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Boletim Arquidiocesano COMUNHÃO E PARTICIPAÇÃO
O BEM COMUM E AS GREVES
Não é novidade o fato de que vivemos uma crise sem precedentes. A insatisfação é generalizada. Talvez pior que a crise seja o fato de que não descobrimos ainda a raíz dos males que nos atingem, em vista do remédio adequado.
Muitas explicações são apresentadas, algumas superficiais, porque não atingem o âmago dos nossos problemas. Perdemos um tempo enorme discutindo a forma de governo ou mesmo a duração do mandato presidencial. As raízes da crise estão em nível bem mais profundo.
Reina um clima de desconfiança generalizado. O povo já não mais acredita na classe política e até mesmo nas instituições. Há, por outro lado, uma real incompatibilidade entre os interesses da Nação e os do Estado. Vê-se, portanto, que a verdade foi relegada a segundo plano. Os valores foram invertidos. Assistimos, perplexos, a uma total inversão de valores: a verdade é apresentada como mentira e, por sua vez, a mentira é apresentada como verdade. Numa tal situação é fácil prever que não iremos longe... Em "Eurico, o Presbítero", Alexandre Herculano, descrevendo a situação da Península Ibérica quando da iminência da invasão muçulmana, dizia, com muita propriedade, que, naquela situação o desastre era para já, desde que a classe política perdera totalmente para a contrução de uma sociedade com estruturas legais estáveis. Refiro-me aos valores transcendentais sem os quais é ilusão pretender construir algo sólido e duradouro. Recentemente um dos Marajás deste país, quando entrevistado pela TV, diante do resultado favorável do S.T.F. a respeito do seu salário, dizia, com cinismo, que "ele já esperava o resultado porque era legal e a lei tinha que ser cumprida". Ora, o que é legal nem sempre é legítimo e de acordo com a ética. Pode ser legal mas é absolutamente imoral a existência de "Marajás" num país em que mais de 40 milhões de sua população vive em miséria absoluta. Como concordar com uma lei que dá um salário de Cz$ 2.400.000,00 para um magistrado, enquanto 37 milhões de menores são totalmente carentes ? Os exemplos poderiam ser multiplicados...
Uma outra preocupação diz respeito à onda de greve que assola o país. É de se perguntar se os dirigentes desses movimentos grevistas estão conscientes para o dano que causam a outras pessoas. Há greves justas e injustas, oportunas e inoportunas. Uma pergunta se impõe nesse cipoal de contradições: na recente greve dos professores do estado da Bahia, sem entrar no mérito ou demérito do movimento, como ficará a situação dos nossos alunos, já às portas do fim do ano, considerando ainda a péssima qualidade do ensino ministrado ? As aulas serão efetivamente repostas ? Qual a garantia de que essas aulas serão ministradas, sem perda de sua qualidade, principalmente tendo presente o clima de festas de fim de ano ? Como ficará a situação desses milhares de alunos - esperança e futuro da nação - diante dos interesses de grupos que só pensam no imediato ? Condenamos merecidamente aos 20 anos de ditadura que infernizou a vida deste país; não nos apercebemos contudo, da ditadura de pequenos grupos "os grupos de poder", aliás condenados recentemente por João Paulo II. Onde está o bem comum ? Qual o conceito de bem comum sub-adjacente a esses movimentos ? O bem comum vale dizer, não se restringe apenas ao bem social externo; há outros aspectos não menos importantes e que merecem de todos nós uma séria reflexão. Refiro-me ao bem interno que, por sua vez, deverá estar subordinado ao bem eterno. Vivemos numa sociedade pluralista. No entanto, como cristãos não podemos perder de vista a nossa identidade. Como cristãos temos o dever de lutar - sem violência - para a implantação do bem comum: "o bem social externo, coordenado ao interno e subordinado ao Eterno". Os interesses maiores da pátria e da Religião devem suplantar os menores de grupo, individuais, muitas vezes menos nobres e algumas vezes espúrios.
Pe. Antonio Joaquim Pereira
Fim
Fonte: Boletim Arquidiocesano, nº 17 (1987)
