📺️(1114)_Plano de Aula] Prof Paulo de Figueiredo] A PESSOA COMO O SER MAIS PERFEITO DO UNIVERSO

 


PLANO DE AULA

I. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO

Universidade Federal da Bahia

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

Professor: PAULO DE FIGUEIREDO

Disciplina: Filosofia Geral

Data: ...... .....

II - ASSUNTO CENTRAL:

"A PESSOA COMO O SER MAIS PERFEITO DO UNIVERSO"

III - OBJETIVOS:

Os alunos deverão identificar, num primeiro momento, a noção de Pessoa, mediante uma rápida resenha histórica e, em seguida, compreender a razão por que a Pessoa é o ser mais perfeito do universo, através da reflexão metafísica da Autotranscendência, que implica a espiritualidade do homem; o que será possível pelo esquema e resumo distribuídos, a exposição a ser feita e os textos anexos. O desempenho será satisfatório se os alunos captarem a Noção de Pessoa na filosofia medieval e contemporânea e souberem explicar, através da Autotranscendência, por que a Pessoa é o ser mais perfeito.

IV - CONTEÚDO: ESQUEMA GERAL

Introdução

I. Súmula Histórica da Noção de Pessoa

1.1) A Pessoa e a Filosofia Greco-Latina

1.2) A Pessoa e a Patrística

1.3) A Pessoa e a Filosofia Medieval

1.4) A Pessoa e a Filosofia Moderna

1.5) A Pessoa e a Filosofia Contemporânea

II. A Pessoa: ser mais perfeito do Universo

Considerações Prévias

2.1) Noção da Autotranscendência

2.2) Significado(s) da Autotranscendência

2.3) Autotranscendência - Natureza Espiritual - Perfeição do homem

Conclusão

================================================================================

RESUMO:

"A PESSOA COMO O SER MAIS PERFEITO DO UNIVERSO"

INTRODUÇÃO:

1) O problema da Pessoa está no centro das preocupações da Filosofia (cf. Personalismo), das Ciências Humanas em geral (cf. psicólogos, psicanalistas, educadores, juristas, políticos). O respeito aos direitos da Pessoa Humana encontra-se no centro das discussões ideológicas: o respeito aos direitos humanos constitui-se o crivo da validade e legitimidade de determinada ideologia ou sistema político.

Fala-se muito a favor da Pessoa humana: intuitivamente, se atinge o seu valor e perfeição no universo. Aqui, devemos aprofundar, filosoficamente, esta questão.

2) Seguiremos o roteiro seguinte: em primeiro lugar, responderemos à questão: "O que é a Pessoa", para, logo em seguida, na segunda parte, compreendermos por que "a Pessoa é o ser mais perfeito do Universo".

I. SÚMULA HISTÓRICA DA NOÇÃO DE PESSOA

1.1) A Pessoa e a Filosofia greco-latina:

Os gregos desconhecem essa realidade metafísica. Falta-lhes, inclusive, a terminologia apropriada: cara, máscara do autor. Os latinos, igualmente, não conheceram ambas as coisas: "Persona" deriva, provavelmente, de "Personare" = ressoar; máscara que ampliava a voz do ator. O latim elaborou o termo a partir, provavelmente, do termo etrusco: "Fersu" = rótulo da representação de dois mascarados.

Teria Sêneca usado o termo "Persona" em sentido metafísico, ao tempo em que valorizou, extraordinariamente, o homem como indivíduo particular?! Suas expressões mostram que não: "Malit habere personam quam faciem" (De Beneficio II, 13, 2: "Prefere usar a máscara que o próprio vulto"); "Nemo potest personam diu ferre" (De clem. I, 1, 6: "Ninguém pode carregar a máscara por muito tempo") etc.

1.2) A Pessoa e a Patrística:

Por conseguinte, autores diferentes reconhecem o fato de os Clássicos desconhecerem a Realidade e a Terminologia: com efeito, a Realidade Metafísica e a terminologia são de Origem Cristã (ao lado de "Criação"): cf. E. Zeller, Die Philosophie der Griechen in ihrer geschichtlichen Entwicklung, Leipzig, p.843; E. Mounier, Il Personalismo, AVE Roma, pp. 14-16; R. Garaudy, Qu'est-ce que la morale marxiste? Ed. Sociales, Paris, p. 63.

1.2.1) A patrística, as disputas trinitárias e cristológicas dos primeiros séculos do Cristianismo aprofundaram o Dado BÍBLICO: vg. Sto. Agostinho, De Trinitate VII, 6, 11 e XV, 7, 11: procura um termo apropriado a traduzir o mistério da SSma. Trindade, um termo que não faça do Pai, do Filho e do Espírito Santo três deuses e que, por outro lado, não os dissolva numa só natureza ou essência. Encontra-o e no latino "persona", que "não significa uma espécie, mas algo de singular e de individual". Neste sentido, pode dizer que Deus é uma Natureza e três pessoas; que Cristo tem 2 naturezas e uma pessoa.

Agostinho, ademais, acrescenta: "Singulus quisque homo una persona est": Valorizando, de modo particular, o pensamento, o bispo de Hipona une os caracteres de unidade e singularidade, com os quais define a pessoa, ao poder do intelecto (mens): "Singulus quisque homo, qui ... secundum solam mentem imago Dei dicitur, una persona est e imago Trinitatis in mente".

1.2.2) São João Damasceno na linha da reflexão de Gregório Nazianzeno, que, resolutamente, destacara o significado de "persona" da máscara do teatro e acentuara as notas de "Totalidade, independência e inteligência" como características da pessoa oferece uma definição de pessoa ainda hoje atual: "Pessoa é aquilo que, exprimindo a si mesmo através de suas operações e propriedades, coloca uma manifestação de si que o distingue dos outros com a sua mesma natureza" (Dialect. c.43, in Migne P. G., 94, col. 613).

1.3) A Pessoa e a Filosofia Medieval:

1.3.1) É básica a definição de pessoa, dada por Severino Boécio, in: "Contra Eutichen et Nestorium" c.4: "Persona est rationalis naturae individua substantia".

1.3.2) Sto. Tomás d'Aquino repete a definição de Boécio e formula outras com o mesmo teor: vg: "Omne individuum rationalis naturae dicitur persona" (S. theol. I, 29, 3 ad 2).

A pessoa, segundo Tomás d'Aquino, pq. autônoma no ser ou pq. possui o próprio ser a pessoa é "Ens in se" e "Ens per se" é incomunicável. Aliás, a incomunicabilidade é tríplice: "Antes de tudo, o indivíduo que é pessoa não se pode comunicar com as outras coisas como parte, sendo um todo completo; depois, não se pode comunicar como o universal se comunica com os singulares, porquanto a pessoa é algo de subsistente; enfim, não se pode comunicar como algo de assumível porque o que é assumível ocorre na personalidade do assumente e não há mais uma personalidade própria. Não é, porém, contrária ao conceito de pessoa a capacidade de assumir" (In III Sent. d.5 q.2, a.1 a 2m). Em outras palavras, a pessoa é um ser completo (assim, o braço ou o coração da pessoa não é a pessoa); é um ser singular (desse modo a humanidade não é a pessoa); é um ser distinto (contra a possibilidade de duas pessoas se fundirem).

A pessoa é, acima de tudo, um ser racional e intelectual. Sto. Tomás, na linha de Agostinho, acentua, sobremaneira, esta característica. Analisando e desenvolvendo-a, como bem observa Dalle Nogare, Sto. Tomás pode afirmar: "A pessoa significa o que há de mais perfeito em todo o universo, isto é, o subsistente de natureza racional" (Sum. theol. I, 29,3).

Adiante, na parte reflexivo-metafísica, aludiremos ainda ao pensamento tomista. Assinalamos as seguintes fontes de aprofundamento: V. Degl'Innocenti, Il Problema del Persona nel pensiero di S. Tommaso d'Aquino, PUL, Roma, 1967; L. Pitteri, La Persona humana, sua structura ontologica nella filosofia di Tommaso d'Aquino.

1.3.3) De acordo com Stefanini, os doutores da filosofia escolástica acentuaram, sempre, as seguintes características da pessoa: "Inseidade (ens in se), perseidade (ens per se), singularidade, subsistência (amiúde usada em lugar de substancialidade), integridade, perfeição, incomunicabilidade".

Significativa, por fim, de toda a preocupação escolástica em torno da pessoa é a etimologia sugerida por Alano de Lilla (Theologicae Regulae, seg. 32, in Migne PL, 210, col. 637): persona ut "RES PER SE UNA". Em razão disso, o busílis do debate escolástico foi determinar o verdadeiro constitutivo da pessoa em face do indivíduo.

1.4) A Pessoa e a Filosofia Moderna

1.4.1) Com René Descartes começa a aparecer uma outra definição de pessoa. Já não se acentua a autonomia no ser, com suas consequências. Insiste-se, agora, na autoconsciência: "Cogito, ergo sum". A pessoa pensa a si mesma e tem a consciência de não ser puro sonho ou ilusão. Ia idéia clara e distinta!

1.4.2) A pessoa como "ser que possui Autoconsciência" influenciou toda a filosofia moderna: ser homem é ser autoconsciente ou a Pessoa é autoconsciência: cf. Hume, Fichte, Hegel, Schelling, G. Gentile. Mais recentemente: Jean Paul Sartre: é inegável que a distinção básica entre o "Pour-soi" e o "En-soi" encontra-se na consciência, cuja função negadora em face do mundo é fundamental na filosofia sartreana.

1.4.3) I. Kant, in: "Fundamentos da metafísica dos costumes" diz: "Os seres racionais são chamados pessoas porque a sua natureza os distingue como fins em si... o homem e em geral cada ser racional existe como um fim em si e não somente como um meio de que esta ou aquela vontade pode servir-se a seu bel-prazer". Consequentemente, dentro da problemática típica de Kant o traço característico da pessoa passa a ser: ser fim a si mesma.

1.5) A Pessoa e a Filosofia Contemporânea

A Filosofia moderna encerrou-se com a apoteose da Dialética hegeliana. A acentuação moderno-racionalista do homem como autoconsciência terminou por reduzi-lo a um momento, quiçá, insignificante, do movimento tritético da Idéia identificada ao Real. Em reação a tudo isto, a filosofia contemporânea voltou-se, em várias frentes, para a reflexão sobre a pessoa. Aludiremos a algumas apenas:

1.5.1) Sören Kierkegaard: a realidade fundamental é o homem: chama-o "Singular". Destarte, o Universal Espiritual de Hegel e o Universal humano de Marx são puras abstrações. O Singular conquista-se mediante a liberdade que é Angústia: o verdadeiro singular, finalmente, é aquele que, pela e na Fé, lança-se nas mãos de Deus. Quem não o fizer viverá de um dos 3 tipos de Desespero: Desespero de nem saber ter um eu próprio; Desespero Feminino; Desespero Masculino.

Com Kierkegaard, em suma, a temática da pessoa é fundamental: acentua a singularidade, já presente na filosofia escolástica como decorrente da autonomia no ser e sendo uma das expressões da incomunicabilidade. Mas, as palavras enganam e o enfoque Kierkegaardiano não é o escolástico: o singular é captado, não mediante uma análise essencialisto-metafísica, mas através da categoria existencial. Como disse Lotz: "A filosofia existencial /.../ oriunda de Kierkegaard e preparada por Scheler advoga de novo a causa da pessoa; desloca, todavia, exageradamente a essência da mesma para o que é inerente ao ato, embora seja verdade que o homem se eleva à autenticidade /.../ só pela decisão com que aceita o seu ser".

