PLANO DE AULA
I. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO
Universidade Federal da Bahia
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Professor: PAULO DE FIGUEIREDO
Disciplina: Filosofia Geral
Data: ...... .....
II - ASSUNTO CENTRAL:
"A PESSOA COMO O SER MAIS PERFEITO DO UNIVERSO"
III - OBJETIVOS:
Os alunos deverão identificar, num primeiro momento, a noção de Pessoa, mediante uma rápida resenha histórica e, em seguida, compreender a razão por que a Pessoa é o ser mais perfeito do universo, através da reflexão metafísica da Autotranscendência, que implica a espiritualidade do homem; o que será possível pelo esquema e resumo distribuídos, a exposição a ser feita e os textos anexos. O desempenho será satisfatório se os alunos captarem a Noção de Pessoa na filosofia medieval e contemporânea e souberem explicar, através da Autotranscendência, por que a Pessoa é o ser mais perfeito.
IV - CONTEÚDO: ESQUEMA GERAL
Introdução
I. Súmula Histórica da Noção de Pessoa
1.1) A Pessoa e a Filosofia Greco-Latina
1.2) A Pessoa e a Patrística
1.3) A Pessoa e a Filosofia Medieval
1.4) A Pessoa e a Filosofia Moderna
1.5) A Pessoa e a Filosofia Contemporânea
II. A Pessoa: ser mais perfeito do Universo
Considerações Prévias
2.1) Noção da Autotranscendência
2.2) Significado(s) da Autotranscendência
2.3) Autotranscendência - Natureza Espiritual - Perfeição do homem
Conclusão
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RESUMO:
"A PESSOA COMO O SER MAIS PERFEITO DO UNIVERSO"
INTRODUÇÃO:
1) O problema da Pessoa está no centro das preocupações da Filosofia (cf. Personalismo), das Ciências Humanas em geral (cf. psicólogos, psicanalistas, educadores, juristas, políticos). O respeito aos direitos da Pessoa Humana encontra-se no centro das discussões ideológicas: o respeito aos direitos humanos constitui-se o crivo da validade e legitimidade de determinada ideologia ou sistema político.
Fala-se muito a favor da Pessoa humana: intuitivamente, se atinge o seu valor e perfeição no universo. Aqui, devemos aprofundar, filosoficamente, esta questão.
2) Seguiremos o roteiro seguinte: em primeiro lugar, responderemos à questão: "O que é a Pessoa", para, logo em seguida, na segunda parte, compreendermos por que "a Pessoa é o ser mais perfeito do Universo".
I. SÚMULA HISTÓRICA DA NOÇÃO DE PESSOA
1.1) A Pessoa e a Filosofia greco-latina:
Os gregos desconhecem essa realidade metafísica. Falta-lhes, inclusive, a terminologia apropriada: cara, máscara do autor. Os latinos, igualmente, não conheceram ambas as coisas: "Persona" deriva, provavelmente, de "Personare" = ressoar; máscara que ampliava a voz do ator. O latim elaborou o termo a partir, provavelmente, do termo etrusco: "Fersu" = rótulo da representação de dois mascarados.
Teria Sêneca usado o termo "Persona" em sentido metafísico, ao tempo em que valorizou, extraordinariamente, o homem como indivíduo particular?! Suas expressões mostram que não: "Malit habere personam quam faciem" (De Beneficio II, 13, 2: "Prefere usar a máscara que o próprio vulto"); "Nemo potest personam diu ferre" (De clem. I, 1, 6: "Ninguém pode carregar a máscara por muito tempo") etc.
1.2) A Pessoa e a Patrística:
Por conseguinte, autores diferentes reconhecem o fato de os Clássicos desconhecerem a Realidade e a Terminologia: com efeito, a Realidade Metafísica e a terminologia são de Origem Cristã (ao lado de "Criação"): cf. E. Zeller, Die Philosophie der Griechen in ihrer geschichtlichen Entwicklung, Leipzig, p.843; E. Mounier, Il Personalismo, AVE Roma, pp. 14-16; R. Garaudy, Qu'est-ce que la morale marxiste? Ed. Sociales, Paris, p. 63.
