a teologia.

No entanto, enquanto Deus dá ao homem a capacidade da razão e também a capacidade de perceber a Sua revelação, então necessariamente, no processo de refletir, assimilar e interpretar a revelação o homem "filosofa" a partir da inteligência que tem em si. A razão filosófica tem então a função de clarificar, elaborar e sistematizar o conteúdo da fé e, assim, tornar compreensível a teologia pela inteligibilidade de suas deduções e conclusões. Em princípio, portanto, a teologia não pode servir-se de todas teorias filosóficas, pois algumas são irreconciliáveis com os dados da revelação divina. E atualmente já não se pode falar da relação da teologia com a filosofia sem levar em conta o pluralismo de filosofias, nascidas com a historicidade do homem e da insuperável pluralidade de suas fontes de experiências. Daí que a Igreja moderna não pode escolher uma filosofia exclusivamente. Por outro lado, tal pluralismo de filosofias condiciona também um pluralismo análogo de teologias.

[Página 7]

(Começamos aqui a mecionar algumas questões especiais da teologia na atualidade).

8. O PLURALISMO DE TEOLOGIAS E O "SER TEÓLOGO"

a) Tal pluralismo não é de todo novo na Igreja pois desde há muito tem havido escolas que defendiam opiniões opostas, uma vez que partiam de pressupostos distintos e desenvolviam diversos estilos de pensamentos teológicos. Em princípio, uns tinham conhecimento dos outros e se falava mais ou menos a mesma linguagem. Em geral, o método e o material com que trabalhava a teologia eram domináveis para os teólogos particulares. Hoje, porém, verifica-se um outro pluralismo de teologias, que não tem por que contradizer-se enquanto permanecem cristãs e católicas, i.é., referidas em obediência de fé à confissão una da Igreja. As causas de tal pluralismo são muitas e complexas. Primariamente está a variedade de pontos de partida e de linguagens filosóficas. Soma-se a isso o meio individual e social em que deve necessariamente trabalhar o teólogo. Mas não só isso: a quantidade de material exegético e da história dos dogmas é tão grande que nenhum homem particular está em condições de ter uma visão total da teologia e de dominá-la. Desta forma a teologia se desemembra em muitas teologias. Mas isso não significa que deverão estar simplesmente juntas umas com as outras sem relacionarem. Antes, será preciso um contínuo esforço para a tolerância mútua, para influência e crítica recíprocas. Por sua parte, o Magistério eclesial deverá promover novas maneiras de controle e de garantia deste pluralismo.

b) Uma questão paralela ao do pluralismo e que se impõe na atualidade é a da relação entre a teologia e ser teólogo. Como a teologia serve à Igreja, cuja missão específica é a proclamação da palavra de Deus, logo todo pregador (sacerdote ou bispo) deve ser teólogo, i.é., ter um conhecimento mais profundo e amplo da teologia. No entanto, a teologia e o ser teólogo não são realidades que estão reservadas exclusivamente aos sacerdotes e bispos. Tal carisma não pressupõe a natureza e a graça, e portanto pode dar-se mesmo em quem não é necessariamente entre os ministros oficiais. (Por ex., na Igreja primitiva o ofício de "ensinar" não estava ligado ao de presidir: cf. Rom 12,6ss; 1Cor 12,28s). Contudo, como pressuposto da pregação da Igreja como um todo, se requer uma teologia que deve estar necessariamente em mãos de "professores de teologia", com uma formação científica especial, com certa ética profissional, etc. Assim, cada teólogo há de ter o seu público, seja o que ensina na universidade, seja no monastério, ou na própria casa (escrevendo artigos, por exemplo). Este, porém, não deve ser solitário, mas continuamente confrontar suas reflexões teológicas com as experiências religiosas da comunidade. Tal atitude requer uma contínua auto-crítica de sua parte, seja quanto à linguagem quanto ao modo como sua prática cristã condiciona suas teorias teológicas. De fato, a teologia enquanto tal não deve perder o contato com o ambiente, nem deve em algum ambiente, perder a sua própria identidade ou, digamos, não conservar a identidade da Igreja. Daí a importância do diálogo seja com o homem quanto com Deus e seus mistérios.