A perspectiva Kierkegaardiana fez-se presente, naturalmente com enfoques particulares e irredutíveis, na problemática de todos os filósofos existencialistas: Karl Barth, Karl Jaspers, G. Marcel, J. P. Sartre, Heidegger e tantos outros.

1.5.2) O Personalismo:

A) Charles Renouvier, em 1903, com "Le Personnalisme", deu início a uma corrente filosófica, cuja temática fulcral é a pessoa. Para ele, o caráter específico da Pessoa é o Conhecimento: não é nem um conhecimento criador, como afirmaram os idealistas, nem um conhecimento de caráter fenomênico, como assegurava I. Kant. Dá-se, aqui, um retorno à perspectiva augustiniano-tomista e escolástica em geral: a pessoa como Conhecimento é, fundamentalmente, abertura ao mundo e abertura ao Absoluto. Pode conhecer a Pessoa primeira e criadora. Ademais, "a hipótese de um mundo existente por si, eterno, não é mais do que a de um mundo que possa dar razão a si mesmo da sua existência" (Le Personnalisme, Parte VIII).

B) E. Mounier, idealizador e criador da comunidade de "Les murs blancs", é, sem dúvida, o filósofo do Personalismo mais conhecido.

a) Com referência às seguintes questões: traços biográficos, obras, contexto; Objetivo primordial e modelos empíricos de sociedade: cf.

b) Quais as principais características da pessoa? (Le Personnalisme):

A pessoa é, antes de tudo, "existência incorporada", "existência encarnada": "Não posso pensar sem ser e ser sem o meu corpo; por meio dele eu estou exposto a mim mesmo, ao mundo, aos outros; por meu meio eu fujo da solidão de um pensamento que seria apenas o pensamento do meu pensamento. Negando-me a conceder uma completa transparência para mim mesmo lanço-me continuamente para fora de mim, na problemática do mundo e na luta do homem".

A pessoa é Transcendência em face da natureza: "o homem caracteriza-se por uma dupla capacidade de destacar-se da natureza; é o único que conhece este universo que o engole e o único que o transforma, ainda que seja o menos aguerrido e o menos potente de todos os grandes seres animados".

A pessoa é comunicação: "O primeiro movimento que revela um ser humano na primeira infância é um movimento em direção aos outros; a criança dos seis aos doze meses, saindo da vida vegetativa, descobre-se a si mesma nos outros. É somente mais tarde, perto dos três anos, que haverá a primeira onda de egocentrismo consciente... A primeira experiência da pessoa é a experiência da segunda pessoa: o tu e, portanto, o nós vêm antes do eu, ou pelo menos o acompanham. É na natureza material (à qual estamos parcialmente submetidos) que reina a exclusão, porquanto um espaço não pode ser ocupado duas vezes; a pessoa, por sua vez, através do movimento que a faz existir, expõe-se, porque é por natureza comunicável e é antes a única a sê-lo".

A pessoa é Dinamismo: "A vida da pessoa é a busca até a morte de uma unidade pressentida, cobiçada e que não se realiza nunca".

A pessoa é Vocação: "Cada pessoa tem um significado tal que não pode ser substituída no lugar que ocupa no universo das pessoas".

A pessoa é Liberdade: essa "não é ligada indissoluvelmente ao ser pessoal como uma condenação (Sartre), mas lhe é proposta como um dom; ele pode aceitá-la ou rejeitá-la".

c) Além disso, Mounier está convencido de que a pessoa é o centro do universo: "Deve-se reconhecer que a realidade central do universo é um progredir para a personalização, que as realidades impessoais, ou mais ou menos despersonalizadas (a matéria, as espécies vivas, as idéias) não são senão perdas de velocidade, langores da natureza no caminho da personalização". Como não perceber, aqui, a influência de Teilhard de Chardin, para quem o homem é o "ponto ômega minúsculo", preparado pela complexificação-interiorização crescente da matéria pré-humana?!

C) M. Nédoncelle:

a) Com uma metodologia que se inspira em Gabriel Marcel (para este a abordagem científica do homem e de Deus coisifica "o mistério": cf. "Position et Approches concrètes du Mystère Ontologique"), Nédoncelle crê que o método fenomenológico e o método metafísico se devam meiar no estudo do homem. Aliás, é essa, também, a posição de G. Mondin in O homem, quem é ele?! Elementos de Antropologia Filosófica.

b) A relação Eu-tu constitui o fato primitivo: a consciência não se pode subtrair sem tender a suprimir-se. A dualidade Eu-Objeto supõe a dualidade eu-tu: esta é reciprocidade. E a reciprocidade é amor. Neste sentido, a relação fundamental é o nós, que resiste a toda força centrífuga: comunhão, consciência colegial, vontade de mútua promoção, que se alarga numa dimensão universal e tem, finalmente, como centro e fundamento o Tu por excelência ou seja Deus, tudo isto é o Amor, bem como a natureza da pessoa revelada por Amor.

c) A pessoa para se personificar deve combater todas as formas do impessoal e do anti-pessoal (o mal): a pessoa não se constrói sem riscos. Sem a intervenção do Deus-Caridade, inclusive, a pessoa mais facilmente se desfaz (cf. M. Nédoncelle, Vers une philosophie de l'amour de la personne, Paris, 1957).

D) Martin Buber em "Ich u. Du", palmilhando a mesma estrada de Mounier, Nédoncelle, Marcel, estabelece dois tipos de relação fundamental:

a) A relação "Ich-Es": aquela do homem com as coisas.

b) A relação "Ich-Du": aquela do homem com o homem.

a) A primeira relação - "Ich-Es" - tem o caráter do monopólio e os aspectos de: experimentação, objetividade, utilização, posse, fatalidade, arbítrio.

b) A segunda relação - "Ich-Du" - tem o caráter do diálogo e os aspectos de: encontro, presença, liberdade, amor, destino, ser.

c) A segunda relação pode, no entanto, ser adulterada e vivida como a primeira: um tu, então, se transforma numa "Coisa-Pessoa". Em consequência: o tu afirma "Je serai ton esclave et ta chose", como Electra a Zeus num drama de Sartre e o Eu, por seu turno, também se perde pois "Eu tenho origem na minha relação com o tu; quando eu me torno Eu, então digo tu".

II. A PESSOA: SER MAIS PERFEITO DO UNIVERSO

CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS: Depois de responder, na primeira parte, à pergunta: o que é a pessoa?, urge considerá-la como o ser mais perfeito do universo.

a) Pedro Dalle Nogare (na revista: Presença Filosófica, 1974, nºs 1,2,3, pp. 100-113) desenvolve este tema sob o ponto de vista de Santo Tomás: o homem é, sobretudo, ser racional; consequentemente, seu corpo e espírito são os mais perfeitos no mundo; por fim, o homem é o valor absoluto.

b) Seguiremos outra estrada: analisando a Autotranscendência do homem, indicada por J. de Finance (Essai sur l'agir humain, PG, Roma, 1962) e por B. Mondin (O Homem, quem é ele? Elementos de Antropologia Filosófica, Ed. Paulinas, 1980).

c) Afirma B. Mondin (depois de definir a pessoa como: um indivíduo dotado de autonomia quanto ao ser (= Boécio, Tomás, R. Guardini), de autoconsciência (= Descartes, Fichte, Hegel), de comunicação (= Marcel, Mounier, Nédoncelle, Buber) e de autotranscendência (= Blondel, Heidegger, Brightman)): "de todos esses elementos o que ilustra melhor a grandeza da pessoa humana e faz entender mais profundamente as suas características é /.../ a autotranscendência" (op. cit. p. 297).

d) Da dupla metodologia para explanar a autotranscendência: tomaremos a peito o método metafísico (Mondin: Método Fenomenológico X M. Metafísico).

2.1) NOÇÕES DE AUTOTRANSCENDÊNCIA

2.1.1) De transcendência, em sentido sensível "estar além das nuvens"; passou-se à Transcendência, em sentido abstrato "o mundo do espírito transcende o da matéria". Deste, a Transcendência passou a significar, na idade moderna, a própria Substância Divina e, contemporaneamente, a transcendência passou a ser aplicada ao sujeito: é a autotranscendência.

2.1.2) Autotranscendência, abstratamente, divide-se em: Autotranscendência Horizontal ou Histórica ("Passage", em De Finance) e Autotranscendência Vertical ou Metafísica ("Dépassement").

A autotranscendência horizontal ou histórica é aquela em que o homem efetua a superação de si mesmo, olhando para a frente, orientando-se para as coisas futuras no pensar, no querer e no agir. Divide-se em: Egocêntrica e Filantrópica.

A autotranscendência vertical ou metafísica é aquela em que o homem se ergue sobre si mesmo, olhando para cima e notando a própria finitude.

2.2) SIGNIFICADO(S) DA AUTOTRANSCENDÊNCIA

2.2.1) Concepção Egocêntrica

A) Comum a filósofos de orientações tão diferentes - Platão, Aristóteles, Estóicos, Descartes, Feuerbach, Hegel, Sartre, Nietzsche, Heidegger - a Autotranscendência seria: o esforço do homem, contínuo e ingente, para superar-se, para transpor a situação precária e indigente em que se encontra, com vistas à obtenção de um próprio ser mais verdadeiro e autêntico, de uma situação mais plenamente humana. Numa palavra: o homem, este ser insatisfeito, projeta-se, de contínuo, em busca de si mesmo.

B) Pessoalmente, com De Finance e Mondin, acreditamos que tal concepção é verdadeira em seus limites: com efeito, a autotranscendência não é imolação de si mesmo. É ela procura de um ser pessoal mais perfeito.

Por outro lado, é uma interpretação limitada, na medida em que deixa aberta uma questão de magna importância: qual a garantia do processo de autotranscendência? Como não o confundir com o esforço insensato e vão?! Todos os autores citados depositam nas mãos frágeis do próprio homem esta formidável iniciativa... e a vida, prestes, nos ensina que os acontecimentos, amiúde, ultrapassam nossas iniciativas, projetos e intenções.

2.2.2) Concepção Filantrópica

A) A partir de Karl Marx e A. Comte e acentuada, recentemente, por autores como E. Bloch, Marcuse, R. Garaudy, surgiu a Concepção Filantrópica da Autotranscendência, cujo conteúdo é o seguinte: o homem, de modo permanente, supera os angustos e estreitos quadros da própria existência, em busca da edificação de uma sociedade justa e humana. A "Humanidade autenticamente humana", eis a razão de ser da autotranscendência de cada homem autêntico.

B) Esta interpretação parece-nos conter, mais uma vez, uma profunda verdade em seus limites: a realização da pessoa humana não poderá ser um evento individual, considerando-se o fato de que a pessoa é, fundamentalmente, relação, convivência, como bem acentuaram E. Mounier, Nédoncelle, Buber e tantos outros.

Por outro lado, como notou J. de Finance e Mondin, esta interpretação deixa em aberto duas interrogações fundamentais:

Em primeiro lugar, qual a garantia de que o esforço de cada um e da humanidade atual não seja uma luta inglória?! Afinal, evoluímos de fato?! Sob tantos aspectos, constatamos um real progresso; sob tantos outros, deparamos com uma involução... Neste sentido, a "Gaudium et Spes" nº 4 e 8, analisando a real situação da humanidade fala de "Paradoxos", isto é, o entrelaçamento de aspectos positivos e negativos.

Em segundo lugar, como notou H. Gollwitzer, in: La critica marxista della religione e la fede cristiana, admitida a consecução do ideal de uma Humanidade perfeitamente humana; a realização da humanidade amanhã - vg. daqui a 200 anos! - esta não será a realização do homem singular de hoje. A interpretação filantrópica não tem palavras à esperança, que mecha em cada coração.