1.2.1) A patrística, as disputas trinitárias e cristológicas dos primeiros séculos do Cristianismo aprofundaram o Dado BÍBLICO: vg. Sto. Agostinho, De Trinitate VII, 6, 11 e XV, 7, 11: procura um termo apropriado a traduzir o mistério da SSma. Trindade, um termo que não faça do Pai, do Filho e do Espírito Santo três deuses e que, por outro lado, não os dissolva numa só natureza ou essência. Encontra-o e no latino "persona", que "não significa uma espécie, mas algo de singular e de individual". Neste sentido, pode dizer que Deus é uma Natureza e três pessoas; que Cristo tem 2 naturezas e uma pessoa.
Agostinho, ademais, acrescenta: "Singulus quisque homo una persona est": Valorizando, de modo particular, o pensamento, o bispo de Hipona une os caracteres de unidade e singularidade, com os quais define a pessoa, ao poder do intelecto (mens): "Singulus quisque homo, qui ... secundum solam mentem imago Dei dicitur, una persona est e imago Trinitatis in mente".
1.2.2) São João Damasceno na linha da reflexão de Gregório Nazianzeno, que, resolutamente, destacara o significado de "persona" da máscara do teatro e acentuara as notas de "Totalidade, independência e inteligência" como características da pessoa oferece uma definição de pessoa ainda hoje atual: "Pessoa é aquilo que, exprimindo a si mesmo através de suas operações e propriedades, coloca uma manifestação de si que o distingue dos outros com a sua mesma natureza" (Dialect. c.43, in Migne P. G., 94, col. 613).
1.3) A Pessoa e a Filosofia Medieval:
1.3.1) É básica a definição de pessoa, dada por Severino Boécio, in: "Contra Eutichen et Nestorium" c.4: "Persona est rationalis naturae individua substantia".
1.3.2) Sto. Tomás d'Aquino repete a definição de Boécio e formula outras com o mesmo teor: vg: "Omne individuum rationalis naturae dicitur persona" (S. theol. I, 29, 3 ad 2).
A pessoa, segundo Tomás d'Aquino, pq. autônoma no ser ou pq. possui o próprio ser a pessoa é "Ens in se" e "Ens per se" é incomunicável. Aliás, a incomunicabilidade é tríplice: "Antes de tudo, o indivíduo que é pessoa não se pode comunicar com as outras coisas como parte, sendo um todo completo; depois, não se pode comunicar como o universal se comunica com os singulares, porquanto a pessoa é algo de subsistente; enfim, não se pode comunicar como algo de assumível porque o que é assumível ocorre na personalidade do assumente e não há mais uma personalidade própria. Não é, porém, contrária ao conceito de pessoa a capacidade de assumir" (In III Sent. d.5 q.2, a.1 a 2m). Em outras palavras, a pessoa é um ser completo (assim, o braço ou o coração da pessoa não é a pessoa); é um ser singular (desse modo a humanidade não é a pessoa); é um ser distinto (contra a possibilidade de duas pessoas se fundirem).
A pessoa é, acima de tudo, um ser racional e intelectual. Sto. Tomás, na linha de Agostinho, acentua, sobremaneira, esta característica. Analisando e desenvolvendo-a, como bem observa Dalle Nogare, Sto. Tomás pode afirmar: "A pessoa significa o que há de mais perfeito em todo o universo, isto é, o subsistente de natureza racional" (Sum. theol. I, 29,3).
Adiante, na parte reflexivo-metafísica, aludiremos ainda ao pensamento tomista. Assinalamos as seguintes fontes de aprofundamento: V. Degl'Innocenti, Il Problema del Persona nel pensiero di S. Tommaso d'Aquino, PUL, Roma, 1967; L. Pitteri, La Persona humana, sua structura ontologica nella filosofia di Tommaso d'Aquino.
1.3.3) De acordo com Stefanini, os doutores da filosofia escolástica acentuaram, sempre, as seguintes características da pessoa: "Inseidade (ens in se), perseidade (ens per se), singularidade, subsistência (amiúde usada em lugar de substancialidade), integridade, perfeição, incomunicabilidade".
Significativa, por fim, de toda a preocupação escolástica em torno da pessoa é a etimologia sugerida por Alano de Lilla (Theologicae Regulae, seg. 32, in Migne PL, 210, col. 637): persona ut "RES PER SE UNA". Em razão disso, o busílis do debate escolástico foi determinar o verdadeiro constitutivo da pessoa em face do indivíduo.
