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VALORIZAR O ESSENCIAL
A situação se nos apresenta tão confusa que, muitas vezes, não somos capazes de distinguir entre o essencial e o acidental. Impressionante como gastamos tempo e energia com a discussão de temas secundários quando o principal permanece obscurecido.
Consequência dessa nossa falta de discernmento do que é prioritário, na Igreja, é o esquecimento que atinge todos nós. Com muita propriedade dizia o grande Alceu de Amoroso Lima que talvez o grande mal dos nossos tempos fosse o esquecimento. Impressionante nossa capacidade de esquecer. Creio que em nossos exames de consciência — também atualmente tão esquecidos — seria útil procurar-mos descobrir os condicionamentos inconscientes da nossa falta de memória. Refiro-me à Palavra do Papa, geralmente olvidada.
Em 10 de dezembro de 1980, João Paulo II escrevia aos bispos do Brasil uma carta alertando para a prioridade da catequese como fundamento para um melhor conhecimento de Jesus Cristo. A partir da Carta do Papa, colocamos a questão: Qual o cerne da missão da Igreja? Sua missão é essencialmente religiosa. Cumprir essa missão é a grande prioridade. Não se descura a presença da Igreja nas mudanças sociais, econômicas e políticas. A Igreja é sinal-sacramento da salvação; evidentemente, visa o homem todo; daí que também as dimensões sociais, econômicas e políticas não podem ser colocadas de lado, como algo de somenos importância. No entanto, até mesmo a presença da Igreja nas lutas pela promoção integral do homem perderia seu vigor, caso deixasse de lado sua missão prioritária. E essa, não podemos esquecer, consiste em ensinar e santificar (Cf. Mt 28, 19-20).
Como podemos aderir ao Cristo sem que o conheçamos? Como podemos segui-lo, como poderemos santificarmo-nos sem o conhecimento correto dos seus ensinamentos? (Cf. Rm 10,14 ss)
Voltando, pois, à carta de João Paulo II aos bispos brasileiros, encontramos lá a preocupação do Papa pela necessidade urgente da Catequese como meio necessário para a educação e o crescimento da fé, principalmente das crianças e dos jovens. Segundo o pensamento de João Paulo II, não se trata apenas daquela catequese que se caracteriza pelo ensino de fórmulas que exprimem a fé (Cf. C.T. nº 26), mas, em sentido amplo, "um iniciar toda a vida cristã, levando para tanto a participação plenamente nos Sacramentos da Igreja" (Cf. C.T. nº 33). Subjacente a esse pensamento do Papa está a santificação. É aqui que está, primordialmente, a missão da Igreja: ensinar e santificar.
Nada mais oportuno que relembrar o ensinamento da Igreja, através da voz do Papa João Paulo II. Nesse sentido, a CNBB, atendendo ao apelo do Papa, tratou, diligentemente, da catequese, com a participação ampla de catequistas de todo o Brasil. Como resultado desse encontro, foi elaborado o documento "Catequese Renovada" (Assembleia de 1983), aprovado pe...
É urgente, pois, conscientizar-mos das graves responsabilidades que pesam sobre todos nós, leigos e clero, a respeito da Catequese em nossa Arquidiocese. As nossas escolas, em sua grande maioria, estão sem catequistas. E não se diga que a Catequese seria esforço perdido e semente lançada em terra estéril. Em recente pesquisa promovida pela SURED I-A (órgão da Secretaria da Educação do Estado da Bahia, com responsabilidade pelos colégios do Centro, Brotas e Orla, até o Rio Vermelho) nos seus 105 estabelecimentos de ensino, quase 100% responderam dizendo que desejavam o Ensino Religioso nas Escolas. Os formulários dessa pesquisa constituem, inegavelmente, um grito profético de um povo oprimido em busca da libertação, em busca de Deus. Em outras palavras, há um desejo manifesto e latente por parte dos professores e alunos — estes últimos o futuro da Igreja no Brasil e no mundo — por um alimento que não se confunde apenas com o pão material mas que é fome e sede de Deus. Estamos preparados para alimentar tanta gente? "Não é preciso que vão embora. Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14,16).
Há todo um trabalho a ser feito no sentido de preparar-mos professores e catequistas para atender-mos ao apelo do Papa que, no fundo é o apelo de Deus. Além disso, esse trabalho precisa levar em consideração as necessidades atuais, ou seja, a adequação da doutrina perene do Evangelho aos novos métodos e questões suscitados pela complexa realidade em que vivemos. O desafio é grande, não podemos negá-lo. No entanto, o estabelecimento do Reino de Deus, tarefa de todos nós na Igreja pressupõe separar, com muita clareza, o que é secundário, fervorino, triunfalismo, etc. do que é a grande prioridade da Igreja em todos os tempos, em todas as culturas, em todos os povos: levar os homens ao conhecimento de Jesus Cristo, enfim, ensinar e santificar.
Pe. Antonio Joaquim Pereira Neto.
Fim
Fonte:
Boletim Arquidiocesano COMUNHÃO E PARTICIPAÇÃO, nº17 (1987)