2.2.3) Concepção Metafísica ou Teocêntrica

A) M. Blondel, G. Marcel, K. Rahner, Metz, Boros, Lonergan e De Finance, todos de inspiração cristã, avançam a interpretação teocêntrica da Autotranscendência humana, cujo conteúdo fundamental é o seguinte: o homem abandona, permanentemente, os quadros existenciais vigentes; encontra-se polarizado para além de si mesmo; o homem "ex-sistere" numa palavra, pq. é atraído e convidado, no seu ser, a agir e pensar, por Deus. A reflexão de Blondel analisa, com perspicácia incomum, a tensão transcendental no âmbito dessas três dimensões: ser, agir e pensar.

B) Esta interpretação parece-nos ser a mais correta, congraçando as exigências das duas anteriores e atalhando suas dificuldades. Numa palavra, ela corresponde à exclamação de Santo Agostinho, que é também o anelo de todo homem: "Inquietum est cor nostrum, Domine, donec non requiescat in Te".

Há, no entanto, uma dificuldade que, em geral, é aventada: esta interpretação supõe a existência de Deus, realidade que parte significativa da filosofia moderna e contemporânea não está disposta a admitir; o agnosticismo ou mesmo o ateísmo declarado pervagam muitas filosofias.

A resposta de todos os autores desta interpretação e também a nossa é a seguinte: na verdade, esta tradução da autotranscendência humana não pressupõe a existência de Deus. Ao contrário, a autotranscendência, enquanto movimento que exige uma finalidade - caso contrário, não seria compreensível! -, é um claro testemunho a favor da existência de Deus.

Por outro lado, fica patente que a Transcendência horizontal - seja egocêntrica ou filantrópica - e a transcendência vertical não se excluem, reciprocamente. Esta, aliás, é a verdade já assinalada por Merleau-Ponty, in: "Signes": "Não foi jamais típica de nenhuma filosofia a escolha entre transcendências: por exemplo, a de Deus e a do acontecer humano; pois, antes, é esforço constante de cada filosofia mediar tais transcendências".

Em suma, como diz Joseph de Finance (op. cit. p.191): "O que é necessário reconhecer é que o impulso em direção do Ideal não é possível e não tem significado senão por causa da presença atraente e como que aspirante do Ideal Subsistente ou, para dar-lhe o nome sob o qual o invoca a consciência religiosa, de Deus. É Ele e Ele somente o Outro Absoluto e não menos a fonte de minha ipsidade que, embora me dando a mim mesmo, arranca-me do meu eu; é a presença que introduz em mim um princípio de tensão interior e de ultrapassagem".

2.3) AUTOTRANSCENDÊNCIA - NATUREZA ESPIRITUAL - PERFEIÇÃO DO HOMEM

2.3.1) Após os esclarecimentos em torno da Noção de Autotranscendência (cf. 2.1) e do(s) significado(s) da mesma realidade, mediante a aplicação do método metafísico (cf. 2.2) na suposição evidentemente do método fenomenológico, podemos prosseguir nossa pesquisa com a seguinte questão: qual a explicação suficiente da autotranscendência como tal?! Essa questão muito nos interessa, pois atinge o objetivo do presente estudo.

Se é verdade que pela Autotranscendência - e estamos plenamente convencidos disso! - o homem busca, incessantemente, a Deus, único Ser capaz de saciá-lo em relação ao anelo infinito que o invade; a razão suficiente para explicar este salto permanente para fora de si, para além de todo imediato e do mundo em sua globalidade, só pode ser uma realidade não sujeita às categorias do tempo, do espaço, da quantidade: uma realidade espiritual, em síntese!

"Agere sequitur Esse" - e esta é uma formulação dinâmica do Princípio de Identidade! - então: o homem não se satisfaz nunca com os horizontes tangíveis, ultrapassa-os permanentemente, porque é Espírito!

2.3.2) Na verdade, o homem, situado no mundo, com os pés no chão, partícipe da natureza, apresentando-se como o derradeiro rebento de 15 bilhões de [anos de] aventura do universo, ultrapassa-os pelo espírito: o homem é, substancialmente, corpo e espírito!

a) Não se trata de considerar esta união do corpo e do espírito como algo acidental, na perspectiva de Platão e dos seus discípulos mais famosos de ontem e de hoje: Plotino, Agostinho, Boaventura, Descartes, Malebranche, Leibniz etc. Não se fala, aqui, da união "do timoneiro ao navio" ou "do cavaleiro ao cavalo" ou da "teoria da harmonia preestabelecida" e "ocasionalismo".

b) Não se trata, mais ainda, de eliminar um dos dois elementos da união substancial humana: a alternativa entre Idealismo ou Materialismo, como se acentuou depois de Descartes.

c) Trata-se de compreender a união do corpo e da alma, como o fez Sto. Tomás: é uma união profunda, substancial e duradoura. O corpo e a alma formam uma única substância; eles têm um único ato de ser, o da alma; dele se torna participante também o corpo no momento da sua geração (Confronte-se: Summa theol. I, 75,2: a alma, pq. opera para si mesma, subsiste por si mesma; c/ Summa theol. I, 75,4: o sentir não é uma operação só da alma, logo o homem é corpo e espírito).

2.3.3) Manifesta-se, então, em consonância com todas as considerações anteriores, a razão pela qual a "Pessoa é o ser mais perfeito do universo".

O homem, de fato, está colocado como "Pontifex" entre o visível e o invisível! Coroa do universo, ele o ultrapassa. É o ponto ômega minúsculo. Em suma: o ser mais perfeito do universo.

Como descreveu com maestria Teilhard de Chardin: "Tendo chegado /.../ a um ponto crítico de coordenação (ou como dizemos, aqui, de enovelamento) a vida se hipercentralizou sobre si mesma, no ponto de tornar-se capaz de previsão e invenção. Ela se tornou consciente em segundo grau" (Groupe Zoologique, p.79); "A consciência, pela primeira vez na terra, dobra-se sobre si mesma, até se tornar pensamento" (Réflexions sur l'ultrahumain, p.52): "Não é só a primeira vez, mas também a única vez que esse passo foi dado" (Groupe Zoologique, p. 79).

CONCLUSÃO:

[Manuscrito ilegível no final do documento]





.

📺️(1113)_Revolução de um Padre (Milícia da Imaculada)

 


Revolução de um Padre


O texto narra a trajetória inspiradora do Padre Santos Rabang, inicialmente reconhecido pelo sucesso em aproximar a juventude da Igreja nas Filipinas. Diante de um cenário político conturbado, ele adotou uma postura ativista e combativa contra a corrupção, o que acabou resultando em sua prisão. Durante o período de confinamento, o sacerdote passou por uma profunda transformação espiritual, compreendendo que a verdadeira mudança advém da oração e do exemplo de vida, e não da militância política. Após cumprir pena, ele buscou formação com os monges trapistas e estabeleceu um eremitério isolado chamado Cristo do Deserto. Nesse local árido, ele fundou uma comunidade voltada para a contemplação, o trabalho manual e a partilha, transformando a região em um oásis de paz.


Fonte:

Revista CAVALEIRO DA IMACULADA, nº 95, 1980.


*  *  *

REVOLUÇÃO DE UM PADRE
 
Apresentamos um Padre. Hoje está com 45 anos de idade. O povo chama-o "Apo Santos", quer dizer o Padre santo. Vinte anos atrás ele foi ordenado Sacerdote. O Arcebispo de Nova Segóvia (Vigan, Filipinas) percebeu os dotes do jovem levita. Colocou-o no lugar certo: pastoral da juventude. 

Foi um sucesso. Os jovens rodearam o Padre Santos Rabang. Ele sabia falar com a nova geração. Muitos, já afastados da Igreja, reaproximaram-se. O movimento tomou volume. Era preciso organizar-se. Surgiu então o "Movimento Católico dos Jovens da Arquidiocese". 

Mas, o tempo não era de calma. A política fervia. Tornava-se urgente despertar o senso crítico. Os jovens precisavam ser orientados. Era preciso tomar atitudes. Denunciar o protecionismo e o suborno. Condenar o nepotismo e a corrupção. 

Movido pela convicção da sua fé, o Padre Santos Rabang arregaçou as mangas. Não se omitiu. Precipitou-se até. Abandonou a Diocèse. Mudou-se para a capital Manila. Tornou-se ativista. Movimentou grupos. Incomodou muito. Acabou confinado numa prisão. 

O Padre Santos Rabang soube ser crítico. Crítico autêntico. Els como ele julga hoje aqueles tempos turbulentos: "Eu fui político demais; fui pouco religioso. Fui ativo demais; pouco contemplativo. Incitei muito para a luta; rezei muito pouco". 

Na prisão aflorou-lhe uma nova realidade: Não são tanto os políticos que fazem as grandes mudanças, mas os grandes homens de oração. Dal chegou à convicção: melhorar o mundo pelo exemplo da vida. 

Escreveu ao Arcebispo. Pediu ser reintegrado na Arquidiocese. Solicitou licença para levar uma vida rigorosamente eremítica. 
Saído da prisão, procurou um Mosteiro de Trapistas. Fez um estágio. Aprendeu os segredos da vida contemplativa. A seguir voltou para a Arquidiocese. O Arcebispo ofereceu-lhe em 1977 um local de difícil acesso. Terreno desértico. Fica em Alangan, não longe de Santo Domingo. 

Ali o Padre construiu um Eremitério. Não falta uma capela aconchegante. O local recebeu um nome significativo: "Cristo do Deserto". 

Na região vivem alguns pescadores. Gente pobre. O Padre convidouos para a Celebração Eucarística. Eles vieram. Trouxeram-lhe também alimentos. 

Depois apareceram alguns jovens. Vinham com o desejo de compartiIhar aquela vida do deserto. O Padre aceitou-os. Chegaram a ser 10. Cada um tem a sua cabana de bambú. Quatro portos norteiam o Regulamento: silêncio, oração, solidão e trabalho. 

O terreno mede 25 hectares. De início, nada de verde existia ali. Aos poucos o cenário está mudando. 

Em 1979, o Arcebispo reconheceu a comunidade como "Pia Fundação". 

A comunidade reúne-se cinco vezes ao dia para a oração. Na hora da Santa Missa chegam também os pescadores.

Oferecer oportunidade para dias de recolhimento, é o desejo do Padre Santos Rabang e dos seus companheiros. Convidam sacerdotes, estudantes e simples cristãos. A comunidade está pronta para orientação de vida. Este confinamento voluntário é muito apropriado para descobrir o sentido da vida. 

A comunidade não vive ociosa. O tempo é repartido segundo a sabedoria dos antigos Padres do Deserto. As horas não ocupadas pela oração são empregadas no trabalho. É preciso construir novas cabanas. Torna-se necessário abrir valetas para condução de água. Não é nada fácil desbravar o deserto para torná-lo fértil. Mas dá resultado. As bananeiras já oferecem os seus frutos. Arroz também já foi colhido. A alimentação básica de cada dia já está assegurada. A comunidade quer partilhar com os hóspedes e com os vizinhos. Todos devem perceber claramente que ser cristão é viver para os outros. 

Esta é uma revolução que dá certo. Traz libertação. Constrói a paz. Dá sentido à vida. 

Bendito seja Deus! 
Pe. Fabiano S. Kachel, SVD. 

Fim




.

📺️(1112)_Quem Foram os Santos Padres? Os Gigantes que Defenderam a Fé!