1.4) A Pessoa e a Filosofia Moderna
1.4.1) Com René Descartes começa a aparecer uma outra definição de pessoa. Já não se acentua a autonomia no ser, com suas consequências. Insiste-se, agora, na autoconsciência: "Cogito, ergo sum". A pessoa pensa a si mesma e tem a consciência de não ser puro sonho ou ilusão. Ia idéia clara e distinta!
1.4.2) A pessoa como "ser que possui Autoconsciência" influenciou toda a filosofia moderna: ser homem é ser autoconsciente ou a Pessoa é autoconsciência: cf. Hume, Fichte, Hegel, Schelling, G. Gentile. Mais recentemente: Jean Paul Sartre: é inegável que a distinção básica entre o "Pour-soi" e o "En-soi" encontra-se na consciência, cuja função negadora em face do mundo é fundamental na filosofia sartreana.
1.4.3) I. Kant, in: "Fundamentos da metafísica dos costumes" diz: "Os seres racionais são chamados pessoas porque a sua natureza os distingue como fins em si... o homem e em geral cada ser racional existe como um fim em si e não somente como um meio de que esta ou aquela vontade pode servir-se a seu bel-prazer". Consequentemente, dentro da problemática típica de Kant o traço característico da pessoa passa a ser: ser fim a si mesma.
1.5) A Pessoa e a Filosofia Contemporânea
A Filosofia moderna encerrou-se com a apoteose da Dialética hegeliana. A acentuação moderno-racionalista do homem como autoconsciência terminou por reduzi-lo a um momento, quiçá, insignificante, do movimento tritético da Idéia identificada ao Real. Em reação a tudo isto, a filosofia contemporânea voltou-se, em várias frentes, para a reflexão sobre a pessoa. Aludiremos a algumas apenas:
1.5.1) Sören Kierkegaard: a realidade fundamental é o homem: chama-o "Singular". Destarte, o Universal Espiritual de Hegel e o Universal humano de Marx são puras abstrações. O Singular conquista-se mediante a liberdade que é Angústia: o verdadeiro singular, finalmente, é aquele que, pela e na Fé, lança-se nas mãos de Deus. Quem não o fizer viverá de um dos 3 tipos de Desespero: Desespero de nem saber ter um eu próprio; Desespero Feminino; Desespero Masculino.
Com Kierkegaard, em suma, a temática da pessoa é fundamental: acentua a singularidade, já presente na filosofia escolástica como decorrente da autonomia no ser e sendo uma das expressões da incomunicabilidade. Mas, as palavras enganam e o enfoque Kierkegaardiano não é o escolástico: o singular é captado, não mediante uma análise essencialisto-metafísica, mas através da categoria existencial. Como disse Lotz: "A filosofia existencial /.../ oriunda de Kierkegaard e preparada por Scheler advoga de novo a causa da pessoa; desloca, todavia, exageradamente a essência da mesma para o que é inerente ao ato, embora seja verdade que o homem se eleva à autenticidade /.../ só pela decisão com que aceita o seu ser".
A perspectiva Kierkegaardiana fez-se presente, naturalmente com enfoques particulares e irredutíveis, na problemática de todos os filósofos existencialistas: Karl Barth, Karl Jaspers, G. Marcel, J. P. Sartre, Heidegger e tantos outros.
1.5.2) O Personalismo:
A) Charles Renouvier, em 1903, com "Le Personnalisme", deu início a uma corrente filosófica, cuja temática fulcral é a pessoa. Para ele, o caráter específico da Pessoa é o Conhecimento: não é nem um conhecimento criador, como afirmaram os idealistas, nem um conhecimento de caráter fenomênico, como assegurava I. Kant. Dá-se, aqui, um retorno à perspectiva augustiniano-tomista e escolástica em geral: a pessoa como Conhecimento é, fundamentalmente, abertura ao mundo e abertura ao Absoluto. Pode conhecer a Pessoa primeira e criadora. Ademais, "a hipótese de um mundo existente por si, eterno, não é mais do que a de um mundo que possa dar razão a si mesmo da sua existência" (Le Personnalisme, Parte VIII).