[Página 8]

9. É A TEOLOGIA UMA IDEOLOGIA?

Eis uma outra questão que se impõe à teologia hodierna: suspeita de que seja uma ideologia enquanto esta não pode verificar sua ocupação com o 'transcendental' pelo método das ciências naturais "exatas". (Tal mentalidade tornou-se maior com a crítica da religião de Feuerbach e Marx). De fato, a teologia enquanto é "intellectus fidei" humano, historicamente condicionado e exposto ao abuso, é infinitamente distinto de Deus e da Sua palavra; e enquanto a teologia concreta é teologia de pecadores, não deve nem pode de antemão negar tal suspeita. Sim, a teologia humana é sempre suspeitosa de ideologia, e tem-se feito efetivamente culpável por cosificar-se nas ideologias das épocas e das sociedades particulares. Porém, a Palavra mesma de Deus, que se expressa na teologia e na pregação da Igreja, não é uma ideologia. Efetivamente uma teologia do "Deus semper maior" que supera infinitamente todos os pontos de partida e sistemas intramundanos, no qual Deus está realmente presente, e uma teologia da morte, aceita como nascimento do futuro absoluto, contradiz a todas as ideologias que só especulativamente se afirmam frente à realidade maior que as rodeia. Contudo, de sua parte, a teologia não pode simplesmente combater e intolerar as outras interpretações da existência do mundo que se deram na história.

[Página 9]

10. TEM AINDA CREDIBILIDADE A TEOLOGIA?

Um outro delicado problema para a teologia hodierna é quanto à sua credibilidade frente aos homens de nossa época. Estes, muito mais que nas épocas passadas (como no período do modernismo), de forma geral e a partir de sua situação total, são "relativistas", céticos e positivistas. Com tais atitudes, e a interpretação da essência da religião (e da teologia) que daí brota, a religião é considerada como algo irracional, onde não é possível a razão da fé. De sua parte a teologia deve ver com clareza esta situação e levá-la em conta; deve falar modesta e cautelosamente sobre o mistério e sobre o caráter meramente análogo de seus conceitos e a respeito de seu objeto. Deve desenvolver muito mais que antes a teologia fundamental e a dogmática, como uma unidade, e conectar uma e outra vez suas afirmações particulares com o núcleo autêntico da fé e da revelação. Deve sobretudo esforçar-se para fazer assimilável, existencialmente e intelectualmente, este núcleo, articulando-o com os muitos dogmas particulares. A exigência disso está em que cada enunciado de fé significa tanto para a credibilidade do fato da revelação divina em seu conjunto, como significa o todo para a credibilidade das partes.

Tal empenho teológico não deve ser comodamente deixado à mera autoridade formal do Magistério? Não; o programa da "Fides quaerens intellectum" está aberto à contribuição de todos os cristãos — e mais particularmente dos teólogos — que a devem considerar como uma sua responsabilidade parcial. E vale dizer que a palavra "quaerens" aqui, assume o seu preciso significado que caracteriza o trabalho teológico; não será jamais um discurso exaustivo e conclusivo sobre Deus.

(Assinatura ilegível: Carlos Eduardo da Silva)

[Página 10]

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

  • FRIES, H., Art. "Teologia" em Dicionário de Teologia, São Paulo, Ed. Loyola, 1971, Vol. V, pp. 297–311.

  • LATOURELLE, R., Teologia, Ciência da Salvação, São Paulo, Ed. Paulinas, 1981.

  • O'COLLINS, G., Teologia Fondamentale, Brescia, Ed. Queriniana, 1982.

  • (*) RAHNER, K., Art. "Theologie" em Sacramentum Mundi, Wien, Ed. Herder, 1969, Vol. IV, Cll. 860–874.

  • ———, Art. "Filosofia y teología" em Sacramentum Mundi, Barcelona, Ed. Herder, 1973, Vol. III, pp. 207–218.

  • THIELICKE, H., Art. "Theology" em The New Encyclopaedia Britannica, London, 15a. Edição.

(*) Artigo usado como texto-base para esta síntese.

Fim