 


Os Santos Padres da Igreja 


Chamamos de «Padres da Igreja» (Patrística) aqueles grandes homens da Igreja, aproximadamente do século II ao século VII, que foram no Oriente e no Ocidente como que «Pais» da Igreja, no sentido de que foram eles que firmaram os conceitos da nossa fé, enfrentaram muitas heresias e, de certa forma foram responsáveis pelo que chamamos hoje de Tradição da Igreja; sem dúvida, são a sua fonte mais rica. Certa vez disse o Cardeal Henri de Lubac: 


«Todas as vezes que, no Ocidente tem florescido alguma renovação, tanto na ordem do pensamento como na ordem da vida – ambas estão sempre ligadas uma à outra – tal renovação tem surgido sob o signo dos Padres.»


Gostaria de apresentar aqui ao menos uma relação, ainda que incompleta, desses gigantes da fé e da Igreja, que souberam fixar para sempre o que Jesus nos deixou através dos Apóstolos.


Em seguida, vamos estudar um pouco daquilo que eles disseram e escreveram, a fim de que possamos melhor conhecer a Tradição. [...]


 


S. Clemente de Roma (†102), Papa de Roma (88 - 97) 

Santo Inácio de Antioquia (†110) 

Aristides de Atenas (†130) 

São Policarpo de Esmira (†156) 

Pastor de Hermas (†160) 

Aristides de Atenas (†160) 

São Hipólito de Roma (160 - 235) 

São Justino (†165) 

Militão de Sardes (†177) 

Atenágoras (†180) 

São Teófilo de Antioquia (†181) 

Orígenes de Alexandria (184 - 254) 

Santo Ireneu (†202) 

Tertuliano de Cartago (†220) 

São Clemente de Alexandria (†215) 

Metódio de Olimpo (sec.III) 

São Cipriano de Cartago (210-258) 

Novaciano (†257) 

São Atanásio de Alexandria(295 -373) 

São Efrém - (306 - 373), diácono, Mesopotânia 

São Hilário de Poitiers - bispo (310 - 367) 

São Cirilo de Jerusalém, bispo (315 - 386) 

São Basílio Magno, bispo (330 - 369) - Cesaréia 

São Gregório Nazianzeno - (330 - 379), bispo 

São Ambrósio - (340 - 397), bispo, Treves - Itália 

Eusébio de Cesaréia (340) 

São Gregório de Nissa (340) 

Prudêncio (384 - 405) 

São Jerônimo ( 348 - 420), presbítero Strido, Itália 

São João Cassiano (360 - 407) 

São João Crisóstomo - (349 - 407), bispo 

São Agostinho - (354 - 430), bispo 

Santo Efrém (†373) 

Santo Epifânio (†403) 

São Cirilo de Alexandria - (370 - 442), bispo 

São Pedro Crisólogo - (380 - 451), bispo, Itália 

São Leão Magno (400 - 461), papa de Roma - Toscana, Itália 

São Paulino de Nola (†431) - Sedúlio (sec V) 

São Vicente de Lerins (†450) 

São Pedro Crisólogo (†450) 

São Bento de Núrcia (480 - 547) 

São Venâncio Fortunato (530-600) 

São Ildefonso de Toledo (617 - 667) 

São Máximo Confessor (580-662) 

São Gregório Magno (540 - 604), Papa de Roma 

São Ildefonso de Sevilha (†636) 

São Germano de Constantinopla - (610-733) 

São João Damasceno (675 - 749), bispo, Damasco 

Neste capítulo vamos apresentar um pouco daquilo que esses grandes Padres da Igreja escreveram; isto nos ajudará a compreender melhor o que é a Sagrada Tradição da Igreja. Veremos de onde vem a fonte de tudo aquilo que cremos e vivemos na Igreja [...]


São Clemente de Roma (†102), Papa (88-97), foi o terceiro sucessor de São Pedro, nos tempos dos imperadores romanos Domiciano e Trajano (92 a 102). No depoimento de Santo Ireneu “ele viu os Apóstolos e com eles conversou, tendo ouvido diretamente a sua pregação e ensinamento”. (Contra as heresias) 


Santo Inácio de Antioquia (†110) foi o terceiro bispo da importante comunidade de Antioquia, fundada por São Pedro. Conheceu pessoalmente São Paulo e São João. Sob o imperador Trajano, foi preso e conduzido a Roma onde morreu nos dentes dos leões no Coliseu. A caminho de Roma escreveu Cartas às igreja de Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia, Esmirna e ao bispo S. Policarpo de Esmirna. Na carta aos esmirnenses, aparece pela primeira vez a expressão “Igreja Católica”.


Aristides de Atenas († 130) foi um dos primeiros apologistas cristãos; escreveu a sua Apologia ao imperador romano Adriano, falando da vida dos cristãos. 


São Policarpo (†156)  foi bispo de Esmirna, e uma pessoa muito amada. Conforme escreve Santo Irineu, que foi seu discípulo, Policarpo foi discípulo de São João Evangelista. No ano 155 estava em Roma com o Papa Niceto tratando de vários assuntos da Igreja, inclusive a data da Páscoa. Combateu os hereges gnósticos. Foi condenado à fogueira; o relato do seu martírio, feito por testemunhas oculares, é documento mais antigo deste gênero (publicado neste livro). 


Hermas (†160) era irmão do Papa São Pio I, sob cujo pontificado escreveu a sua obra Pastor. suas visões de estilo apocalíptico. 


Didaquè (ou Doutrina dos Doze Apóstolos) é como um antigo catecismo, redigido entre os anos 90 e 100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia. Traz no título o nome dos doze Apóstolos. Os Padres da Igreja mencionaram-na muitas vezes. Em 1883 foi encontrado um seu manuscrito grego. 


São Justino (†165), mártir nasceu em Naplusa, antiga Siquém, em Israel; achou nos Evangelhos “a única filo proveitosa”, filósofo, fundou uma escola em Roma. Dedicou a sua Apologias ao Imperador romano Antonino Pio, no ano 150, defendendo os cristãos; foi martirizado em Roma. 


Santo Hipólito de Roma (160-235) discípulo de santo Irineu (140-202), foi célebre na Igreja de Roma, onde Orígenes o ouviu pregar. Morreu mártir. Escreveu contra os hereges, compôs textos litúrgicos, escreveu a Tradição Apostólica onde retrata os costumes da Igreja no século III: ordenações, catecumenato, batismo e confirmação, jejuns, ágapes, eucaristia, ofícios e horas de oração, sepultamento, etc. 


Melitão de Sardes (†177) foi bispo de Sardes, na Lídia, um dos grandes luminares da Ásia Menor. Escreveu a Apologia, dirigida ao imperador Marco Aurélio.


Atenágoras (†180) era filósofo em Atenas, Grécia, autor da Súplica pelos Cristãos, apologia oferecida em tom respeitoso ao imperador Marco Aurélio e seu filho Cômodo; escreveu também o tratado sobre A Ressurreição dos mortos, foi grande apologista. 


São Teófilo de Antioquia (†após 181) nasceu na Mesopotâmia, converteu-se ao cristianismo já adulto, tornou-se bispo de Antioquia. Apologista, compôs três livros, a Autólico. 


Santo Ireneu (†202) nasceu na Ásia Menor, foi discípulo de são Policarpo (discípulo de são João), foi bispo de Lião, na Gália (hoje França). Combateu eficazmente o gnosticismo em sua obra Adversus Haereses (Refutação da Falsa Gnose) e a Demonstração da Preparação Apostólica. Segundo são Gregório de Tours (†594), são Irineu morreu mártir. É considerado o “príncipe dos teólogos cristãos”. Salienta nos seus escritos a importância da Tradição oral da Igreja, o primado da Igreja de Roma (fundada por Pedro e Paulo). 


Santo Hilário de Poitiers (316-367), doutor da Igreja, foi bispo de Poitiers, combateu o arianismo, foi exilado pelo imperador Constâncio, escreveu a obra Sobre a Santíssima Trindade. 


São Clemente de Alexandria (†215) Seu nome é Tito Flávio Clemente, nasceu em Atenas por volta de 150. Viajou pela Itália, Síria, Palestina e fixou-se em Alexandria. Durante a perseguição de Setímio Severo (203), deixou o Egito, indo para a Ásia Menor, onde morreu em 215. Seu grande trabalho foi tentar a aliança do pensamento grego com a fé cristã. Dizia: “Como a lei formou os hebreus, a filo formou os gregos para Cristo”. 


Orígenes (184-254) Nasceu em Alexandria, Egito; seu pai Leônidas morreu martirizado em 202. Também desejava o martírio; escreveu ao pai na prisão: “não vás mudar de idéia por causa de nós”. Em 203 foi colocado à frente da escola catequética de Alexandria pelo bispo Demétrio. Em 212 esteve em Roma, Grécia e Palestina. A mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Mammae, chamou-o a Antioquia para ouvir suas lições. Morreu em Cesaréia durante a perseguição do imperador Décio. 


Tertuliano de Cartago (†220), norte da África, culto, era advogado em Roma quando em 195 se converteu ao Cristianismo, passando a servir a Igreja de Cartago como catequista. Combateu as heresias do gnosticismo, mas se desentendeu com a Igreja Católica. É autor das frases: “Vede como se amam” e “ O sangue dos mártires era semente de novos cristãos”. 


São Cipriano (†258) Cecílio Cipriano nasceu em Cartago, foi bispo e primaz da África Latina. Era casado. Foi perseguido no tempo do imperador Décio, em 250, morreu mártir em 258. Escreveu a bela obra Sobre a unidade da Igreja Católica. Na obra De Lapsis, sobre os que apostataram na perseguição, narra ao vivo o drama sofrido pelos cristãos, a força de uns, o fracasso de outros. Escreveu ainda a obra Sobre a Oração do Senhor, sobre o Pai Nosso. 


Eusébio de Cesaréia (260-339) bispo, foi o primeiro historiador da Igreja. Nasceu na Palestina, em Cesaréia, discípulo aí de Orígenes. Escreveu a sua Crônica e a História Eclesiástica, além de A Preparação e a Demonstração Evangélicas. Foi perseguido por Dioclesiano, imperador romano. 


Santo Atanásio (295-373), doutor da Igreja, nasceu em Alexandria, jovem ainda foi viver o monaquismo nos desertos do Egito,onde conheceu o grande Santo Antão(†376), o “pai dos monges”. Tornou-se diácono da Igreja de Alexandria, e junto com o seu Bispo Alexandre, se destacou no Concílio de Nicéia (325) no combate ao arianismo. Tornou-se bispo de Alexandria em 357 e continuou a sua luta árdua contra o arianismo (Ário negava a divindade de Jesus), o que lhe valeu sete anos de exílio. São Gregório Nazianzeno disse dele: “O que foi a cabeleira para Sansão, foi Atanásio para a Igreja.” 


Santo Hilário de Poitiers (316-367), doutor da Igreja, nasceu em Poitiers, na Gália (França); em 350 clero e povo o elegiam bispo, apesar de ser casado. Organizou a luta dos bispos gauleses contra o arianismo. Foi exilado pelo imperador Constâncio, na Ásia Menor, voltando para a Gália em 360, fazendo valer as decisões do Concílio de Nicéia. É chamado o “Atanásio do Ocidente”.Escreveu as obras Sobre a Fé, Sobre a Santíssima Trindade. 


Santo Efrém, o Sírio (†373) doutor da Igreja é considerado o maior poeta sírio, chamado de “a cítara do Espírito Santo”. Nasceu em Nísibe, de pais cristãos, por volta de 306, deve ter participado do Concílio de Nicéia (325), segundo a tradição, com o seu bispo Tiago. Foi ordenado diácono em 338 e assim ficou até o fim da vida. Escreveu tratados contra os gnósticos, os arianos e contra o imperador Juliano, o apóstata. Escreveu belos hinos e louvores a Maria. 