B) E. Mounier, idealizador e criador da comunidade de "Les murs blancs", é, sem dúvida, o filósofo do Personalismo mais conhecido.
a) Com referência às seguintes questões: traços biográficos, obras, contexto; Objetivo primordial e modelos empíricos de sociedade: cf.
b) Quais as principais características da pessoa? (Le Personnalisme):
A pessoa é, antes de tudo, "existência incorporada", "existência encarnada": "Não posso pensar sem ser e ser sem o meu corpo; por meio dele eu estou exposto a mim mesmo, ao mundo, aos outros; por meu meio eu fujo da solidão de um pensamento que seria apenas o pensamento do meu pensamento. Negando-me a conceder uma completa transparência para mim mesmo lanço-me continuamente para fora de mim, na problemática do mundo e na luta do homem".
A pessoa é Transcendência em face da natureza: "o homem caracteriza-se por uma dupla capacidade de destacar-se da natureza; é o único que conhece este universo que o engole e o único que o transforma, ainda que seja o menos aguerrido e o menos potente de todos os grandes seres animados".
A pessoa é comunicação: "O primeiro movimento que revela um ser humano na primeira infância é um movimento em direção aos outros; a criança dos seis aos doze meses, saindo da vida vegetativa, descobre-se a si mesma nos outros. É somente mais tarde, perto dos três anos, que haverá a primeira onda de egocentrismo consciente... A primeira experiência da pessoa é a experiência da segunda pessoa: o tu e, portanto, o nós vêm antes do eu, ou pelo menos o acompanham. É na natureza material (à qual estamos parcialmente submetidos) que reina a exclusão, porquanto um espaço não pode ser ocupado duas vezes; a pessoa, por sua vez, através do movimento que a faz existir, expõe-se, porque é por natureza comunicável e é antes a única a sê-lo".
A pessoa é Dinamismo: "A vida da pessoa é a busca até a morte de uma unidade pressentida, cobiçada e que não se realiza nunca".
A pessoa é Vocação: "Cada pessoa tem um significado tal que não pode ser substituída no lugar que ocupa no universo das pessoas".
A pessoa é Liberdade: essa "não é ligada indissoluvelmente ao ser pessoal como uma condenação (Sartre), mas lhe é proposta como um dom; ele pode aceitá-la ou rejeitá-la".
c) Além disso, Mounier está convencido de que a pessoa é o centro do universo: "Deve-se reconhecer que a realidade central do universo é um progredir para a personalização, que as realidades impessoais, ou mais ou menos despersonalizadas (a matéria, as espécies vivas, as idéias) não são senão perdas de velocidade, langores da natureza no caminho da personalização". Como não perceber, aqui, a influência de Teilhard de Chardin, para quem o homem é o "ponto ômega minúsculo", preparado pela complexificação-interiorização crescente da matéria pré-humana?!
C) M. Nédoncelle:
a) Com uma metodologia que se inspira em Gabriel Marcel (para este a abordagem científica do homem e de Deus coisifica "o mistério": cf. "Position et Approches concrètes du Mystère Ontologique"), Nédoncelle crê que o método fenomenológico e o método metafísico se devam meiar no estudo do homem. Aliás, é essa, também, a posição de G. Mondin in O homem, quem é ele?! Elementos de Antropologia Filosófica.
b) A relação Eu-tu constitui o fato primitivo: a consciência não se pode subtrair sem tender a suprimir-se. A dualidade Eu-Objeto supõe a dualidade eu-tu: esta é reciprocidade. E a reciprocidade é amor. Neste sentido, a relação fundamental é o nós, que resiste a toda força centrífuga: comunhão, consciência colegial, vontade de mútua promoção, que se alarga numa dimensão universal e tem, finalmente, como centro e fundamento o Tu por excelência ou seja Deus, tudo isto é o Amor, bem como a natureza da pessoa revelada por Amor.
c) A pessoa para se personificar deve combater todas as formas do impessoal e do anti-pessoal (o mal): a pessoa não se constrói sem riscos. Sem a intervenção do Deus-Caridade, inclusive, a pessoa mais facilmente se desfaz (cf. M. Nédoncelle, Vers une philosophie de l'amour de la personne, Paris, 1957).