São Cirilo de Jerusalém (†386), doutor da Igreja, Bispo de Jerusalém, guardião da fé professada pela Igreja no Concílio de Nicéia (325). Autor das Catequeses Mistagógicas, esteve no segundo Concílio Ecumênico, em Constantinopla, em 381. 


São Dâmaso (304-384), Papa da Igreja, instruído, de origem espanhola, sucedeu o Papa Libério que o ordenou diácono; obteve do Imperador Graciano o reconhecimento jurisdicional do bispo de Roma. Mandou que S. Jerônimo fizesse uma revisão da versão latina da Bíblia, a Vulgata. Descobriu e ornamentou os túmulos dos mártires nas catacumbas, para a visita dos peregrinos. 


São Basílio Magno (329-379), Bispo e doutor da Igreja, nasceu na Capadócia; seus irmãos Gregório de Nissa e Pedro, são santos. Foi íntimo amigo de S. Gregório Nazianzeno; fez-se monge. Em 370 tornou-se bispo de Cesaréia na Palestina, e metropolita da província da Capadócia. Combateu o arianismo e o apolinarismo (Apolinário negava que Jesus tinha uma alma humana). Destacou-se no estudo a Santíssima Trindade (Três Pessoas e uma Essência). 


São Gregório Nazianzeno (329-390), doutor da Igreja – nasceu em Nazianzo, na Capadócia, era filho do bispo local, que o ordenou padre; foi um dos maiores oradores cristãos. Foi grande amigo de São Basílio, que o sagrou bispo. Lutou contra o arianismo. Sua doutrina sobre a Santíssima Trindade o fez ser chamado de “teólogo”, que o Concílio de Calcedônia confirmou em 481. 


São Gregório de Nissa (†394) foi bispo de Nissa, e depois de Sebaste, irmão de São Basílio e amigo de São Gregório Nazianzeno. Os três santos brilharam na Capadócia. Foi poeta e místico; teve grande influência no primeiro Concílio de Constantinopla (381) que definiu o dogma da SS. Trindade. Combateu o apolinarismo, macedonismo (Macedônio negava a divindade do Espírito Santo) e arianismo. 


São João Crisóstomo (354-407) ( = boca de ouro), doutor da Igreja, é o mais conhecido dos Padres da Igreja grega. Nasceu em Antioquia. Tornou-se patriarca de Constantinopla, foi grande pregador. Foi exilado na Armênia por causa da defesa da fé sã. Foi proclamado pelo papa S. Pio X, padroeiro dos pregadores. 


São Cirilo de Alexandria (†444) Bispo e doutor da Igreja, sobrinho do patriarca de Alexandria, Teófilo, o substituiu na Sé episcopal em 412. Combateu vivamente o Nestorianismo (Nestório negava que em Jesus havia uma só Pessoa e duas naturezas), com o apoio do papa Celestino. Participou do Concílio de Éfeso (431), que condenou as teses de Nestório. É considerado um dos maiores Padres da língua grega, e chamado o “Doutor mariano”. 


São João Cassiano (360-465) recebeu formação religiosa em Belém e viveu no Egito. Foi ordenado diácono por S. João Crisóstomo, em Constantinopla, e padre pelo papa Inocêncio, em Roma. Em 415 fundou dois mosteiros em Marselha, um para cada sexo. São Bento recomendou seus escritos. 


São Paulino de Nola (†431) nasceu na Gália (França), exerceu importantes cargos civis até ser batizado. Vendeu seus bens, distribuindo o dinheiro aos pobres, e com sua esposa Terásia passou a viver vida eremítica. Foi ordenado padre em 394, em 409 bispo de Nola. 


São Pedro Crisólogo (†450) (= palavra de ouro) bispo e doutor da Igreja – foi bispo de Ravena, Itália. Quando Êutiques, patriarca de Constantinopla pediu o seu apoio para a sua heresia (monofisismo - uma só natureza em Cristo), respondeu: “Não podemos discutir coisas da fé, sem o consentimento do Bispo de Roma”. Temos 170 de suas cartas e escritos sobre o Símbolo e o Pai – Nosso. 


Santo Ambrósio (†397), doutor da Igreja, nasceu em Tréveris, de nobre família romana. Com 31 anos governava em Milão as províncias de Emília e Ligúria. Ainda catecúmeno, foi eleito bispo de Milão, pelo povo, tendo, então recebido o batismo, a ordem e o episcopado. Foi conselheiro de vários imperadores e batizou santo Agostinho, cujas pregações ouvia. Deixou obras admiráveis sobre a fé católica. 


São Jerônimo (347-420), “Doutor Bíblico” – nasceu na Dalmácia e educou-se em Roma; é o mais erudito dos Padres da Igreja latina; sabia o grego, latim e hebraico. Viveu alguns anos na Palestina como eremita. Em 379 foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino de Antioquia; foi ouvinte de São Gregório Nazianzeno e amigo de São Gregório de Nissa. De 382 a 385 foi secretário do Papa S. Dâmaso, por cuja ordem fez a revisão da versão latina da Bíblia (Vulgata), em Belém, por 34 anos. Pregava o ideal de santidade entre as mulheres da nobreza romana (Marcela, Paula e Eustochium) e combatia os maus costumes do clero. Na figura de São Jerônimo destacam-se a austeridade, o temperamento forte, o amor a Igreja [...]. 


Santo Epifânio (†403), Nasceu na Palestina, muito culto, foi superior de uma comunidade monástica em Eleuterópolis (Judéia) e depois, bispo de Salamina, na ilha de Chipre. Batalhou muito contra as heresias, especialmente o origenismo. 


Santo Agostinho (354-430), Bispo e Doutor da Igreja - Nasceu em Tagaste, Tunísia, filho de Patrício e S. Mônica. Grande teólogo, filósofo, moralista e apologista. Aprendeu a retórica em Cartago, onde ensinou gramática até os 29 anos de idade, partindo para Roma e Milão onde foi professor de Retórica na corte do Imperador. Alí se converteu ao cristianismo pelas orações e lágrimas, de sua mãe Mônica e pelas pregações de S. Ambrósio, bispo de Milão. Foi batizado por esse bispo em 387. Voltou para a África em veste de penitência onde foi ordenado sacerdote e depois bispo de Hipona aos 42 anos de idade. Foi um dos homens mais importantes para a Igreja. Combateu com grande capacidade as heresias do seu tempo, principalmente o Maniqueísmo, o Donatismo e o Pelagianismo, que desprezava a graça de Deus. Santo Agostinho escreveu muitas obras e exerceu decisiva influência sobre o desenvolvimento cultural do mundo ocidental. É chamado de “Doutor da Graça”. São Leão Magno (400-461) - Papa e Doutor da Igreja - nasceu em Toscana, foi educado em Roma. Foi conselheiro sucessivamente dos papas Celestino I (422-432) e Xisto III (432-440) e foi muito respeitado como teólogo e diplomata. Participou de grandes problemas da Igreja do seu tempo e pôde travar contato pessoal e por cartas com Santo Agostinho, São Cirilo de Alexandria e São João Cassiano, que o descrevia como “ornamento da Igreja e do divino ministério”. Deixou 96 Sermões e 173 Cartas que chegaram até nós. Participou ativamente na elaboração dogmática sobre o grave problema tratado no Concílio de Calcedônia, a condenação da heresia chamada monofisismo. Leão foi o primeiro Papa que recebeu o título de Magno (grande). Em sua atuação no plano político, a História registrou e imortalizou duas intervenções de São Leão, respectivamente junto a Átila, rei dos Hunos, em 452, e junto a Genserico, em 455, bárbaros que queriam destruir Roma. 


São Vicente de Lérins (†450) Depois de muitos anos de vida mundana se refugiou no mosteiro de Lérins. Escreveu o seu Commonitorium, “ para descobrir as fraudes e evitar as armadilhas dos hereges”. 


São Bento de Núrcia (480-547) nasceu em Núrcia, na Úmbria, Itália; estudou Direito em Roma, quando se consagrou a Deus. Tornou-se superior de várias comunidades monásticas; tendo fundado no monte Cassino a célebre Abadia local. A sua Regra dos Mosteiros tornou-se a principal regra de vida dos mosteiros do ocidente, elogiada pelo papa S. Gregório Magno, usada até hoje. O lema dos seus mosteiros era “ora et labora”. O Papa Pio XII o chamou de Pai da Europa e Paulo VI proclamou-o Patrono da Europa, em 24/10/1964. 


São Venâncio Fortunato (530-600) nasceu em Vêneto na Itália, foi para Poitiers (França). Autor de célebres hinos dedicados à Paixão de Cristo e à Virgem Maria, até hoje usados na Igreja. 


São Gregório Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja - Nasceu em Roma, de família nobre. Ainda muito jovem foi primeiro ministro do governo de Roma. Grande admirador de S. Bento, resolveu transformar suas muitas posses em mosteiros. O papa Pelágio o enviou como núncio apostólico em Constantinopla até o ano 585. Foi feito papa em 590. Foi um dos maiores papas que a Igreja já teve. Bossuet considerava-o “modelo perfeito de como se governa a Igreja”. Promoveu na liturgia o canto “gregoriano”. Profunda influência exerceram os seus escritos: Vida de São Bento e Regra Pastoral, usado ainda hoje. 


São Máximo, o confessor (580 - 662) nasceu em Constantinopla, foi secretário do imperador Heráclio, depois foi para o mosteiro de Crisópolis. Lutou contra o monofisismo e monotelismo, sendo preso, exilado e martirizado por isso. Obteve a condenação do monotelismo no Concílio de Latrão, em 649. 


Santo Ildefonso de Sevilha (†636) doutor da Igreja. Considerado o último Padre do ocidente. Bispo de Sevilha, Espanha desde 601. Em 636 dirigiu o IV Sínodo de Toledo. Exerceu notável influência na Idade Média com os seus escritos exegéticos, dogmáticos, ascéticos e litúrgicos. 


São Germano de Constantinopla - (610-733) Bispo - Patriarca de Constantinopla (715-30), nasceu em Constantinopla ao final do reinado do imperador Heracleo (610-41); morreu em 733 ou 740. Filho de Justiniano, um patriciano, Germano dedicou seus serviços à Igreja e começou como clérigo na catedral de Metrópolis. Logo depois da morte de seu pai que havia ocupado vários altos cargos de oficial, pelas mãos do sobrinho de Herácleo, Germano se consagrou bispo de Chipre, o ano exato, porém, de sua elevação é desconhecido. 


São João Damasceno (675-749) Bispo e Doutor da Igreja - É considerado o último dos representantes dos Padres gregos. É grande a sua obra literária: poesia, liturgia, filo e apologética. Filho de um alto funcionário do califa de Damasco, foi companheiro do príncipe Yazid que, mais tarde o promoveu ao mesmo encargo do pai, ministro das finanças. A um determinado tempo deixou a corte do califa e retirou-se para o mosteiro de São Sabas, perto de Jerusalém. Tornou-se o pregador titular da basílica do Santo Sepulcro. Enfrentou com muita coragem a heresia dos iconoclastas que condenavam o culto das imagens. Ficaram famosos os seus Três Discursos a Favor das Imagens Sagradas. 






.

📺️(1111)_Maria - Menina no Templo (Milícia da Imaculada)

 


MARIA MENINA NO TEMPLO


(Apresentação de Maria - 21 de novembro)


É sabido que os Evangelhos começam a falar de Maria somente a partir do momento da Anunciação, ou seja do seu engajamento total na Obra da Salvação quando a Virgem aceitou conscientemente a vontade de Deus para ser a Mãe de Jesus Cristo.


A piedade cristã, por sua vez, desde muito cedo, procurou dedicar bastante interesse também para com os outros momentos da vida da Santíssima Mãe de Deus.


Entre muitos momentos assim evidenciados e celebrados encontra-se a APRESENTAÇÃO DE MARIA NO TEMPLO.


A tradição extra-evangélica diz que Maria na idade de menina, foi levada pelos seus pais para o Templo de Jerusalém a fim de prestar alguns serviços na Casa de Deus e ao mesmo tempo aprender mais profundamente a herança religiosa de Israel.


Não sabemos como se realizou, em detalhes, esta experiência de Maria: que pessoas tomaram conta dela e, provavelmente, de outras meninas como Ela; que roteiro de ocupações foi realizado; e quanto tempo durou sua permanência na sombra daquele ambiente sagrado.


É de aceitar com fé, que o Espírito Santo conduzia esta sua Eleita, pelos caminhos de sua Providência. Maria, a Imaculada, aberta e dócil para as inspirações divinas, devia considerar muito proveitoso e edificante tudo em que participava todo dia.


Desde muito cedo Maria adquiriu e aprofundou aquela atitude de "meditar em seu coração", tão lhe característica e forte nas páginas do Evangelho.


Graças a esta atitude meditativa, Maria colhia muitas mensagens dos Livros Sagrados da Lei de Moisés, dos Profetas e dos Salmos. No seu Coração aberto e recolhido, inocente e cheio de graça, teceram-se os atos de louvor ao Pai do Céu, tão presente em todos os acontecimentos descritos nas páginas da Bíblia. Os atos de gratidão pela providência maravilhosa do Altíssimo no decorrer da história do povo de Israel, desde o Patriarca Abraão, homem de fé inabalável, e tantas outras figuras maravilhosas dos antepassados até os últimos momentos da atualidade. A gratidão pela libertação do Egito e pelo assentamento das tribos de israel na Terra Prometida. Tantas intervenções divinas nos momentos cruciais da caminhada do Povo.


Deviam doer-lhe as repetidas infidelidades e ingratidões do mesmo Povo para com o seu Deus. As ingratidões fazem parte integral da história de Israel. As tentações eram fortes e a inclinação dos filhos de Abraão para as divindades alheias era impressionante. Muitíssimas vezes obcecava-se o coração do povo em atitude de abandonar os preceitos do Senhor, para seguir os cultos dos deuses pagãos - coloridos, barulhentos e agitados e por isso tão fascinantes e irresistíveis. Ao mesmo tempo enganosos, porque retraíam o Povo Escolhido da sua missão, a única no seio da humanidade.


Com uma profunda dor de coração, Maria acompanhava as desgraças que caíam sobre seus antepassados quando estes abandonavam o Senhor. Deus os repreendia com dureza, mas sempre lhes perdoava, quando reconheciam seus erros e, humilhados, voltavam ao seu legítimo Pastor.


Toda a história de Israel era cheia de altos e baixos. A mais impressionante, no entanto, aparecia a fidelidade de Deus, que punindo e corrigindo os pecadores, continuava levando para frente sua Obra da Salvação.


Maria, então, conhecendo a História do seu Povo, até as raízes mais profundas, sentia uma viva esperança de que os Planos de Deus íam se cumprir todos, sem falha.


Ela ainda não suspeitava em que medida estes planos divinos incluíam a sua própria pessoa. Não obstante, se dispunha para tudo o que fosse do agrado de Deus. É muito provável que lá, durante a sua permanência no serviço do Templo, Maria chegou a se considerar "a serva do Senhor", até o mais fundo sentido desta palavra.


Inegavelmente, Maria tornou-se conhecedora peculiar da Palavra de Deus. Uma amostra disso foi o seu próprio cântico "Magnificat" em que Ela soube se expressar maravilhosamente, servindo-se das palavras da Sagrada Escritura.


Assim, a permanência de Maria no Templo foi muito providencial. De forma natural e orgânica, contribuiu para o resto do seu desempenho nos planos de Deus. Graças àquele estágio providencial no Templo, tornam-se mais compreensíveis as atitudes posteriores de Maria, seja no momento da Anunciação, seja nos momentos subseqüentes.


Frei Agostinho, OFMConv.






.

📺️(1110)_A Era de Aquários e o Poder da Mente (Lauro Trevisan)

 


Uma visão da nova era de Aquarius. 


Em janeiro de 1991, por ocasião do primeiro Congresso Internacional do Poder da Mente, com o tema da nova era, que realizamos em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Brasil, eu lancei um livro com esse título, Aquarius – A Nova Era Chegou. Vou oferecer-lhe uma visão geral do assunto abordado nessa obra.


Li certa vez, de um grande pensador, o seguinte. Toda a teoria do universo está dirigida para o indivíduo, a saber, você mesmo. Nesta nova era, o que importa é o homem.


As grandes navegações se darão pelos desconhecidos oceanos da mente humana. O que hoje se conhece do microcosmo, ou seja, do mundo interior da criatura humana. Embora pareça muito, é algo superficial.


É tão pouco como imaginar que o planeta Terra tivesse somente o tamanho do que pudesse ser abrangido pelos olhos. O homem de Aquarius lança-se freneticamente à conquista do seu microcosmo. E as descobertas que vão se sucedendo formarão as bases da nova humanidade.


À medida que o ser humano modifica o seu modo de ser, o mundo também modifica-se-á. Aquarius leva o homem para dentro de si. Afim de que, partindo do seu centro, venha à tona com uma nova visão, com um novo relacionamento, com nova atitude, com nova mentalidade, com novos projetos de vida humana, social, espiritual e material.


Hoje, Era de Aquarius é um misto de ciência com mística. Amanhã será a palavra da verdade. Atualmente, a humanidade ainda está impregnada de uma visão do universo à moda das eras anteriores.


E pensa que o mundo é acionado apenas pelas máquinas, pelas forças materiais, pela energia física, pela matéria-prima da natureza. Mas logo mais reconhecerá que a força motriz do mundo e do progresso está dentro do seu microcosmo. A consciência da sua própria consciência, produzindo a consciência do seu próprio poder e de sua dimensão superior, levando o homem a percorrer do alfa ao ômega, na linguagem de Teilhard de Chardin, isto caracteriza a nova humanidade de Aquarius.


Pode-se dizer agora que não há nada no mundo a não ser o homem. Não há nada no homem a não ser a mente. Não há nada maior na mente a não ser Deus.


A compreensão da unidade Deus-Homem ou Homem-Deus, não no sentido de que o homem seja Deus, mas na significação de que no homem está Deus, e ambos são uma comunhão perfeita, de tal forma que Deus só pode agir no ser humano através do próprio ser humano. Isto já nos coloca num novo patamar da história. O grande sábio que anunciou a nova era, chamado Jesus, já ensinava que somos uma unidade com o Pai.


A partir do conhecimento desta verdade, compreendemos, com certa facilidade até, que temos dentro de nós o legítimo poder criador. Logo saltam aqueles que fazem uma pergunta oposicionista, baseados em conclusão errônea. Quer dizer, então, que o homem é Deus de si mesmo? Nada disso. 


Nada disso. Quer dizer que Deus habita o íntimo do ser humano e se manifesta através de leis criadas pela sabedoria do próprio Deus. Em outras palavras, o homem é o que é, graças à presença divina em si.


O poder do homem é, na verdade, o poder de Deus no homem. É preciso reconhecer que Deus não usa a criatura humana como uma espécie de ferramenta para agir no mundo. Se assim fosse, tudo o que acontece no mundo seria obra exclusiva de Deus, tanto o bem quanto o mal.


Isso é absurdo. É absurdo. Deus criou o ser humano, a sua imagem e semelhança, manifestando o seu poder infinito através da palavra, do pensamento, da imagem, do desejo ou de qualquer ato criador da mente humana.


Esta sempre foi a verdade absoluta, mas a compreensão e a utilização deste conhecimento são a novidade da nova era de aquários. Jesus revelou esta verdade há dois mil anos, indicando o caminho certo pelo qual devia trilhar a humanidade daí para frente. Inicialmente, suas revelações eram encaradas como absurdo, como coisas de um louco e até foi taxado de demente.


Saíram para o reter porque diziam estar fora de si. É o que narra o evangelista Marcos. Por outro lado, muitos, numa lucidez visionária do mundo e do futuro da humanidade, exclamavam Este é realmente o profeta que deve vir ao mundo. 


Este é realmente o salvador do mundo. Ele é bom, diziam uns. Qual, tornavam outros, engana o povo.


Por que esta contradição? Porque uns já vislumbravam na maior empolgação o nascer de um novo mundo, ao passo que outros viam-no como demente, visionário, alienado e perigoso para a sociedade. Que diria o homem das cavernas se você, numa visão futurística lhe falasse de aviões, de naves espaciais, de geladeira de máquina fotográfica, de raios laser, de edifícios de cem andares? Que poderia dizer o homem de dois mil anos atrás vivendo num mundo de guerras, de conquistas territoriais sob a lei da força, sob o domínio absoluto de imperadores e poderosos sob a orientação espiritual de religiões, de medos e castigos quando começasse a ouvir alguém falar-lhe de amor, de paz, de reino dos céus de perdão, de curas, de fraternidade de bondade, de uma força insuperável de um poder chamado fé? Que reação teria esse mesmo homem da antiguidade que via Deus além das nuvens quando alguém lhe explicasse que Deus está dentro de cada um e exerce seu poder em resposta à palavra, à oração, ao pensamento? Não admira, pois, que as mentes daquela época abertas apenas à compreensão de uma minúscula parcela do todo rejeitassem uma mensagem projetada para um futuro bem distante Jesus reconheceu essa dicotomia e reagiu à incompreensão e resistência de três maneiras Primeira, mesmo que o mundo do seu tempo não o entendesse e o condenasse não retiraria um tiro sequer de tudo o que afirmava Segunda, sabia que tendo olhos não viam e tendo ouvidos não ouviam Terceira, tinha certeza que a evolução dos tempos faria a humanidade amadurecer para a compreensão e prática de suas grandes verdades e revelações Jesus inaugurou a era de peixes anunciando a era de aquários e nesta longa caminhada de dois mil anos descobertas, invenções experiências e estudos abriram as portas de entrada da nova era Já estamos longe dos períodos obscuros da história em que o homem comportava-se como animal dedicando-se exclusivamente a prover a sua alimentação Também estamos deixando para trás o homem animal racional confinado nas parcas dimensões de suas análises objetivas e mergulhado no descontrole de sua vida O mestre foi radicalmente sábio quando disse que para entrar na nova era do reino dos céus, era necessário renascer Havia que desfazer-se de todos os conceitos e preconceitos arquivados na mente Era mistério liberar a velha carcaça de séculos e começar a partir da luz original do espírito eterno Sim, renascer pela água que deve lavar tudo o que se fixou e sedimentou até agora e pelo espírito que é a luz pura nascida do sol infinito O sol, a sua luz e a sua energia são a trindade humana da era de aquários que assinala o nascer de um novo homem o homem racional divino e portanto todo poderoso Este novo homem tem todas as condições para construir um mundo de paz, de amor de abundância, de saúde, de fraternidade e de reino dos céus, porque sabe que não precisa arrancar dos outros o que necessita para realizar-se plenamente na vida mas de si mesmo, já que a fonte está dentro de si, ao seu alcance Isto parece fantasia não porém para quem conhece a ciência do poder da mente agora a ciência está conduzindo a mística e a mística está levando a ciência a mente ligando-se ao além da mente e o além da mente dando a mão à ciência Como se dará a transformação do mundo de aquários e porquê? Inicialmente, em outras eras o ser humano abriu os olhos para o mundo ao seu redor e empreendeu a aventura fantástica da sua descoberta analisando-o, extraindo suas leis, determinando sistemas de melhor aproveitamento do mesmo ficou porém ao abandono o seu próprio microcosmo fato que originou tantos sofrimentos doenças, misérias, destruições, injustiças fome, depressão, angústias, tristezas estresse, solidão, desespero impossibilidade de conciliar seus desejos com suas realidades. Nesta era de aquários o pesadelo acabará o homem volta-se para dentro de si lançando-se na fantástica descoberta do seu microcosmo a façanha maior será percorrer as dimensões do seu mundo interior cuja visão profunda lhe dará a chave de uma nova vida de reino dos céus na terra a paz reinará em todo o planeta a fome e as privações desaparecerão pois a abundância é fruto do poder criador mental pedir e dar-se-vos-a a vida será mais fácil e livre porque a verdade será conhecida no interior da pessoa e a verdade vos libertará de ser o mestre e o que dizer dos grandes problemas mentais como a depressão, tristeza o desânimo, o estresse, a angústia, a ansiedade, as preocupações o nervosismo, a agitação, além de serem facilmente curáveis serão normalmente evitáveis sabe-se que a lei de causa e efeito rege a vida humana problemas mentais têm causas mentais mudando seus padrões de pensamento mudar-se-á o efeito pensamentos e mentalizações de alegria, de felicidade, de autoconfiança de calma, de ânimo, de entusiasmo de energia mental produzirão os resultados correspondentes ao conteúdo de cada palavra simples, simples nesta nova era o amor será reconhecido como a essência natural do indivíduo Aquarius é a era do amor dar-se-á a comunhão universal entre todos os seres a comunhão universal determina que o indivíduo é o universo e o universo é o indivíduo esta interação funde o ser humano com o universo físico numa íntima relação de amor essencial Aquarius a nova era lembre-se, para você a nova era é você, para a humanidade você, já vivendo a nova era é a luz que faltava festeja este novo dia levante um brinde a sua aventura cósmica o mundo reconhecido aplaudirá eternamente você