D) Martin Buber em "Ich u. Du", palmilhando a mesma estrada de Mounier, Nédoncelle, Marcel, estabelece dois tipos de relação fundamental:
a) A relação "Ich-Es": aquela do homem com as coisas.
b) A relação "Ich-Du": aquela do homem com o homem.
a) A primeira relação - "Ich-Es" - tem o caráter do monopólio e os aspectos de: experimentação, objetividade, utilização, posse, fatalidade, arbítrio.
b) A segunda relação - "Ich-Du" - tem o caráter do diálogo e os aspectos de: encontro, presença, liberdade, amor, destino, ser.
c) A segunda relação pode, no entanto, ser adulterada e vivida como a primeira: um tu, então, se transforma numa "Coisa-Pessoa". Em consequência: o tu afirma "Je serai ton esclave et ta chose", como Electra a Zeus num drama de Sartre e o Eu, por seu turno, também se perde pois "Eu tenho origem na minha relação com o tu; quando eu me torno Eu, então digo tu".
II. A PESSOA: SER MAIS PERFEITO DO UNIVERSO
CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS: Depois de responder, na primeira parte, à pergunta: o que é a pessoa?, urge considerá-la como o ser mais perfeito do universo.
a) Pedro Dalle Nogare (na revista: Presença Filosófica, 1974, nºs 1,2,3, pp. 100-113) desenvolve este tema sob o ponto de vista de Santo Tomás: o homem é, sobretudo, ser racional; consequentemente, seu corpo e espírito são os mais perfeitos no mundo; por fim, o homem é o valor absoluto.
b) Seguiremos outra estrada: analisando a Autotranscendência do homem, indicada por J. de Finance (Essai sur l'agir humain, PG, Roma, 1962) e por B. Mondin (O Homem, quem é ele? Elementos de Antropologia Filosófica, Ed. Paulinas, 1980).
c) Afirma B. Mondin (depois de definir a pessoa como: um indivíduo dotado de autonomia quanto ao ser (= Boécio, Tomás, R. Guardini), de autoconsciência (= Descartes, Fichte, Hegel), de comunicação (= Marcel, Mounier, Nédoncelle, Buber) e de autotranscendência (= Blondel, Heidegger, Brightman)): "de todos esses elementos o que ilustra melhor a grandeza da pessoa humana e faz entender mais profundamente as suas características é /.../ a autotranscendência" (op. cit. p. 297).
d) Da dupla metodologia para explanar a autotranscendência: tomaremos a peito o método metafísico (Mondin: Método Fenomenológico X M. Metafísico).
2.1) NOÇÕES DE AUTOTRANSCENDÊNCIA
2.1.1) De transcendência, em sentido sensível "estar além das nuvens"; passou-se à Transcendência, em sentido abstrato "o mundo do espírito transcende o da matéria". Deste, a Transcendência passou a significar, na idade moderna, a própria Substância Divina e, contemporaneamente, a transcendência passou a ser aplicada ao sujeito: é a autotranscendência.
2.1.2) Autotranscendência, abstratamente, divide-se em: Autotranscendência Horizontal ou Histórica ("Passage", em De Finance) e Autotranscendência Vertical ou Metafísica ("Dépassement").
A autotranscendência horizontal ou histórica é aquela em que o homem efetua a superação de si mesmo, olhando para a frente, orientando-se para as coisas futuras no pensar, no querer e no agir. Divide-se em: Egocêntrica e Filantrópica.
A autotranscendência vertical ou metafísica é aquela em que o homem se ergue sobre si mesmo, olhando para cima e notando a própria finitude.
2.2) SIGNIFICADO(S) DA AUTOTRANSCENDÊNCIA
2.2.1) Concepção Egocêntrica
A) Comum a filósofos de orientações tão diferentes - Platão, Aristóteles, Estóicos, Descartes, Feuerbach, Hegel, Sartre, Nietzsche, Heidegger - a Autotranscendência seria: o esforço do homem, contínuo e ingente, para superar-se, para transpor a situação precária e indigente em que se encontra, com vistas à obtenção de um próprio ser mais verdadeiro e autêntico, de uma situação mais plenamente humana. Numa palavra: o homem, este ser insatisfeito, projeta-se, de contínuo, em busca de si mesmo.
B) Pessoalmente, com De Finance e Mondin, acreditamos que tal concepção é verdadeira em seus limites: com efeito, a autotranscendência não é imolação de si mesmo. É ela procura de um ser pessoal mais perfeito.