(Transcrito por TurboScribe)


Fonte:

Palestra de Lauro Trevisan







.

📺️(1109)_Manual - Capítulo 12 - FINS EXTERNOS DA LEGIÃO

 


Capítulo 12 - FINS EXTERNOS DA LEGIÃO


1. O trabalho atualmente em curso


A Legião não se propõe este ou aquele trabalho especial: tem como objetivo principal a santificação dos seus membros. Para atingir esta finalidade apóia-se, em primeiro lugar, na assistência às diversas reuniões, em que a oração e outras práticas de piedade estão tão unidas e entrelaçadas que moldam com suas características toda a atividade legionária. Mas a Legião procura desenvolver a santidade de um modo peculiar, dando-lhe o caráter de apostolado, aquecendo-a até o ponto de sentir a necessidade de se comunicar. Esta difusão não é apenas o aproveitamento de uma força em desenvolvimento, mas, por uma espécie de reação, é um elemento necessário ao desenvolvimento dessa mesma força: nada contribui mais para o progresso do espírito apostólico do que o exercício do apostolado. Daí, o motivo por que a Legião impõe a cada membro uma obrigação essencial da máxima importância: a de realizar semanalmente um trabalho ativo, determinado pelo Praesidium. A execução desta tarefa constitui um ato de obediência ao Praesidium. Salvas as exceções adiante indicadas, o Praesidium pode aprovar qualquer trabalho ativo que satisfaça a referida obrigação. Todavia, a Legião exige que o trabalho obrigatório seja orientado para reais necessidades e, entre estas, as mais graves, pois a intensidade do zelo que a Legião se esforça por inflamar nos seus membros exige um objetivo digno. Um trabalho insignificante provocará reações desfavoráveis: corações prontos a sacrificar-se pelo próximo, a pagar a Jesus Cristo amor com amor e, em reconhecimento pelos Seus trabalhos e por Sua morte, prontos a dar-Lhe o seu esforço e o seu sacrifício – acabarão por instalar-se na pobreza de uma rotina e na perda de entusiasmo pelo trabalho apostólico.


“Eu não fui recriado com a mesma facilidade com que fui criado. Deus disse uma palavra – e tudo foi feito; mas, se isto bastou para me criar, já para me recriar disse muitas palavras, obrou muitas maravilhas e sofreu muitas dores.” (São Bernardo).


2. O fim mais remoto e mais elevado: o fermento da comunidade


Por mais importante que seja o trabalho que esteja sendo realizado, a Legião não o considera como o fim último ou mesmo principal do apostolado de seus membros. O trabalho pode consumir uma, duas ou mais horas da semana do legionário; para a Legião, porém, que olha mais longe, cada hora deve constituir a irradiação do fogo apostólico aceso no seu lar. O sistema que inflama assim as pessoas lançou no mundo uma força poderosa. O espírito apostólico domina como senhor e tudo governa: pensamentos, palavras e ações. As suas manifestações externas não são limitadas pelo tempo nem pelo espaço. Os indivíduos mais tímidos e os menos dotados adquirem uma capacidade especial para influenciar os outros, de modo que, onde quer que estejam, e mesmo sem terem a intenção de exercer apostolado, conseguem dominar o pecado e a indiferença. É a experiência universal que no-lo ensina. Tal como o general que contempla, satisfeito, a sólida ocupação dos pontos estratégicos, a Legião vê com alegria os lares, as oficinas, as escolas, os estabelecimentos comerciais e os lugares dedicados ao trabalho e ao recreio, onde um verdadeiro legionário foi colocado pelas circunstâncias. Mesmo onde a falta de religião e o escândalo se encontram fortemente entrincheirados, a presença desta nova Torre de David impedirá o seu avanço e fará com que recuem. A Legião nunca dará seu apoio à corrupção: antes, deverá se esforçar em remediá-la, tornando-a objeto das suas orações, lamentando-a com mágoa, combatendo-a contínua e decididamente, em busca de um êxito que certamente há de alcançar.


Assim, pois, a Legião começa por reunir os seus membros a fim de que, perseverem em oração, juntamente com a sua Rainha. Envia-os em seguida aos lugares de pecado e de aflição, para aí praticarem o bem e para que fazendo-o, se inflamem na vontade de realizar maiores coisas; e, finalmente, estende o seu olhar para os largos caminhos e pequenos atalhos da vida de cada dia, a fim de neles descobrir campo de ação para missões, cada vez mais gloriosas. Conhecedora das realizações operadas por pequeninos núcleos legionários; ciente das possibilidades ilimitadas de recrutamento; e convicta de que o seu sistema, se vigorosamente utilizado pela Igreja, constitui um meio extraordinariamente eficaz para purificar o mundo pecador, a Legião deseja ardentemente que os seus membros se multipliquem e se tornem Legião no número, como o são no nome. 


Unindo os legionários ativos, os auxiliares e aqueles que estão sob sua influência, a Legião conseguirá abranger uma população inteira e erguê-la do nível de negligência e da rotina a uma entusiasmada fidelidade à Igreja. Imagine-se o que isto significa numa aldeia ou cidade! Os fiéis deixam de ser um peso morto na Igreja, para constituírem uma força motriz, cujos impulsos, diretamente ou através da comunicação dos Santos, atingem os confins da Terra e, até os lugares mais sombrios. Uma população inteira organizada pela causa de Deus – que ideal sublime! Ideal não apenas teórico, mas possível e prático no mundo dos nossos dias, se todos resolverem levantar os olhos para o alto e a pôr mãos à obra.


“Sim, o laicado é uma ‘raça escolhida, um sacerdócio santo’, chamado a ser o ‘sal da terra’, e a  ‘luz do mundo’. A sua missão específica é exprimir o Evangelho na vida pessoal e, desta forma, colocá-lo como fermento, na realidade do mundo, em que vive e trabalha. As grandes forças que moldam o mundo – a política, os meios de comunicação social, a ciência, a tecnologia, a cultura, a educação, a indústria e o trabalho – são precisamente as áreas em que os leigos gozam de uma especial competência no exercício da sua missão. Se estas forças forem guiadas por verdadeiros discípulos de Cristo, que sejam ao mesmo tempo inteiramente competentes nos conhecimentos humanos, podemos estar seguros de que o mundo será transformado, a partir de dentro, pelo poder redentor de Cristo.” (João Paulo II, Irlanda, Limerick, outubro de 1979).


3. A união de todos os homens


“Procurar primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça” (Mt 6, 33), ou seja, trabalhar diretamente na salvação das almas, eis a preocupação maior da Legião de Maria. Não se deve esquecer, no entanto, que outras coisas lhe foram dadas por acréscimo, como, por exemplo, o seu valor como elemento social. Torna-se, assim, a Legião de Maria um tesouro nacional para o país onde se encontra, e converte-se, para os seus habitantes, em um valioso elemento de riqueza espiritual.


O exercício frutuoso da máquina social exige, como qualquer outro mecanismo, a cooperação harmoniosa de todas as suas peças. Cada uma, isto é, cada indivíduo, deve cumprir rigorosamente a função que lhe foi confiada causando o menor atrito possível.   Aliás, se o indivíduo não cumpre com a sua obrigação, surge o desperdício de energia, o bom andamento é perturbado e os dentes da roda da máquina social deixam de se ajustar uns aos outros. Reparar o mal é impossível, pois torna-se dificílimo descobrir-lhe a extensão ou as causas. Por isso, o remédio a adotar consiste em aumentar a força motriz ou lubrificar a máquina com mais dinheiro. Este remédio leva a um fracasso progressivo, pois diminui a noção de serviço ou de colaboração espontânea. Há sociedades com tal vitalidade que podem continuar a funcionar mesmo quando metade de suas partes se encontram mal engrenadas. Mas à custa de quanta pobreza, de quanta frustração e infelicidade! Não se poupam dinheiro nem esforços para pôr em ação peças que deviam mover-se sem dificuldade ou ser, até mesmo, fontes de energia. Resultado: problemas, desordens, crises.  


Ninguém ousará negar que isto se passa mesmo nos Estados mais bem governados. O egoísmo é a regra da vida individual; o ódio converte a existência de muitos em forças puramente destrutivas, e cada dia que desponta traz consigo uma nova e universal demonstração da verdade que pode ser expressa rigorosamente nestes termos: “Os homens que negam Deus, que Lhe são traidores, atraiçoarão igualmente todas as pessoas e tudo quanto existe abaixo de Deus – no Céu e na Terra” (Brian O’Higgins).  


A que alturas podemos esperar que se eleve o Estado, se ele não é mais que a soma das vidas individuais? Se as são um perigo e um tormento para si próprias, que poderão oferecer ao mundo senão uma parte da sua própria desordem?


Suponhamos agora que uma força nova surge na sociedade, comunicando-se de indivíduo a indivíduo, como que por contágio, e converte em centro de atração os ideais generosos de abnegação e de fraternidade: – que transformação não seria operada! As chagas vivas cicatrizam-se e a vida passa a ser vivida num nível superior. Imagine-se ainda o aparecimento de uma nação em que a vida se ajuste por estas elevadas normas e apresente perante o mundo o exemplo de um povo inteiro que pratica unanimemente a sua Fé, e resolve, em conseqüência, todos os seus problemas sociais. Quem põe em dúvida que tal nação passaria a constituir, para o mundo, um farol luminoso, a cujos pés se sentaria a Terra para alimentar-se da luz dos seus ensinamentos?