Por outro lado, é uma interpretação limitada, na medida em que deixa aberta uma questão de magna importância: qual a garantia do processo de autotranscendência? Como não o confundir com o esforço insensato e vão?! Todos os autores citados depositam nas mãos frágeis do próprio homem esta formidável iniciativa... e a vida, prestes, nos ensina que os acontecimentos, amiúde, ultrapassam nossas iniciativas, projetos e intenções.
2.2.2) Concepção Filantrópica
A) A partir de Karl Marx e A. Comte e acentuada, recentemente, por autores como E. Bloch, Marcuse, R. Garaudy, surgiu a Concepção Filantrópica da Autotranscendência, cujo conteúdo é o seguinte: o homem, de modo permanente, supera os angustos e estreitos quadros da própria existência, em busca da edificação de uma sociedade justa e humana. A "Humanidade autenticamente humana", eis a razão de ser da autotranscendência de cada homem autêntico.
B) Esta interpretação parece-nos conter, mais uma vez, uma profunda verdade em seus limites: a realização da pessoa humana não poderá ser um evento individual, considerando-se o fato de que a pessoa é, fundamentalmente, relação, convivência, como bem acentuaram E. Mounier, Nédoncelle, Buber e tantos outros.
Por outro lado, como notou J. de Finance e Mondin, esta interpretação deixa em aberto duas interrogações fundamentais:
Em primeiro lugar, qual a garantia de que o esforço de cada um e da humanidade atual não seja uma luta inglória?! Afinal, evoluímos de fato?! Sob tantos aspectos, constatamos um real progresso; sob tantos outros, deparamos com uma involução... Neste sentido, a "Gaudium et Spes" nº 4 e 8, analisando a real situação da humanidade fala de "Paradoxos", isto é, o entrelaçamento de aspectos positivos e negativos.
Em segundo lugar, como notou H. Gollwitzer, in: La critica marxista della religione e la fede cristiana, admitida a consecução do ideal de uma Humanidade perfeitamente humana; a realização da humanidade amanhã - vg. daqui a 200 anos! - esta não será a realização do homem singular de hoje. A interpretação filantrópica não tem palavras à esperança, que mecha em cada coração.
2.2.3) Concepção Metafísica ou Teocêntrica
A) M. Blondel, G. Marcel, K. Rahner, Metz, Boros, Lonergan e De Finance, todos de inspiração cristã, avançam a interpretação teocêntrica da Autotranscendência humana, cujo conteúdo fundamental é o seguinte: o homem abandona, permanentemente, os quadros existenciais vigentes; encontra-se polarizado para além de si mesmo; o homem "ex-sistere" numa palavra, pq. é atraído e convidado, no seu ser, a agir e pensar, por Deus. A reflexão de Blondel analisa, com perspicácia incomum, a tensão transcendental no âmbito dessas três dimensões: ser, agir e pensar.
B) Esta interpretação parece-nos ser a mais correta, congraçando as exigências das duas anteriores e atalhando suas dificuldades. Numa palavra, ela corresponde à exclamação de Santo Agostinho, que é também o anelo de todo homem: "Inquietum est cor nostrum, Domine, donec non requiescat in Te".
Há, no entanto, uma dificuldade que, em geral, é aventada: esta interpretação supõe a existência de Deus, realidade que parte significativa da filosofia moderna e contemporânea não está disposta a admitir; o agnosticismo ou mesmo o ateísmo declarado pervagam muitas filosofias.
A resposta de todos os autores desta interpretação e também a nossa é a seguinte: na verdade, esta tradução da autotranscendência humana não pressupõe a existência de Deus. Ao contrário, a autotranscendência, enquanto movimento que exige uma finalidade - caso contrário, não seria compreensível! -, é um claro testemunho a favor da existência de Deus.
Por outro lado, fica patente que a Transcendência horizontal - seja egocêntrica ou filantrópica - e a transcendência vertical não se excluem, reciprocamente. Esta, aliás, é a verdade já assinalada por Merleau-Ponty, in: "Signes": "Não foi jamais típica de nenhuma filosofia a escolha entre transcendências: por exemplo, a de Deus e a do acontecer humano; pois, antes, é esforço constante de cada filosofia mediar tais transcendências".