Ora é indiscutível que a Legião possui a força capaz de interessar os leigos na sua própria religião, de forma vital e também de comunicar um idealismo ardente aos que vivem sob a sua influência, fazendo-os esquecer as divergências, as distinções e as rivalidades e fazendo com que se resolvam a amar o gênero humano e a servi-lo devotadamente. Este idealismo, que se encontra enraizado na religião, não é um simples sentimento, não se evapora: disciplina o indivíduo, educando-lhe a vontade de servir; anima-o a sacrificar-se e torna-o capaz de maiores heroísmos.


Por quê? A razão está na causa motriz. A energia deve ter uma fonte. A Legião dispõe de um motivo que força a servir a comunidade. E o motivo é este: Jesus e Maria eram cidadãos de Nazaré. Amavam a sua aldeia e o seu país com religiosa devoção, pois para os judeus a fé e a pátria estavam tão divinamente enlaçadas que formavam apenas uma só coisa. Jesus e Maria viveram perfeitamente a vida comum de sua localidade. Cada pessoa, cada coisa ali era para eles objeto do mais profundo interesse. Seria impossível imaginá-los indiferentes ou descuidados sob qualquer aspecto.   


Hoje, o seu país é o mundo e cada lugar, a sua Nazaré. Numa comunidade de batizados, Jesus e Maria estão mais intensamente unidos às pessoas do que outrora aos seus próprios parentes. Mas o Seu amor tem agora de se exercer por meio do Corpo Místico. Se os membros deste corpo se esforçarem por servir o lugar em que vivem, Jesus e Maria virão a esse lugar e derramarão a sua benéfica influência, não só sobre as pessoas como também no meio-ambiente. Haverá progressos materiais e os problemas hão de diminuir.  Nem há verdadeiros melhoramentos que possam vir de qualquer outra fonte. 


A atenção ao nosso dever de cristãos em cada localidade seria mais uma manifestação de patriotismo. Esta palavra não é bem compreendida: que vem a ser de fato o verdadeiro patriotismo? Dele não existe no mundo nem mapa nem modelo. Um exemplo aproximado é a dedicação e o sacrifício pessoal que se desenvolve em tempo de guerra. Mas neste caso, a dedicação e o sacrifício são motivados mais pelo ódio do que pelo amor e, por conseguinte, orientados para a destruição. É imperioso, pois, estabelecer um modelo correto de patriotismo pacífico.


É este serviço da comunidade, feito por motivos espirituais, que a Legião vem estimulando com o nome de Verdadeiro Amor à Nação. Não só deve este serviço ser empreendido por motivos espirituais, mas ele e tudo o que origina nele deve ser utilizado para promover o bem espiritual. Atividades que só produzissem progressos materiais falsificariam a idéia do Verdadeiro Amor à Nação. O Cardeal Newman exprime perfeitamente esta idéia básica, quando diz que um desenvolvimento material, que não é acompanhado por uma manifestação correspondente de ordem moral é quase para inspirar medo. É indispensável garantir o verdadeiro equilíbrio. 


O Concilium tem à disposição de quem o desejar, um folheto sobre este assunto. 


Reparem, povos da Terra! Se assim é a Legião, não parece que ela nos oferece, pronta para o combate, uma Cavalaria dotada do poder mágico de unir os homens num sublime empreendimento pela Causa de Deus, serviço que supera infinitamente as lendárias campanhas do Rei Artur, o qual, segundo Tennyson, “na sua ordem da Távola Redonda, juntou a Cavalaria Andante de seu reino e de todos os reinos numa Companhia gloriosa, elite da humanidade, para servir de modelo ao mundo poderoso e constituir o início sorridente de uma nova era?”


“A Igreja, que é ao mesmo tempo ‘agrupamento visível e comunidade espiritual,’ caminha juntamente com toda a humanidade, participa da mesma sorte terrena do mundo e é como que o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus. 


O Concílio incentiva os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que caminhamos em busca da futura, pensam que podem por isso descuidar dos deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé os obriga ainda mais, a cumprir esses deveres, segundo a vocação própria de cada um” (GS 40-43).


“Uma resposta prática a esta necessidade e obrigação realçadas na Constituição Conciliar encontra-se no movimento legionário começado em 1960 e conhecido como o Verdadeiro Amor à Nação. A medida dos bons êxitos já alcançados mostra as vastas possibilidades de desenvolvimento. Mas, note-se bem, o que a Legião tem para oferecer à ordem temporal não é um conhecimento ou competência excepcionais, não é uma habilidade extraordinária, nem mesmo um grande número de trabalhadores – mas o dinamismo espiritual que a converteu numa força mundial que pode ser aproveitada para elevar qualquer setor do Povo de Deus, que tenha a inteligência e o bom senso de aproveitar essa força. A iniciativa, porém, deve vir da Legião. Afastando embora tudo o que possa sugerir mundanismo, a Legião há de recordar-se sempre do mundo, no sentido do Decreto anterior. Tome consciência de que o homem tem de viver no meio das coisas materiais, das quais depende em larga escala, a sua própria salvação” (Padre Thomas O’Flynn, C.M., antigo Diretor Espiritual do Concilium Legionis Mariae).       


4. A grandiosa campanha pela causa de Deus


Esta é a cavalaria de que a Igreja precisa neste tempo de extraordinário perigo para a religião. A preocupação com as coisas do mundo e a falta de consciência religiosa, animados por hábil propaganda, difundem a sua influencia corruptora, em círculos cada vez mais vastos, ameaçando submergir o mundo. 


Comparada com estas forças formidáveis, vemos como a Legião é uma organização modesta! Não importa. Esse mesmo contraste torna-a mais audaz. A Legião é formada por almas estreitamente unidas à Virgem poderosíssima; encerra em si grandes princípios e conhece a forma eficaz de os aplicar. Tudo leva a crer, portanto, que o Onipotente se digne operar nela e por ela os maiores prodígios. 


Os objetivos da Legião de Maria são totalmente opostos aos das legiões que negam “o nosso único Mestre e Senhor Jesus Cristo” (Jd 1, 4). O objetivo da Legião de Maria é levar Deus e a religião a todo o indivíduo; o das outras legiões é precisamente o contrário. Não se pense, no entanto, que o plano da Legião foi idealizado especialmente para opor-se a este império da descrença. As coisas passaram-se com extrema simplicidade. Um pequeno grupo de almas reuniu-se em torno de uma imagem de Nossa Senhora e disse-lhe: “Guiai-nos!” Unidos a Ela, começaram a visitar uma enorme enfermaria, cheia de aflitos, de doentes e miseráveis, de uma grande cidade, vendo em cada um deles o amado Filho de Maria. Compreenderam que Jesus estava presente em cada membro da humanidade e que deviam ajudar Maria na tarefa maternal de cuidar d’Ele. De mãos dadas com Ela, iniciaram o seu trabalho simples e humilde, e ei-los tornados Legião. Esta Legião entrega-se a atos simples de amor de Deus, no homem, e de amor dos homens por amor de Deus; em toda a parte este amor revela o seu poder de ganhar os corações. 


Também os sistemas materialistas professam amar e servir o homem. Pregam um evangelho vazio de fraternidade, em que milhões e milhões de pessoas acreditam. Para o abraçar abandonam a religião que julgam sem vida. No entanto, esta situação não é desesperada. Há um meio de trazer de novo à fé estes milhões de homens e de salvar outros milhões incontáveis. A esperança baseia-se na aplicação de um grande princípio que São João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars, formulava nestes termos: “O mundo pertence a quem mais o ama e melhor lhe testemunha o seu amor.” As pessoas não deixarão de ver e de ser impressionadas por uma fé real que atua, movida por um amor heróico a todos os homens. Convencei-os de que a Igreja os ama mais do que os outros, e hão de regressar à fé, apesar de todas as dificuldades e, se for preciso, derramar por ela o próprio sangue. 


Para realizar uma conquista assim, não basta um amor vulgar, nem um Catolicismo pobre que dificilmente se agüenta a si mesmo. Tal obra só pode ser levada avante por um Catolicismo que ame de todo o coração a Jesus Cristo, seu Senhor, e saiba vê-lo e amá-lo em todos os homens, sem distinção. Mas esta suprema caridade de Cristo deve ser praticada em tão alto grau que leve os que a observam a considerá-la como uma verdadeira característica da Igreja e não como manifestação isolada de alguns de seus membros. Deve manifestar-se na vida do conjunto dos leigos.


Não será demasiada ambição querer inflamar toda a Igreja neste sublime ideal? Sim, a tarefa é heróica. Os horizontes do problema são tão extensos e tão numerosas as hostes que dominam os povos, que até o coração mais valente pode ser levado a desanimar. Mas Maria é o coração da Legião, e este coração é fé e amor sem igual. Com esta firme convicção, a Legião estende os seus olhares sobre o mundo com inabalável esperança: “A terra pertence a quem mais a ama.” E voltando-se para a sua excelsa Rainha, diz-lhe como no princípio: “Guiai-nos!”


“A Legião e o materialismo que age na sociedade enfrentam-se mutuamente. Vamos compará-los. A verdadeira energia motriz do sistema materialista é a sua disciplina implacável, exercendo-se através de uma rede de espiões e denunciantes. Isto está de tal modo desenvolvido que os cidadãos em geral sentem que tudo quanto fazem ou dizem será denunciado. Utilizando este instrumento de terror universal, uma autoridade que oprime pode impor a sua vontade a uma nação inteira. É um sistema eficiente, mas horrível. A submissão completa a este controle absoluto significa a extinção da liberdade e finalmente da própria faculdade moral.


Nada consegue resistir a este domínio a não ser a mobilização total dos católicos. A Legião possui, para este fim, a engrenagem perfeita, fato admitido pelo exército contrário. Mas essa engrenagem por si, é inútil se lhe falta uma força que a movimente. Essa energia motriz reside na espiritualidade legionária, que consiste num real apreço pelo Espírito Santo e pela Verdadeira Devoção à Sua Esposa, a Bem-aventurada Virgem Maria, e numa verdadeira confiança nos mesmos, espiritualidade esta que se alimenta do Pão da Vida, a Eucaristia. 


Quando estas duas forças, a Legião e o materialismo, entram em luta, este último pode matar e perseguir, mas falhará na tentativa de esmagar o espírito da Legião. Os legionários suportam os maus tratos e, mantendo vivas as chamas da liberdade e da religião, acabam, finalmente, por triunfar” (Padre Adão MacGrath, S.S.C.).


Fim


Fonte: 

https://legiomariae.com.br/sobre/manual-estatuto/



Biblioteca Virtual do PCJ





xxxxxxxxxxxxxxxxxxx


Fins Externos da Legião


A **Legião de Maria** tem como principal objetivo promover a **santificação espiritual** de seus membros por meio de reuniões de oração e da obrigação semanal de realizar um **trabalho apostólico ativo**. Além das tarefas imediatas, a organização busca transformar a **sociedade a partir de lares e comunidades**, inspirando os leigos a viverem o Evangelho com profundo **entusiasmo e dedicação**. Esse movimento atua como uma força espiritual capaz de combater o **materialismo e a indiferença religiosa**, promovendo o amor genuíno ao próximo e o **verdadeiro amor à nação**. Guiados pelo exemplo de Jesus e Maria, os legionários esforçam-se para **unir os homens sob a causa divina**, enfrentando desafios com inabalável esperança e confiança na fé católica.



Fonte: 

https://legiomariae.com.br/sobre/manual-estatuto/






.