Em suma, como diz Joseph de Finance (op. cit. p.191): "O que é necessário reconhecer é que o impulso em direção do Ideal não é possível e não tem significado senão por causa da presença atraente e como que aspirante do Ideal Subsistente ou, para dar-lhe o nome sob o qual o invoca a consciência religiosa, de Deus. É Ele e Ele somente o Outro Absoluto e não menos a fonte de minha ipsidade que, embora me dando a mim mesmo, arranca-me do meu eu; é a presença que introduz em mim um princípio de tensão interior e de ultrapassagem".
2.3) AUTOTRANSCENDÊNCIA - NATUREZA ESPIRITUAL - PERFEIÇÃO DO HOMEM
2.3.1) Após os esclarecimentos em torno da Noção de Autotranscendência (cf. 2.1) e do(s) significado(s) da mesma realidade, mediante a aplicação do método metafísico (cf. 2.2) na suposição evidentemente do método fenomenológico, podemos prosseguir nossa pesquisa com a seguinte questão: qual a explicação suficiente da autotranscendência como tal?! Essa questão muito nos interessa, pois atinge o objetivo do presente estudo.
Se é verdade que pela Autotranscendência - e estamos plenamente convencidos disso! - o homem busca, incessantemente, a Deus, único Ser capaz de saciá-lo em relação ao anelo infinito que o invade; a razão suficiente para explicar este salto permanente para fora de si, para além de todo imediato e do mundo em sua globalidade, só pode ser uma realidade não sujeita às categorias do tempo, do espaço, da quantidade: uma realidade espiritual, em síntese!
"Agere sequitur Esse" - e esta é uma formulação dinâmica do Princípio de Identidade! - então: o homem não se satisfaz nunca com os horizontes tangíveis, ultrapassa-os permanentemente, porque é Espírito!
2.3.2) Na verdade, o homem, situado no mundo, com os pés no chão, partícipe da natureza, apresentando-se como o derradeiro rebento de 15 bilhões de [anos de] aventura do universo, ultrapassa-os pelo espírito: o homem é, substancialmente, corpo e espírito!
a) Não se trata de considerar esta união do corpo e do espírito como algo acidental, na perspectiva de Platão e dos seus discípulos mais famosos de ontem e de hoje: Plotino, Agostinho, Boaventura, Descartes, Malebranche, Leibniz etc. Não se fala, aqui, da união "do timoneiro ao navio" ou "do cavaleiro ao cavalo" ou da "teoria da harmonia preestabelecida" e "ocasionalismo".
b) Não se trata, mais ainda, de eliminar um dos dois elementos da união substancial humana: a alternativa entre Idealismo ou Materialismo, como se acentuou depois de Descartes.
c) Trata-se de compreender a união do corpo e da alma, como o fez Sto. Tomás: é uma união profunda, substancial e duradoura. O corpo e a alma formam uma única substância; eles têm um único ato de ser, o da alma; dele se torna participante também o corpo no momento da sua geração (Confronte-se: Summa theol. I, 75,2: a alma, pq. opera para si mesma, subsiste por si mesma; c/ Summa theol. I, 75,4: o sentir não é uma operação só da alma, logo o homem é corpo e espírito).
2.3.3) Manifesta-se, então, em consonância com todas as considerações anteriores, a razão pela qual a "Pessoa é o ser mais perfeito do universo".
O homem, de fato, está colocado como "Pontifex" entre o visível e o invisível! Coroa do universo, ele o ultrapassa. É o ponto ômega minúsculo. Em suma: o ser mais perfeito do universo.
Como descreveu com maestria Teilhard de Chardin: "Tendo chegado /.../ a um ponto crítico de coordenação (ou como dizemos, aqui, de enovelamento) a vida se hipercentralizou sobre si mesma, no ponto de tornar-se capaz de previsão e invenção. Ela se tornou consciente em segundo grau" (Groupe Zoologique, p.79); "A consciência, pela primeira vez na terra, dobra-se sobre si mesma, até se tornar pensamento" (Réflexions sur l'ultrahumain, p.52): "Não é só a primeira vez, mas também a única vez que esse passo foi dado" (Groupe Zoologique, p. 79).
CONCLUSÃO:
[Manuscrito ilegível no final do documento]
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